O verão de 2026 vai entrar para a história do videogame esportivo por um motivo que ninguém poderia imaginar há cinco anos: pela primeira vez, a Copa do Mundo da FIFA existe simultaneamente como evento físico em três países — Estados Unidos, Canadá e México — e como ecossistema gaming fragmentado em três produtos distintos que disputam o mesmo momento cultural. EA Sports FC 26, Football Manager 26 e o novo jogo da FIFA exclusivo na Netflix desenvolvido pela Delphi Interactive. Três filosofias diferentes, três públicos diferentes, três modelos de negócio diferentes, e uma única pergunta que vale milhões: quem vai vencer a guerra do simulador de futebol nesta Copa do Mundo? Para quem acompanha o torneio também pelo lado das probabilidades e do entretenimento digital, essa disputa dialoga com o mesmo universo de análise que envolve Superbet Copa do Mundo 2026: apostas esportivas e odds, já que jogos, dados, previsões e mercados esportivos estarão mais conectados do que nunca.
A resposta é mais complicada do que parece, e envolve uma inversão histórica que ninguém previu.
A grande reviravolta: a FIFA não está mais com a EA
Para entender o tabuleiro de 2026, é preciso lembrar de 2022. Depois de quase 30 anos de parceria, a FIFA e a Electronic Arts se separaram em meio a disputas sobre taxas de licenciamento e o uso futuro do nome FIFA. A EA manteve os direitos das ligas, dos clubes e dos jogadores, rebatizou a franquia como EA Sports FC, e seguiu vendendo dezenas de milhões de cópias por ano. A FIFA ficou com o nome, mas sem jogo.
Por três anos, o cenário ficou estranho. A EA Sports FC dominava o mercado sem poder usar o nome do torneio mais importante do planeta. A FIFA ficou tentando licenciar a marca para títulos menores, como o FIFA Rivals da Mythical Games e o FIFA Heroes da ENVER, sem nunca conseguir um substituto à altura. E o público competitivo continuou jogando EA FC normalmente, porque, no fim das contas, o que importa para quem joga sério é o motor, o balanceamento, o sistema de Ultimate Team — não o logo do torneio na tela inicial.
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Mas agora, em maio de 2026, a equação mudou completamente. E mudou de uma forma que coloca a EA, pela primeira vez em décadas, na posição estranha de chegar à Copa do Mundo sem a licença oficial.
EA Sports FC 26: a marca forte que joga sem o logo
Vamos ser claros sobre o que a EA realmente tem para oferecer neste verão. Segundo informações vazadas pelo ReFIFA, fonte confiável da comunidade, a EA vai entregar um torneio genérico, provavelmente chamado de “International Cup”, com logo customizado, troféu genérico e gráficos de transmissão alternativos. O pacote vai incluir cerca de 60 seleções nacionais (contra as 29 já presentes no jogo atual), as bolas oficiais da adidas (esse acordo é com a marca alemã, não com a FIFA), novos estádios e a volta das “legacy real faces” para jogadores como Arnautović, Paquetá e Valencia.
A volta do Brasil licenciado é um ponto importante, especialmente para o público brasileiro que esperava por isso há anos. Uruguai também volta. E entre as 18 seleções já confirmadas para a Copa do Mundo 2026 que já estão no jogo estão Argentina, Inglaterra, França, Alemanha, Portugal, Espanha, Marrocos, México, Holanda, Noruega e os Estados Unidos.
Mas é preciso reconhecer o que a EA não pode fazer. Sem a licença FIFA, ela não pode chamar o torneio pelo nome oficial. Não pode usar o troféu original. Não pode usar a identidade visual oficial da Copa do Mundo 2026. Em um verão em que o mundo inteiro vai estar consumindo conteúdo do Mundial em todas as plataformas, ter que chamar o torneio de “International Cup” no jogo mais vendido de futebol do planeta é um lembrete público e constante de que a licença está com outra pessoa.
Para o público competitivo, isso pouco importa. A EA Sports FC 26 está confirmada como um dos 24 títulos do Esports World Cup 2026 em Riad, Arábia Saudita, que acontece de 6 de julho a 23 de agosto — exatamente sobreposto ao Mundial físico. Com um prize pool total de 75 milhões de dólares no evento, a EA FC continua sendo o título competitivo de futebol mais relevante do mundo. Nenhum dos concorrentes desta estação chega perto disso.
Football Manager 26: o outsider que chega ao Mundial com a licença na mão
Aqui está a virada que ninguém viu chegar. Em 17 de outubro de 2025, a Sports Interactive (estúdio do FM) e a SEGA anunciaram um acordo plurianual com a FIFA, garantindo as licenças oficiais da Copa do Mundo FIFA, da Copa do Mundo Feminina e do Mundial de Clubes. Pela primeira vez na história da franquia Football Manager, o Mundial vai aparecer totalmente licenciado: troféu oficial, gráficos de transmissão reais, bola oficial do torneio, e os kits licenciados das seleções (com rollout gradual, já que algumas aprovações de licenciamento ainda estão em andamento).
O cronograma é claro. O modo Gestão Internacional retorna ao FM26 em 26 de maio de 2026 como atualização gratuita para todas as versões (PC, Console, Touch). Uma segunda atualização chega em junho para finalizar os elencos definitivos de 26 jogadores de cada seleção participante do Mundial. O timing é deliberado: a Copa do Mundo começa em 11 de junho de 2026, então o FM26 vai estar com tudo pronto na semana do pontapé inicial.
Mas há um paradoxo doloroso aqui. O FM26 teve um lançamento difícil. As avaliações no Metacritic ficaram em “mixed or average”. A nova interface foi duramente criticada pela comunidade. A transição para o motor Unity, embora visualmente impressionante, trouxe instabilidade. O próprio diretor do estúdio, Miles Jacobson, fez uma declaração pública reconhecendo que o jogo não atingiu as expectativas dos fãs e prometendo que as lições serão aplicadas no FM27.
Então a Sports Interactive chega ao verão da Copa do Mundo numa situação curiosa: com a licença mais prestigiosa do setor, mas com o produto sob crítica. Se o pacote da Gestão Internacional for bem executado, o FM26 pode se redimir parcialmente. Se for entregue com bugs e problemas como o lançamento original, vai ser uma oportunidade histórica desperdiçada.
FIFA na Netflix: a aposta da Delphi Interactive
E no meio de tudo isso, em dezembro de 2025, a FIFA anunciou uma parceria com a Netflix Games para lançar um jogo de futebol exclusivo na plataforma, desenvolvido pela Delphi Interactive. O lançamento está previsto para o verão de 2026, sem data exata ainda confirmada, claramente alinhado com a Copa do Mundo.
A retórica do anúncio foi grandiosa. Gianni Infantino, presidente da FIFA, falou em “redefinir a pura noção de jogos de simulação” e em “uma nova era do futebol digital”. Casper Daugaard, fundador da Delphi Interactive, prometeu construir “o jogo de futebol mais divertido, acessível e global já criado”.
Mas as especificações técnicas contam outra história. O jogo é mobile-first: roda no iOS, Android e em Smart TVs selecionadas usando o celular como controle. É gratuito para assinantes da Netflix. É “fast to learn, thrilling to master” — fácil de aprender, difícil de dominar. Em outras palavras, não é um simulador no sentido em que EA FC ou FM são simuladores. É um jogo casual de futebol projetado para alcançar bilhões de pessoas que nunca tocariam em um título tradicional.
A Delphi Interactive é um estúdio novo cujo trabalho mais conhecido até agora foi ter conseguido a licença James Bond para a IO Interactive desenvolver 007: First Light. O time técnico inclui Julien Merceron, veterano com mais de 30 anos na indústria, que trabalhou no motor FOX da Konami. Mas competir tecnicamente com a EA, que tem quase 30 anos de evolução de motor, é praticamente impossível em um único ciclo de desenvolvimento.
A pergunta não é se o jogo da Netflix vai rivalizar tecnicamente com EA FC. Não vai. A pergunta é se ele vai criar uma categoria nova de jogador casual de futebol — aquele que assiste o jogo da Copa pela TV e abre o app da Netflix para jogar uma partida rápida com o amigo durante o intervalo.
Quem ganha a guerra?
A resposta honesta é: cada um vence em um campo diferente.
A EA Sports FC 26 ganha o público competitivo, o Ultimate Team, o esports e os puristas que querem a melhor simulação técnica do mercado, mesmo sem o nome FIFA na tela. O Football Manager 26 ganha o público tático, profundo, que vai vivenciar a Copa pela primeira vez com licença completa, em um momento em que o estúdio precisa desesperadamente recuperar a confiança. E o jogo da Netflix ganha um público que os outros dois nunca alcançariam — o espectador casual que entra pelo streaming.
Três Copas do Mundo simultâneas. Três modelos. Três públicos. E uma indústria do futebol gaming que, depois de décadas de monopólio EA-FIFA, finalmente está fragmentada o suficiente para ser interessante de novo.
