Resumo da Notícia
A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) recebeu, em junho de 2026, a carta patente de um veículo aéreo não tripulado que combina um módulo lançador, semelhante a um foguete, com um drone multirotor desacoplável. A tecnologia foi projetada para levar equipamentos a grandes altitudes sem consumir antecipadamente a bateria que será utilizada na missão principal.
Batizado de Veículo Aéreo Não Tripulado Híbrido para Operação com Multirotor em Grandes Altitudes (VANTH-GA), o sistema foi desenvolvido pelos pesquisadores Luiz Marcos Garcia Gonçalves, Alysson Nascimento de Lucena e Raimundo Carlos Silvério Freire Júnior. O pedido havia sido depositado em 2019 no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
A proposta é permitir operações de monitoramento ambiental, pesquisas atmosféricas, vigilância e comunicação temporária com maior precisão de posicionamento. Como o primeiro protótipo ainda está em fabricação, desempenho, autonomia e redução de custos precisarão ser demonstrados nas etapas de validação.
Como funciona o veículo híbrido patenteado pela UFRN
O VANTH-GA divide o voo em duas etapas. Na primeira, o módulo lançador conduz o equipamento até a altitude ou região definida para a missão. Depois, a aeronave multirotor é liberada com sua bateria preservada para realizar o monitoramento ou a coleta de dados.
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O lançador utiliza uma tubeira articulável, componente que direciona o fluxo produzido pelo motor. O mecanismo permite controlar o empuxo, corrigir a trajetória e realizar deslocamentos laterais durante o voo.
Segundo Alysson Lucena, o sistema foi pensado para desacelerar até alcançar o voo pairado, situação em que o equipamento permanece praticamente parado no ar. A partir desse ponto, o módulo multirotor pode iniciar a missão com sua matriz energética disponível.
“Conseguimos liberar a aeronave multirotor com 100% de sua matriz energética disponível para executar análises detalhadas no local desejado”, explica o pesquisador na reportagem publicada pela UFRN.
Essa arquitetura procura solucionar uma limitação dos drones convencionais: parte considerável da bateria pode ser consumida apenas para atingir o local e a altitude de operação. No VANTH-GA, o esforço inicial fica concentrado no módulo lançador.
Dificuldade com balões meteorológicos motivou a pesquisa
A ideia começou a ser desenvolvida depois de uma visita dos pesquisadores ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em Natal. Na ocasião, a equipe observou as dificuldades para conduzir balões meteorológicos até pontos previamente definidos.
Balões são deslocados pelas correntes de ar e possuem capacidade limitada de permanecer sobre uma área específica. O problema é especialmente relevante no Rio Grande do Norte, onde ventos mais intensos podem dificultar o controle da posição.
A partir dessa necessidade, os pesquisadores buscaram um sistema que pudesse alcançar grandes altitudes e, ao mesmo tempo, reduzir a velocidade para permanecer em uma área delimitada durante a coleta de informações.
A pesquisa está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e de Computação (PPGEEC) e ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica (PPGEM), ambos do Centro de Tecnologia da UFRN.
Onde o VANTH-GA poderá ser utilizado

A arquitetura patenteada admite diferentes equipamentos e sensores, conforme a finalidade da operação. Entre as aplicações estudadas estão:
- monitoramento ambiental e agrícola por imagens;
- coleta de dados e partículas presentes na atmosfera;
- pesquisas meteorológicas em grandes altitudes;
- criação temporária de links de comunicação;
- acompanhamento de áreas de fronteira;
- estudos sobre correntes de umidade conhecidas como “rios voadores”;
- análise de partículas transportadas pelos ventos, como a poeira do Saara que chega ao Brasil.
Um dos diferenciais pretendidos é a capacidade de permanecer sobre determinado ponto durante alguns minutos. Satélites fazem observações em larga escala, mas passam sobre a região seguindo suas órbitas. Aviões tripulados oferecem maior controle de trajetória, porém envolvem custos operacionais e estruturas diferentes.
O VANTH-GA busca ocupar um espaço intermediário, com observações mais localizadas e possibilidade de configuração conforme os sensores necessários. A viabilidade econômica, porém, somente poderá ser medida depois da construção e dos ensaios do protótipo.
Protótipo será submetido a testes estruturais e de voo
A pesquisa deixou a fase exclusivamente conceitual e entrou na fabricação do primeiro protótipo funcional. Inicialmente, a equipe pretende avaliar a resistência da estrutura e o funcionamento do controle de empuxo e do deslocamento lateral.
Somente após essas verificações serão iniciados os testes de voo. A UFRN não informou a altitude máxima projetada, a autonomia, a capacidade de carga nem uma data prevista para a conclusão dessa etapa.
Alysson Lucena também desenvolve pesquisas no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em um projeto financiado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). O trabalho envolve aeronaves híbridas capazes de realizar decolagem e pouso vertical, área conhecida pela sigla internacional VTOL.
O que a patente garante à UFRN
A carta patente não significa que o veículo esteja pronto para comercialização. Ela reconhece e protege a solução técnica desenvolvida pelos pesquisadores.
Segundo o guia oficial do INPI, uma patente de invenção pode ter validade de 20 anos contados da data do depósito, desde que sejam cumpridas as obrigações necessárias à sua manutenção. Nesse período, o titular pode impedir que terceiros produzam, utilizem, coloquem à venda, vendam ou importem a tecnologia protegida sem autorização.
A UFRN poderá desenvolver diretamente o projeto ou celebrar contratos de licenciamento e transferência de tecnologia. Essa atividade é conduzida pela Agência de Inovação da UFRN (Agir), responsável pela proteção e gestão de ativos de propriedade intelectual da Universidade.
A concessão também não substitui as autorizações exigidas para testes e operações. Veículos aéreos não tripulados precisam observar as regras da Agência Nacional de Aviação Civil e do Departamento de Controle do Espaço Aéreo. Componentes que utilizam radiofrequência também estão sujeitos à homologação da Agência Nacional de Telecomunicações.
