Relatório da Funpec aponta perda de quase 40% da areia da engorda de Ponta Negra em um ano

O entorno do Morro do Careca foi o trecho mais crítico em perda proporcional, com redução de 51,87% do volume inicial, enquanto a Via Costeira concentrou a maior perda absoluta, com 207 mil metros cúbicos.
Engorda da Praia de Ponta Negra
Engorda da Praia de Ponta Negra - Crédito: Live Cam Natal / YouTube

Resumo da Notícia

  • A engorda da Praia de Ponta Negra registrou perda de 39,27% do volume de areia acima da linha d'água entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026.
  • O volume total de sedimentos na área monitorada caiu de 1,02 milhão de metros cúbicos para 619,8 mil metros cúbicos em doze meses.
  • A região do Morro do Careca foi a mais afetada, apresentando uma redução proporcional de 51,87% no volume de areia.
  • O relatório da Funpec recomenda intervenções como reaterro, controle de drenagem a montante e implantação de lagoas de infiltração no bairro.
  • A Secretaria Municipal de Infraestrutura de Natal ressalta que a redução não significa perda definitiva, podendo ser fruto de redistribuição natural de sedimentos.

A engorda da Praia de Ponta Negra perdeu 39,27% do volume de areia acima da linha d’água em um ano, segundo monitoramento técnico da Fundação Norte-rio-grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec/UFRN). A redução foi identificada na comparação entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, com maior impacto proporcional no entorno do Morro do Careca, área considerada a mais crítica pelo estudo.

Em números absolutos, o volume analisado passou de 1,02 milhão de metros cúbicos para 619,8 mil metros cúbicos em doze meses. A diferença representa uma erosão de 400,9 mil metros cúbicos de sedimentos na faixa da praia monitorada.

O relatório, porém, faz uma ressalva importante: os dados não permitem afirmar, isoladamente, que toda essa areia saiu de forma definitiva do sistema costeiro. A análise considera apenas a área da praia acima da linha d’água e não inclui a antepraia, trecho submerso onde parte dos sedimentos pode ter sido redistribuída.

Segundo os pesquisadores, somente levantamentos topobatimétricos complementares poderão indicar com precisão se o material foi deslocado para áreas submersas próximas ou redistribuído para outros setores de Ponta Negra.

Onde a engorda perdeu mais areia?

O monitoramento dividiu a engorda em três áreas: Área A, na Via Costeira; Área B, no trecho central de Ponta Negra; e Área C, no entorno do Morro do Careca.

A situação mais crítica, proporcionalmente, foi registrada na região do Morro do Careca. A Área C perdeu 111,1 mil metros cúbicos, o equivalente a 51,87% do volume inicial. O trecho é apontado no relatório como o ponto de maior vulnerabilidade no primeiro ano após a conclusão da obra.

A Via Costeira, identificada como Área A, teve perda percentual ligeiramente menor, de 49,74%, mas concentrou a maior redução em volume absoluto: 207 mil metros cúbicos. O trecho passou de 416,3 mil m³ para 209,2 mil m³.

Já o trecho central de Ponta Negra, correspondente à Área B, apresentou a menor redução proporcional entre as três áreas. O volume caiu de 390,2 mil m³ para 307,4 mil m³, uma perda de 82,7 mil m³, ou 21,21% do total inicial.

Como ficou cada área da engorda

ÁreaFev/2025Fev/2026Erosão
Via Costeira (Área A)416,3 mil m³209,2 mil m³207 mil m³ (-49,74%)
Ponta Negra (Área B)390,2 mil m³307,4 mil m³82,7 mil m³ (-21,21%)
Morro do Careca (Área C)214,2 mil m³103,1 mil m³111,1 mil m³ (-51,87%)
Total1,02 milhão m³619,8 mil m³400,9 mil m³ (-39,27%)

Fonte: Funpec/UFRN

Relatório recomenda reaterro e controle da drenagem

O estudo aponta que, sem novas intervenções, a tendência é de continuidade da perda de sedimentos na região do Morro do Careca e redistribuição do material em direção ao trecho central da praia.

No mesmo temaEstudo da UFRN revela biodiversidade escondida em águas subterrâneas da Caatinga

As projeções indicam que, sem intervenções complementares, como reaterro; controle de drenagem a montante; redimensionamento dos dissipadores; implantação de lagoas de captação/infiltração no bairro de Ponta Negra; a tendência é de continuidade da perda de sedimentos na Zona C e redistribuição dos materiais para a Zona B até que se atinja um novo equilíbrio sedimentar”, diz trecho do estudo.

Entre as medidas citadas estão reaterro, controle da drenagem a montante, redimensionamento dos dissipadores e implantação de lagoas de captação e infiltração no bairro de Ponta Negra. As recomendações indicam que o problema não está restrito à faixa de areia em si, mas também envolve a forma como a água escoa em direção à praia durante episódios de chuva.

A secretária municipal de Infraestrutura, Shirley Cavalcanti, afirmou que o resultado do levantamento não significa, necessariamente, perda definitiva da areia usada na obra.

O relatório citado não afirma que houve perda definitiva de 40% do aterro hidráulico”, pontua.

Segundo a titular da Seinfra, a redução observada precisa ser interpretada dentro da dinâmica costeira da praia.

Dessa forma, a redução observada está relacionada à dinâmica natural de transporte e redistribuição de sedimentos ao longo da praia, sem que isso represente necessariamente a saída desse material do sistema costeiro”, complementa Shirley Cavalcanti.

A posição da secretaria dialoga com a própria ressalva técnica do relatório, que indica a necessidade de estudos complementares para confirmar se parte da areia foi deslocada para áreas submersas ou redistribuída ao longo do sistema costeiro.

Quais eventos marcaram o primeiro ano da engorda?

O relatório da Funpec relaciona a perda de sedimentos a uma sequência de episódios erosivos registrados ao longo do primeiro ano após a conclusão da engorda, especialmente no entorno do Morro do Careca. Foram destacados quatro eventos críticos.

O primeiro ocorreu em 6 de fevereiro de 2025, poucas semanas após a inauguração da obra. Chuvas intensas abriram uma voçoroca na região do Morro do Careca, provocando carreamento de sedimentos e exigindo intervenções emergenciais da Prefeitura para recompor a área afetada.

Em 18 de junho de 2025, durante o período chuvoso, um novo rompimento foi registrado no pé do Morro do Careca. O monitoramento apontou que o escoamento concentrado da água voltou a provocar erosão na faixa de areia, levando a novas ações corretivas do poder público.

Em outubro de 2025, o relatório associou os alagamentos observados à combinação entre precipitações, drenagem urbana e maré elevada provocada pela superlua. Essas condições contribuíram para a retirada de sedimentos e para o avanço do mar sobre a praia.

O quarto evento ocorreu em fevereiro de 2026, durante a campanha de monitoramento feita um ano após a conclusão da engorda. Os pesquisadores voltaram a identificar sinais de erosão no entorno do Morro do Careca, reforçando a avaliação de que as medidas adotadas até aquele momento não foram suficientes para eliminar as causas do problema.

O que o relatório indica sobre o futuro de Ponta Negra?

O levantamento mostra que a engorda de Ponta Negra passou por forte redistribuição de sedimentos no primeiro ano, com perdas mais intensas no entorno do Morro do Careca e na Via Costeira. Ao mesmo tempo, o estudo evita tratar a redução como perda definitiva sem novos levantamentos que incluam a antepraia.

Na prática, o relatório coloca dois pontos no centro do debate: a necessidade de monitoramento técnico mais completo e a adoção de intervenções complementares para reduzir a erosão, especialmente na área do Morro do Careca. Sem essas medidas, a tendência apontada pelos pesquisadores é de continuidade da perda de sedimentos na Zona C até que a praia alcance um novo equilíbrio sedimentar.

Continua após a publicidade

Deixe um comentário

Seu e‑mail não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.