Sob desgaste, Lula lança novo Desenrola e pode derrubar taxa das blusinhas criada em seu governo

As duas medidas têm forte peso eleitoral, porque atacam temas diretamente sentidos pelo consumidor: endividamento, crédito caro e encarecimento de compras populares pela internet.
Lula lança novo Desenrola e avalia derrubar taxa das blusinhas em meio à corrida eleitoral
Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Resumo da Notícia

  • O governo lançou o novo Desenrola Brasil para renegociar dívidas de pessoas com renda de até cinco salários mínimos.
  • O programa permite descontos de até 90% e uso do FGTS para quitar débitos de cartão e crédito pessoal.
  • Usuários que aderirem ao programa ficarão bloqueados por um ano em plataformas de apostas online.
  • O Palácio do Planalto estuda zerar a 'taxa das blusinhas' de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50.
  • A medida visa reduzir o desgaste político do governo diante do eleitorado de baixa renda.
  • A revogação da taxa ainda enfrenta resistência de setores da indústria nacional.
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou nesta segunda-feira (4) o novo Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas voltado a pessoas com renda de até cinco salários mínimos, hoje R$ 8.105. Ao mesmo tempo, o Palácio do Planalto avalia zerar a chamada “taxa das blusinhas”, cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 que entrou em vigor durante o próprio governo Lula. As duas movimentações ocorrem em meio ao avanço do calendário eleitoral de 2026 e à tentativa do governo de reduzir desgastes junto ao consumidor de baixa e média renda.

O que muda com o novo Desenrola Brasil?

O novo Desenrola Brasil foi criado por medida provisória e permite renegociar dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. A proposta é oferecer descontos de 30% a 90% e permitir o uso de até R$ 1 mil ou 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitar débitos.

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Pelas regras divulgadas, o cidadão terá acesso a um novo crédito para pagar dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026, desde que estejam atrasadas entre 90 dias e dois anos. A taxa máxima será de 1,99% ao mês, com prazo de até 48 meses para pagamento. O limite da nova dívida, já após os descontos, será de até R$ 15 mil por pessoa, por instituição financeira, com garantia do Fundo Garantidor de Operações (FGO).

A nova fase também prevê renegociação de dívidas de estudantes com o Fies, micro e pequenas empresas e pequenos agricultores familiares. Outro ponto sensível é a restrição às apostas online: quem aderir ao programa ficará bloqueado por um ano em plataformas de bets. No pronunciamento de 1º de Maio, Lula afirmou: “Não é justo que as mulheres tenham que trabalhar ainda mais para pagar as dívidas de jogo dos maridos. Não foi nosso governo que deixou as bets entrarem no Brasil, mas é o nosso governo que vai colocar um limite à destruição que elas vêm causando”.

Por que o programa tem peso eleitoral?

Na prática, o novo Desenrola chega com forte apelo popular. O endividamento das famílias se tornou um dos principais problemas econômicos sentidos diretamente no bolso, sobretudo entre trabalhadores que dependem de crédito caro, cartão, cheque especial e empréstimos pessoais para fechar o mês.

A Reuters classificou a retomada ampliada do programa como uma medida para reduzir juros, aumentar a renda disponível e aliviar o orçamento das famílias antes da disputa presidencial de outubro. A agência também destacou que a ampliação do público-alvo ocorre no momento em que Lula busca medidas para reduzir a pressão sobre os orçamentos domésticos em meio à corrida eleitoral.

Essa é a chave política do movimento. O governo tenta transformar uma pauta econômica pesada — dívida, juros e inadimplência — em uma entrega concreta ao eleitor. O programa não resolve sozinho o problema estrutural do crédito caro no Brasil, mas cria uma vitrine de curto prazo para mostrar ação direta sobre um tema que afeta milhões de pessoas.

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Taxa das blusinhas virou desgaste para o governo

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O outro movimento em discussão é ainda mais delicado: o governo Lula avalia enviar ao Congresso uma proposta para zerar a chamada “taxa das blusinhas”, imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 em plataformas digitais. A possibilidade foi revelada pela CNN Brasil, que informou que Lula consultou a equipe econômica sobre uma medida para acabar com a cobrança.

A cobrança passou a valer em 1º de agosto de 2024. Pelas regras atuais da Receita Federal, compras internacionais feitas em plataformas certificadas pelo Programa Remessa Conforme pagam 20% de Imposto de Importação quando têm valor de até US$ 50. Acima desse valor, até US$ 3 mil, a alíquota é de 60%, com desconto de US$ 20. Além disso, há incidência de ICMS.

O problema político é evidente: a medida atingiu diretamente consumidores que compram em plataformas como Shein, Shopee, AliExpress e Amazon. Embora o governo tenha defendido a tributação como forma de proteger a indústria nacional e equilibrar a concorrência, a cobrança ficou associada ao aumento do custo de produtos baratos importados.

A cobrança que o governo agora avalia derrubar nasceu na atual gestão

A “taxa das blusinhas” não surgiu fora do governo Lula. A Lei 14.902/2024 entrou em vigor em 1º de agosto de 2024 e estabeleceu a taxação de compras internacionais de até US$ 50. A Rádio Senado registrou que a medida foi sancionada pelo presidente Lula e que consumidores passaram a pagar alíquota de 20% de Imposto de Importação para mercadorias nessa faixa.

Também houve articulação política para aprovar a cobrança. Uma checagem da Reuters apontou que a proposta avançou após acordo entre líderes da Câmara e o governo Lula para fixar a taxa em 20%, em votação simbólica. O mesmo material registrou que o presidente concordou com a alíquota e se comprometeu a não vetar a proposta.

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Esse é o ponto central da contradição política: o governo que ajudou a viabilizar e sancionou a taxação agora avalia derrubá-la diante do desgaste popular. A eventual revogação pode ser apresentada como alívio ao consumidor, mas também abre espaço para cobrança da oposição sobre o custo político e econômico de uma medida criada há menos de dois anos.

O que pode acontecer agora?

Até o momento, o fim da “taxa das blusinhas” não está publicado como medida oficial. O que existe é uma articulação em análise no Planalto. Segundo a CNN, a ideia seria enviar uma medida provisória ainda em maio para zerar o imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. A avaliação interna seria de que a arrecadação não compensou o desgaste gerado pela cobrança.

A discussão, porém, enfrenta resistência de setores do varejo e da indústria nacional, que defendem a manutenção da tributação sob o argumento de concorrência mais equilibrada com produtos estrangeiros. Por outro lado, consumidores veem a cobrança como encarecimento direto de compras populares.

O governo, portanto, tenta equilibrar três pressões ao mesmo tempo: aliviar o bolso do consumidor, preservar apoio de setores produtivos nacionais e reduzir danos eleitorais antes de 2026. O novo Desenrola e a possível derrubada da “taxa das blusinhas” entram nesse mesmo pacote político: medidas com impacto econômico imediato, mas também com claro potencial eleitoral.

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