Lula envia ao Congresso projeto que reduz jornada para 40 horas, acaba com escala 6×1 e proíbe corte salarial

A proposta alcança contratos atuais e futuros e tem abrangência ampla, incluindo trabalhadores regidos pela CLT e categorias submetidas a leis especiais, como domésticos, comerciário, atletas, aeronautas, radialistas e outros regimes diferenciados de trabalho.
Escala 6x1 pode chegar ao fim com novo projeto enviado por Lula ao Congresso
Escala 6x1 pode chegar ao fim com novo projeto enviado por Lula ao Congresso (Foto: © Ricardo Stuckert/PR)
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, nesta terça-feira, mensagem presidencial que formaliza o envio ao Congresso Nacional, com urgência constitucional, de um projeto de lei que reduz o limite da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, assegura dois dias de descanso remunerado e proíbe qualquer redução salarial. Na prática, o texto apresentado pelo governo acaba com a escala 6×1. A mensagem foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União.

A proposta estabelece uma nova referência para o mercado de trabalho brasileiro e promove mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e em legislações específicas para tentar garantir aplicação uniforme das novas regras. O desenho defendido pelo governo consolida o modelo de cinco dias de trabalho para dois de descanso, mantendo a jornada diária de oito horas, inclusive para trabalhadores em escalas especiais.

Em publicação nas redes sociais, Lula afirmou: “Hoje é um dia importante para a dignidade da família, de quem constrói o Brasil todos os dias. Encaminhei ao Congresso Nacional, com urgência constitucional, um projeto de lei que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada de trabalho para 40 horas semanais. E, importante, sem…”

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O que o projeto prevê

O texto fixa um novo teto de 40 horas semanais e preserva as 8 horas diárias, inclusive para trabalhadores submetidos a regimes especiais. Também assegura dois dias de repouso semanal de 24 horas consecutivas, preferencialmente aos sábados e domingos, embora a definição exata desses dias possa ocorrer por meio de negociação coletiva, respeitando as características de cada atividade.

Pela proposta, a redução da jornada não poderá resultar em corte nominal ou proporcional de salários, nem em alteração de pisos. A vedação, ainda de acordo com o texto, alcança contratos em vigor e contratos futuros, abrangendo regimes de trabalho integral, parcial e também formatos especiais previstos em lei.

O objetivo central apresentado é garantir mais tempo para a vida além do trabalho. Isso inclui convivência familiar, lazer, cultura e descanso. O governo também sustenta que a ampliação do tempo livre pode produzir reflexos positivos sobre a economia, ao combinar produtividade, bem-estar e inclusão social.

O que muda na prática para os trabalhadores

A proposta traz mudanças diretas e objetivas na rotina de milhões de brasileiros. O limite semanal passaria de 44 para 40 horas, o descanso remunerado seria ampliado para ao menos dois dias por semana, e o padrão 5×2 passaria a ser consolidado como referência.

Entre os pontos centrais do projeto estão:

Jornada semanal

O limite legal passaria de 44 para 40 horas semanais.

Descanso ampliado

O trabalhador teria direito a ao menos dois dias de repouso semanal remunerado.

Novo padrão de escala

O modelo 5×2 passa a ser fortalecido, com redução da carga horária semanal e superação da lógica predominante da escala 6×1.

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Proteção salarial

Fica vedada qualquer redução salarial, seja nominal ou proporcional.

Abrangência ampla

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A proposta alcança categorias abrangidas pela CLT e por leis especiais, incluindo domésticos, comerciário, atletas, aeronautas, radialistas e outros trabalhadores.

Aplicação geral

O limite de 40 horas também passa a valer para escalas especiais e regimes diferenciados.

Flexibilidade por acordo

O texto mantém a possibilidade de escalas como 12hx36, desde que haja acordo coletivo e seja respeitada a média de 40 horas por semana.

Alcance da medida e impacto social

O projeto parte de uma realidade que ainda atinge uma parcela expressiva do mercado formal. Hoje, cerca de 37,2 milhões de trabalhadores têm jornadas superiores a 40 horas semanais, o que corresponde a aproximadamente 74% dos celetistas.

O texto também destaca que cerca de 14 milhões de brasileiros trabalham na escala 6×1, com apenas um dia de descanso por semana. Entre eles estão 1,4 milhão de trabalhadoras domésticas. Outro dado citado é o de que 26,3 milhões de celetistas não recebem horas extras, o que indica, na prática, jornadas frequentemente mais longas.

Ao defender a proposta, o governo sustenta que ampliar o tempo livre pode melhorar a qualidade de vida, fortalecer a convivência familiar e reduzir impactos sobre a saúde. Em 2024, o país registrou cerca de 500 mil afastamentos por doenças psicossociais relacionadas ao trabalho, número usado como um dos argumentos para justificar a mudança.

Há ainda um recorte social relevante no texto. As jornadas mais extensas estariam concentradas entre trabalhadores de menor renda e menor escolaridade, o que faz da proposta, também na visão do governo, uma medida voltada à redução de desigualdades no mercado de trabalho.

Produtividade, organização do trabalho e modernização

O projeto também é apresentado como resposta a transformações recentes da economia, especialmente diante do avanço tecnológico e dos ganhos de produtividade. A lógica defendida é a de que jornadas mais equilibradas tendem a reduzir afastamentos, melhorar o desempenho e diminuir a rotatividade.

A proposta parte do entendimento de que a redução da jornada, quando implementada com planejamento e diálogo, pode contribuir para uma reorganização mais eficiente do trabalho. Nesse desenho, a diminuição do tempo formal de serviço não aparece apenas como medida social, mas também como instrumento de modernização das relações trabalhistas.

Esse raciocínio sustenta a tentativa de aproximar o Brasil de um movimento já observado em outros países. O texto cita o caso do Chile, que aprovou a redução gradual da jornada de 45 para 40 horas semanais até 2029, e da Colômbia, que está em transição de 48 para 42 horas até 2026.

Como o Brasil se compara com outros países

Na Europa, segundo o texto, a jornada de 40 horas ou menos já é predominante. A França adota 35 horas semanais desde os anos 2000, enquanto países como Alemanha e Holanda operam, na prática, com médias inferiores a 40 horas.

Ao citar essas experiências, o projeto tenta reforçar a ideia de que a redução da jornada não representa apenas uma mudança isolada na legislação brasileira, mas uma adaptação a um debate internacional sobre equilíbrio entre trabalho, saúde, produtividade e qualidade de vida.

O que acontece agora

Com o envio da proposta ao Congresso Nacional em regime de urgência constitucional, o tema passa ao centro do debate legislativo. O texto mexe diretamente com a organização da jornada de trabalho no país, atinge contratos atuais e futuros e pode alterar a rotina de milhões de trabalhadores em diferentes setores.

A medida, da forma como foi apresentada, estabelece um novo marco: redução da jornada semanal, dois dias de descanso remunerado, preservação dos salários e superação da escala 6×1. O debate agora será sobre a tramitação e a forma como essas regras poderão ser incorporadas à legislação trabalhista brasileira.

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