Resumo da Notícia
Vinte e cinco dias após o rompimento político anunciado pelo vice-governador Walter Alves, a governadora Fátima Bezerra iniciou uma reconfiguração clara dentro do governo estadual, com exonerações diretas de auxiliares ligados ao MDB e críticas públicas à decisão do antigo aliado. O gesto, longe de ser apenas administrativo, marca uma inflexão política relevante na governadoria e sinaliza que a convivência institucional passou a ter limites bem definidos após a ruptura.
A primeira exoneração de peso ocorreu na tarde da quarta-feira (11), quando a governadora decidiu pela saída de Sérgio Rodrigues da presidência da Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern). Indicado por Walter Alves, Rodrigues foi substituído por George Marcos, que passará a acumular as funções de Diretor-Presidente e Diretor de Planejamento e Finanças da estatal.
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George Marcos chegou ao Rio Grande do Norte em 2019 e é considerado um nome de absoluta confiança da governadora, com quem trabalhou tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado da República. A escolha reforça o caráter político da mudança: mais do que uma troca técnica, trata-se de um reposicionamento interno após o rompimento.
Críticas públicas e o recado político
Na mesma manhã da quarta-feira (11), antes mesmo da exoneração na Caern ser oficializada, Fátima Bezerra participou de um café da manhã com jornalistas e fez duras declarações sobre a decisão do vice-governador. “Infelizmente, ele escolheu outro caminho. E a coisa se deu de uma forma muito abrupta, porque, até então, estava tudo pactuado para ele assumir o governo e apoiar o nome do nosso grupo”, afirmou a governadora, em tom de frustração.
Fátima também revelou que o presidente da República estava ciente da decisão tomada por Walter Alves e expôs o sentimento dentro do PT nacional: “O sentimento da direção nacional do PT é de muita decepção. Nós fomos surpreendidos”, disse.
Em seguida, lamentou o que considera uma escolha precipitada do vice-governador: “Acho que ele cometeu um equívoco, se precipitou. Talvez tenha jogado fora a chance mais especial de ser eleito governador do Estado do Rio Grande do Norte”.
Saídas em série no segundo escalão
As mudanças não ficaram restritas à Caern. Ainda no mesmo dia, o Diário Oficial do Estado trouxe a exoneração de Geomarques Nunes de França Júnior, secretário estadual adjunto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Ele ocupava o segundo posto da pasta comandada desde agosto de 2023 pelo geólogo Paulo Lopes Varella Neto, que já havia exercido função semelhante no governo de Garibaldi Alves Filho, pai do vice-governador.
No dia seguinte, foi confirmada a saída do secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Alan Silveira, que havia sido nomeado em 1º de julho de 2025 e permaneceu no cargo por sete meses e 12 dias. Antes da exoneração, Alan já havia comunicado à governadora a intenção de deixar a pasta, mas atendeu ao pedido para aguardar a conclusão de algumas ações em andamento.
Em carta publicada nas redes sociais, Silveira destacou resultados obtidos à frente da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e agradeceu diretamente a Walter Alves pela indicação e confiança política.
Bastidores e a versão do governo
Uma fonte interna do governo estadual afirmou que não há interesse nem histórico de perseguição política por parte da governadora. Segundo esse interlocutor, auxiliares ligados a outras siglas, mesmo fora do PT, podem permanecer na gestão enquanto mantiverem uma postura técnica e institucional.
No caso específico dos exonerados, porém, a avaliação interna é diferente. De acordo com a mesma fonte, após o anúncio do rompimento de Walter Alves com o governo e a adesão à pré-candidatura do prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, os auxiliares teriam passado a utilizar seus cargos para fazer campanha e proselitismo político contra a linha do governo, o que teria tornado a permanência insustentável.
Dentro desse contexto, o governo não vislumbra, até o momento, a saída do secretário Paulo Varella, embora, na tarde da quinta-feira (12), uma fonte da vice-governadoria tenha mencionado a possível entrega de uma carta de exoneração. Oficialmente, nenhuma mudança foi confirmada.
Procurado para comentar as exonerações e as críticas feitas pela governadora, Walter Alves optou por não se manifestar. O espaço permanece aberto para posicionamento.
Luciano Santos permanece e reforça perfil técnico
Diferentemente dos demais nomes ligados ao MDB, Luciano Silva Santos, secretário extraordinário para Assuntos Federativos, permanece no governo. Ex-prefeito de Lagoa Nova por dois mandatos e advogado, Luciano é filiado ao MDB, mas mantém forte ligação política com o presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira, aliado da governadora.
Luciano Santos declarou que “tem profundo respeito pelas decisões pessoais e partidárias de cada liderança”, mas afirmou que, no seu caso, “qualquer definição será tomada com serenidade, diálogo e responsabilidade”. Ele também fez questão de esclarecer que sua nomeação ocorreu por convite direto da governadora, “em reconhecimento a um trabalho técnico e institucional e não de indicação partidária formal”.
Ao concluir, destacou o compromisso com o Estado e com sua base política: “Permaneço focado num compromisso público assumido com lealdade às instituições e responsabilidade com o povo do Rio Grande do Norte, especialmente com os interesses de Lagoa Nova, cidade que continua sendo meu local político e minha referência maior das minhas decisões”.
