Resumo da Notícia
O WhatsApp chega ao período pré-eleitoral com uma combinação de limites técnicos, ferramentas de privacidade, parcerias de checagem e banimento de contas suspeitas para tentar reduzir abusos e conter a circulação de desinformação. A preocupação cresce porque o aplicativo deve voltar a ter papel central na distribuição de mensagens políticas antes mesmo do início oficial das campanhas, previsto para agosto.
A discussão ficou mais sensível após a Câmara dos Deputados aprovar um projeto que autoriza o disparo em massa de mensagens por candidatos, sob determinadas condições. O texto ainda está em análise no Senado, mas já acendeu alerta sobre rastreabilidade, consentimento, moderação e risco de saturação do canal.
Em entrevista ao Portal N10, Gustavo Fragoso, CMO da HelenaCRM, plataforma white label voltada à estruturação de operações comerciais via WhatsApp, avalia que o problema não está apenas no volume de mensagens, mas na forma como elas circulam em ambientes privados.
“A eleição passada mostrou o poder da distribuição dentro de ambientes privados. Agora, o que está em jogo não é mais só alcance, mas rastreabilidade, responsabilidade e, principalmente, reputação de quem comunica”, afirma.
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O WhatsApp sustenta sua atuação em três frentes: manter o caráter privado das conversas, impedir o uso indevido do serviço e dar mais controle ao usuário diante de mensagens suspeitas ou indesejadas.
Entre as medidas mais relevantes está o limite de encaminhamento. Hoje, uma mensagem pode ser reenviada para até cinco conversas por vez, o que, segundo dados da plataforma, reduziu esse tipo de compartilhamento em mais de 25%.
Quando o conteúdo recebe o selo de “encaminhado com frequência”, a trava é maior: a mensagem só pode ser reenviada para uma conversa por vez. Esse mecanismo reduziu a viralização em mais de 70%.
Na prática, o aplicativo tenta desacelerar a circulação em cadeia. A medida não impede que conteúdos políticos circulem, mas dificulta o repasse automático e força o usuário a pensar antes de enviar a mesma mensagem para vários grupos ou contatos.
Por que o tema preocupa em ano eleitoral?
O histórico recente ajuda a explicar o tamanho do alerta. Durante as eleições de 2018, investigações jornalísticas apontaram contratos que chegavam a R$ 12 milhões para disparos em massa de mensagens políticas via WhatsApp. O tema entrou no radar do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e foi analisado em ações relacionadas à chapa Bolsonaro-Mourão.
Em 2019, a Justiça Eleitoral também cobrou informações da plataforma. O corregedor determinou que o WhatsApp informasse se números identificados haviam disparado mensagens em massa nas eleições de 2018.
Na época, o WhatsApp informou ter banido mais de 400 mil contas brasileiras por práticas que violavam seus termos, incluindo disparos automatizados em massa. Nas eleições municipais de 2020, o aplicativo removeu cerca de 360 mil contas por envio massivo ou automatizado de mensagens eleitorais.
Esse histórico mostra que a disputa informacional não começa apenas quando a propaganda oficial vai ao ar. Ela se antecipa nos grupos, nas listas de contatos, nas conversas privadas e nos encaminhamentos feitos por pessoas conhecidas.
Disparo em massa ainda está no centro da discussão
A proposta aprovada na Câmara pretende alterar o tratamento dado ao envio em massa de mensagens por candidatos. O texto, porém, ainda depende do Senado e mantém dúvidas sobre como os contatos serão cadastrados e qual será a margem de atuação das plataformas.
Fragoso vê nesse ponto um dos principais riscos do novo cenário.
“Com a nova proposta aprovada na Câmara, pretende-se alterar esse ponto com o envio em massa, mas isso ainda não foi decidido e encontra-se em análise no Senado. Contudo, o envio acontece para contatos previamente cadastrados, apesar de não detalhar como esse cadastro deve ser feito. Além disso, o que muda também é que haverá bloqueio dessas mensagens pelas plataformas somente mediante ordem judicial, reduzindo a capacidade de moderação em tempo real”.
A diferença entre comunicação autorizada e disparo abusivo será decisiva. No uso da API oficial do WhatsApp, o envio automatizado de mensagens políticas em larga escala sem consentimento é expressamente proibido. Já no aplicativo convencional, conteúdos políticos podem circular, desde que respeitem limites como consentimento do usuário e ausência de disparos em massa.
Além dos limites de encaminhamento, o WhatsApp passou a oferecer mais ferramentas de privacidade. Entre elas estão sair de grupos sem notificação para todos os participantes, silenciar chamadas de números desconhecidos e controlar quem pode adicionar o usuário a novos grupos.
O aplicativo também fornece mais contexto quando uma mensagem chega de número desconhecido, como a indicação de grupos em comum. Isso ajuda a pessoa a decidir se deve responder, ignorar, bloquear ou denunciar o contato.
As orientações oficiais estão reunidas na Central de Ajuda do WhatsApp. A plataforma também detalha recursos de proteção do usuário e controle de interações no aplicativo, pontos importantes em períodos de maior circulação política.
Para Fragoso, o desafio é lembrar que o WhatsApp tem força justamente porque é percebido como um canal próximo.
“Bom senso é a palavra-chave nesses casos. No WhatsApp, a influência não se constrói pelo volume, mas pela proximidade. É uma mensagem que chega por alguém conhecido, um encaminhamento dentro de um grupo de confiança. Isso torna o impacto mais profundo e, ao mesmo tempo, muito mais difícil de rastrear e monitorar”, afirma.
Checagem vira parte da mensagem, não só resposta ao boato
O combate à desinformação também passa por checagem de fatos. O WhatsApp mantém parcerias com organizações ligadas à International Fact-Checking Network, como Agência Lupa e Aos Fatos, oferecendo caminhos para que usuários verifiquem conteúdos suspeitos.
Em alguns casos, isso inclui números dedicados ou integrações que permitem encaminhar mensagens para análise. A plataforma também incorporou ferramentas simples, como a busca direta na internet a partir de mensagens frequentemente encaminhadas.
O tema também aparece em estudos sobre circulação de informação em plataformas digitais privadas, como mostra pesquisa disponível no arXiv.
Na avaliação de Fragoso, a checagem deixou de ser uma etapa apenas posterior ao dano.
“A checagem não entra mais só no fim do processo, para desmentir conteúdos. Ela passou a fazer parte da construção da mensagem, e quem prova o que diz conquista mais confiança do público”, afirma.
Essa mudança pesa especialmente para campanhas. Em um ambiente de desconfiança, a mensagem política precisa carregar prova, origem e responsabilidade. Caso contrário, pode até circular rápido, mas também pode gerar rejeição, denúncias e dano de imagem.
Banimentos e denúncias completam a barreira
O WhatsApp afirma banir mais de 8 milhões de contas por mês por comportamento suspeito. Segundo a plataforma, a maior parte dessas contas é identificada por sistemas automatizados antes mesmo de denúncias dos usuários.
Ainda assim, a participação das pessoas continua importante. Usuários podem bloquear e reportar contas ou grupos, ajudando a identificar redes de desinformação, disparo abusivo ou uso indevido do aplicativo.
Para quem usa o WhatsApp como canal estratégico, Fragoso afirma que o período eleitoral exige profissionalização.
“Não existe mais espaço para amadorismo. O uso de canais diretos em contexto eleitoral exige governança, compliance, adequação às políticas da META/WhatsApp e estratégia de longo prazo. Qualquer desvio pode gerar não só bloqueios, mas danos de imagem difíceis de reverter”, completa.
A antecipação do debate ainda em junho mostra que as eleições já começaram no campo informacional. Com novas regras em discussão e ferramentas de contenção cada vez mais relevantes, o WhatsApp seguirá no centro da disputa entre alcance político, privacidade e combate à desinformação.
“E, nesse contexto, o WhatsApp segue como peça-chave, agora sob um olhar mais atento, tanto das plataformas quanto da sociedade”, conclui o executivo da HelenaCRM.
