Edinho diz que PT buscará diálogo com direita que “valoriza a democracia”
Edinho Silva diz que partido pretende ampliar diálogo político além da esquerda, reconhece pressão por mudança no eleitorado e confirma presença de Lula em debates caso haja segundo turno.
Resumo da Notícia
- O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que o partido pretende dialogar até com setores da direita em um eventual segundo turno presidencial.
- Segundo o dirigente, a campanha identifica no sentimento de mudança do eleitorado um desafio mais amplo do que o confronto com um candidato específico.
- Edinho confirmou que Lula participará de debates no segundo turno, depois de ter ficado fora dos encontros entre presidenciáveis na primeira etapa da campanha.
- O PT também trabalha para ampliar alianças nos estados e projeta crescimento de sua representação na Câmara e no Senado, segundo avaliações apresentadas pelo próprio dirigente.
O presidente nacional do PT e coordenador da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, Edinho Silva, afirmou que o partido pretende ampliar sua articulação política para além da esquerda caso a disputa presidencial chegue ao segundo turno. A estratégia inclui abrir conversas até com setores da direita que, na avaliação do dirigente, tenham compromisso com o processo democrático.
A declaração foi dada nesta sexta-feira (2), a dois dias do primeiro turno das Eleições 2026, durante entrevista em São Paulo. Edinho apresentou a busca por novas alianças como parte de uma tentativa de ampliar a base política de Lula na etapa seguinte da eleição, caso o presidente avance.
“Mesmo candidaturas à direita valorizam a democracia e querem um Brasil democrático. Temos que abrir esse diálogo — ou nós vamos cair como país da intolerância”, afirmou.
A fala sinaliza uma estratégia que ultrapassa a recomposição tradicional com partidos de centro. O PT procura construir uma divisão política mais ampla em torno daquilo que classifica como defesa das instituições democráticas, tentando atrair forças que hoje não integram formalmente a campanha presidencial.
Esse movimento, porém, ainda depende do resultado das urnas de domingo. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro, e somente a partir da definição dos dois candidatos mais votados as negociações partidárias para a segunda etapa deverão ganhar formato concreto.
Lula irá aos debates se houver segundo turno
Edinho também confirmou uma mudança importante na estratégia eleitoral: Lula pretende participar dos debates televisivos caso avance ao segundo turno.
O presidente não participou dos encontros entre presidenciáveis realizados durante o primeiro turno. Na quinta-feira (1º), por exemplo, estava prevista sua participação no debate da TV Globo, mas a campanha comunicou previamente a ausência e Lula concedeu entrevista ao Flow Podcast na mesma noite.
O último debate acabou nem sendo realizado. Uma sequência de decisões judiciais alterou as regras e a composição do encontro poucas horas antes da transmissão. Gilmar Mendes determinou a inclusão de Renan Santos no debate da Globo na vaga aberta pela desistência de Lula, enquanto outras decisões também atingiram aspectos da dinâmica prevista pela emissora.
Para uma eventual segunda etapa, a posição da campanha muda. Segundo Edinho, Lula pretende enfrentar diretamente o adversário que chegar com ele ao segundo turno.
“Ele quer que o povo enxergue a diferença entre o Brasil que o Flávio defende e o Brasil que ele representa”, afirmou o dirigente ao comentar especificamente um possível confronto com Flávio Bolsonaro.
Campanha vê desejo de mudança como problema central
Além da discussão sobre adversários e alianças, Edinho apresentou uma leitura interna da campanha sobre o comportamento do eleitorado.
Segundo ele, o desafio identificado pelo PT não seria apenas enfrentar Flávio Bolsonaro, mas responder a um sentimento de mudança presente entre parte dos eleitores. A avaliação ajuda a explicar por que a campanha prepara uma estratégia de ampliação política caso a eleição não seja decidida no primeiro turno.
“Não estamos disputando com o Flávio, mas com esse sentimento de mudança. Tanto que, quando você tira o Flávio e põe o Caiado, Cury, todos crescem, porque nosso adversário é esse sentimento”, declarou.
A partir dessa leitura, Edinho sustenta que a campanha precisaria convencer o eleitor de que Lula seria capaz de promover mudanças mesmo estando no exercício da Presidência. Trata-se de uma interpretação política apresentada pelo coordenador da campanha, e não de uma conclusão derivada automaticamente das pesquisas eleitorais.
Esse ponto é relevante porque desloca parte do discurso petista. Em vez de organizar toda a campanha apenas como confronto contra um adversário específico, a coordenação passa a tratar também da insatisfação de eleitores que demonstram preferência por uma alternativa ao governo atual.
Alianças estaduais fazem parte da estratégia
Edinho afirmou que a preparação para uma eventual segunda etapa não começou agora. Segundo ele, o PT trabalha desde 2025 para montar estruturas estaduais capazes de sustentar a campanha presidencial e facilitar novas alianças depois do primeiro turno.
A estratégia passa pelos palanques regionais, onde candidaturas próprias e alianças locais podem ajudar na transferência de apoio político para a disputa nacional.
“Nós vamos ter uma estrutura muito forte de campanha no segundo turno com aliados e outras alianças que poderemos ampliar, mas com estruturas mais montadas no primeiro turno”, afirmou.
O presidente do PT citou diferentes estados ao apresentar as expectativas da legenda. No Rio Grande do Norte, disse enxergar possibilidade de continuidade da candidatura petista na disputa pelo governo estadual; também mencionou Minas Gerais e Piauí ao falar das campanhas próprias do partido.
As avaliações apresentadas por Edinho são projeções políticas da direção do PT e dependem do resultado das urnas. No RN, a votação para governador, presidente, Senado e demais cargos poderá ser acompanhada pela Central de Apuração das Eleições 2026 depois do fechamento das seções eleitorais.
PT também projeta crescimento no Congresso
A estratégia apresentada pelo dirigente não se restringe à eleição presidencial.
Edinho disse esperar crescimento da bancada petista na Câmara dos Deputados, hoje com 69 parlamentares, para pelo menos 80 deputados na próxima legislatura. Considerando os demais partidos da federação, ele projetou uma ampliação ainda maior do grupo.
Também apontou o Senado como prioridade política. Segundo o presidente do PT, a legenda pretende construir alianças capazes de ampliar o grupo de senadores identificado pelo partido como “campo democrático”.
“Podemos ser o partido que mais cresce ou estarmos entre os que mais crescem na Câmara dos Deputados. Com a federação, podemos crescer uns outros 20 parlamentares”, declarou.
Nesse ponto, Edinho utilizou expressões politicamente carregadas ao classificar parte da direita. Essas caracterizações representam a posição do dirigente partidário e integram a estratégia retórica adotada pelo PT na reta final da campanha.
A composição efetiva da Câmara e do Senado, assim como a eventual existência de maioria de qualquer campo político, só poderá ser conhecida depois da apuração dos votos.
Relação com setores da direita passa a integrar cálculo do PT
A abertura defendida por Edinho não significa abandono das alianças construídas pelo partido durante o primeiro turno. O movimento indicado pelo dirigente é de ampliação, aproveitando o intervalo entre as duas etapas para incorporar candidaturas, partidos e lideranças que ficarem fora da disputa presidencial.
Esse tipo de negociação costuma envolver não apenas declarações públicas de apoio, mas também incorporação de propostas, participação de novas lideranças na campanha e reorganização dos palanques estaduais.
Edinho sinalizou justamente essa possibilidade ao dizer que o PT está disposto a “ouvir e agregar propostas” de outras candidaturas.
O discurso cria uma linha de negociação para o período imediatamente posterior a 4 de outubro: em vez de limitar a busca por apoio a partidos já próximos do governo, a direção petista pretende procurar também forças que atualmente ocupam posições mais à direita no espectro político.
As conversas, caso o segundo turno seja confirmado, deverão começar depois da definição oficial dos resultados deste domingo. Até lá, as declarações de Edinho funcionam como indicação pública da estratégia que a direção nacional do PT pretende adotar para a etapa seguinte da disputa.


