Resumo da Notícia
O chamado “modelo El Salvador” ganhou espaço na campanha presidencial brasileira de 2026. A expressão tem sido usada para resumir a estratégia adotada pelo presidente salvadorenho Nayib Bukele contra organizações criminosas que durante décadas dominaram bairros inteiros, cobraram extorsões e transformaram o pequeno país da América Central em um dos mais violentos do mundo.
A referência apareceu nas sabatinas com candidatos brasileiros e não é casual. Segurança pública, violência e criminalidade foram apontadas por 30% dos entrevistados como o principal problema do Brasil na pesquisa BTG/Nexus divulgada no início de agosto.
Mas o modelo de Bukele não significa apenas construir grandes presídios. Ele envolve uma combinação muito mais ampla de encarceramento em massa, operações policiais e militares, endurecimento contra gangues e redução temporária de garantias constitucionais.
O ponto de virada ocorreu em março de 2022. Depois de uma forte onda de assassinatos atribuída às gangues, o governo decretou um regime de exceção e iniciou uma operação nacional contra grupos como Mara Salvatrucha, conhecida como MS-13, e Barrio 18.
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A medida ampliou os poderes das forças de segurança e alterou garantias processuais. Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, o regime suspende direitos relacionados à defesa e à inviolabilidade das comunicações e amplia o período de detenção administrativa.
O que começou como uma reação emergencial tornou-se parte permanente da política de segurança. Em 28 de julho de 2026, a Assembleia Legislativa aprovou a 53ª prorrogação, válida de 30 de julho a 28 de agosto.
Mais de 92 mil pessoas foram presas
A dimensão do encarceramento é uma das características mais marcantes da estratégia. Dados oficiais apresentados pela Assembleia Legislativa apontavam 92.414 prisões relacionadas às estruturas criminosas até junho de 2026.
O símbolo dessa política é o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), megapresídio inaugurado em 2023 em Tecoluca. O complexo possui oito módulos de segurança máxima e capacidade anunciada para 40 mil detentos, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública de El Salvador.
As imagens de grandes grupos de presos uniformizados e submetidos a rígidos esquemas de segurança transformaram o CECOT em uma das principais vitrines internacionais do governo Bukele.
A violência caiu de forma expressiva
O principal argumento dos defensores do modelo são os resultados registrados nas ruas. El Salvador passou de taxas extremamente elevadas de assassinatos para níveis historicamente baixos.
A própria Assembleia Legislativa informou em 2026 uma taxa oficial de aproximadamente 1,3 homicídio por 100 mil habitantes, resultado que o governo relaciona ao Plano Control Territorial e ao regime de exceção. Organizações independentes reconhecem que houve uma queda significativa da violência, embora façam ressalvas sobre transparência e metodologia de alguns dados oficiais.
Esse resultado ajuda a explicar por que Bukele mantém forte apelo político e por que sua estratégia passou a ser observada por candidatos de outros países.
O outro lado são as denúncias de abusos
A controvérsia começa justamente nos métodos utilizados para alcançar esses resultados.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos informou em abril que organizações da sociedade civil documentam detenções ilegais e arbitrárias, tortura, mortes sob custódia, condições desumanas e violações do direito de defesa e do devido processo.
Segundo o organismo, ao menos 500 pessoas teriam morrido sob custódia estatal entre o início do regime de exceção e março de 2026, com base em informações apresentadas por organizações civis. O governo salvadorenho rejeita a existência de uma política estatal de violações e sustenta que as medidas permitiram recuperar áreas anteriormente controladas pelas gangues.
Portanto, há dois elementos que precisam ser considerados simultaneamente: a melhora expressiva da segurança é documentada, mas também existem denúncias graves sobre prisões e tratamento de detentos.
Por que candidatos brasileiros citam El Salvador
Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado mencionaram a experiência salvadorenha durante as sabatinas realizadas pelo g1 e pela GloboNews. A aproximação, porém, não significa que todos defendam copiar integralmente as medidas adotadas por Bukele.
Renan Santos (Missão) defende maior capacidade de ação do Estado contra o crime organizado e a construção de megapresídios, mas rejeitou a ideia de simplesmente reproduzir prisões sem ordem judicial. O combate às organizações criminosas já aparece como um dos pilares de sua campanha e também pesou na escolha do tenente-coronel Aroldo Medina para compor sua chapa.
Romeu Zema (Novo) elogiou os resultados de El Salvador, mas fez ressalvas sobre importar para o Brasil medidas que reduzam garantias legais. O candidato tem segurança pública entre os temas de sua campanha e disputa espaço dentro do campo de direita.
Ronaldo Caiado (PSD) destacou a experiência de Goiás e afirmou que representantes de El Salvador já procuraram conhecer estruturas prisionais do estado. Segurança também é um dos eixos utilizados pelo candidato para se apresentar como alternativa na disputa presidencial.
Flávio Bolsonaro também já elogiou Bukele e visitou El Salvador. Oficializado candidato do PL à Presidência em julho, o senador colocou o endurecimento do combate ao crime organizado entre as bandeiras apresentadas para a eleição. A candidatura lançada pelo PL já trouxe segurança pública como um de seus principais eixos.
O Brasil poderia adotar o mesmo modelo?
Copiar integralmente a experiência salvadorenha esbarraria em diferenças jurídicas e estruturais profundas.
O Brasil possui mais de 200 milhões de habitantes, dimensão continental, sistemas penitenciários estaduais e organizações criminosas que operam de maneiras diferentes das gangues salvadorenhas. Além disso, a Constituição Federal estabelece garantias individuais, regras para prisões e condições específicas para situações excepcionais.
Megapresídios, mudanças no sistema penitenciário ou penas mais rígidas podem entrar no debate legislativo. Prisões indiscriminadas e uma suspensão prolongada das garantias constitucionais, porém, não poderiam simplesmente ser implantadas por decisão presidencial.
É por isso que a expressão “modelo El Salvador” precisa ser acompanhada de uma pergunta: qual parte do modelo está sendo defendida?
Construir presídios de segurança máxima é uma coisa. Ampliar operações contra facções é outra. Manter durante anos um regime de exceção com restrições a direitos fundamentais envolve uma discussão constitucional completamente diferente.
O que está realmente em disputa
A popularidade internacional do modelo Bukele decorre principalmente de um resultado que é fácil de comunicar: El Salvador ficou muito menos violento. Para países que enfrentam facções, homicídios e sensação permanente de insegurança, essa transformação tem enorme força eleitoral.
O debate se torna mais complexo quando se pergunta qual preço institucional pode ser considerado aceitável para alcançar esse resultado.
Esse deverá ser um dos pontos centrais da campanha brasileira. Com a segurança entre as maiores preocupações dos eleitores, candidatos de direita tendem a explorar a experiência salvadorenha como exemplo de endurecimento contra o crime, enquanto adversários devem concentrar críticas nas garantias individuais e nas denúncias de abusos.
O “modelo El Salvador”, portanto, não é simplesmente uma política de construção de presídios. É uma escolha por dar poderes excepcionalmente amplos ao Estado em nome do combate ao crime — acompanhada por resultados expressivos na segurança e por uma controvérsia igualmente grande sobre os limites desse poder.
