Decisão de Walter Alves expõe fragilidade na sucessão de Fátima Bezerra

A eleição indireta na Assembleia amplia o peso da oposição, especialmente do PL, que pode concentrar cerca de um terço dos votos e crescer ainda mais com a janela partidária.
Decisão de Walter Alves expõe fragilidade na sucessão de Fátima Bezerra
Walter Alves e Fátima Bezerra - Foto: Reprodução.

Resumo da Notícia

A decisão do vice-governador Walter Alves de não assumir o Governo do Rio Grande do Norte a partir de abril, quando a governadora Fátima Bezerra deixará o cargo para disputar o Senado, reorganiza todo o tabuleiro político estadual.

Não se trata de um gesto protocolar nem de uma divergência pontual. É um movimento com consequências institucionais diretas, que empurra a sucessão para o terreno da eleição indireta na Assembleia Legislativa e abre espaço para a oposição interferir no comando do Executivo durante o período mais sensível do calendário eleitoral.

Walter Alves afirmou que comunicou formalmente a governadora sobre sua decisão. Ao optar por articular uma candidatura a deputado estadual, o vice se afasta do papel constitucional que lhe caberia e cria um vácuo. Pela regra, sem vice, a escolha de um governador interino passa a ser feita pelos deputados estaduais, em votação indireta. O efeito imediato é claro: o Palácio deixa de controlar o processo e passa a depender de uma correlação de forças desfavorável dentro da Casa.

O impacto direto sobre o plano da governadora

A governadora defende publicamente o nome do secretário da Fazenda, Cadu Xavier (PT) como sucessor. O problema não está na escolha em si, mas no caminho até ela. Com a eleição indireta, o risco apontado por aliados é objetivo: a Assembleia pode escolher um nome da oposição para ocupar o chamado “governo-tampão”, exercendo o poder durante a campanha e deixando o cargo apenas em janeiro, caso não se reeleja.

Esse cenário retira da governadora a capacidade de conduzir politicamente a transição, algo considerado essencial em disputas majoritárias. Governo é vitrine, e a vitrine, nesse desenho, pode parar nas mãos do adversário.

MDB, oposição local e alinhamentos nacionais

Em nota divulgada nesta terça-feira (20), Walter Alves afirmou que o MDB potiguar decidiu “caminhar com os partidos da Federação União Progressista (União Brasil e PP) e com o PSD”. Segundo ele, a definição foi tomada após consulta interna aos correligionários. O gesto formaliza o afastamento do MDB do projeto estadual petista, ainda que o vice tenha feito questão de manter a ponte nacional.

Alves diz ter ratificado apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em conversa com o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, e com o presidente nacional do PT, Edinho Silva. A leitura política é direta: rompe-se no estado, preserva-se em Brasília. Uma equação conhecida, mas que não reduz o impacto local da decisão.

A Assembleia como campo decisivo

A eventual eleição indireta escancara o peso da composição da Assembleia Legislativa. O que preocupa o entorno da governadora é a capilaridade do PL, que pode responder por cerca de um terço dos votos após a saída de Fátima Bezerra. O partido do ex-ministro Rogério Marinho, principal liderança oposicionista do estado, nasceu e se consolidou politicamente no Rio Grande do Norte — fator que amplifica sua influência sobre o parlamento local.

Hoje, PT e PV somam seis cadeiras, o mesmo número do PL. Há expectativa de que a bancada bolsonarista cresça com a janela partidária, tornando-se a maior da Casa. União Brasil e PP têm três cadeiras, enquanto o PSDB ocupa seis. Em uma eleição indireta, cada voto pesa mais do que discurso, e alianças circunstanciais podem se impor ao projeto do Executivo.

O precedente do “governo-tampão” e o alerta nacional

O caso do Rio Grande do Norte não é isolado. No Rio de Janeiro, a provável renúncia do governador Cláudio Castro para disputar o Senado também aponta para uma disputa por governo-tampão. O estado está desde maio sem vice-governador, após Thiago Pampolha renunciar para assumir uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado.

O imbróglio fluminense se agravou com a prisão do presidente da Assembleia, Rodrigo Bacellar, suspeito de vazar informações de uma operação da Polícia Federal contra o deputado Tiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias. Embora Bacellar tenha sido solto, permanece afastado, com tornozeleira eletrônica por decisão do STF. Aliados de Castro avaliam que o presidente interino da Alerj, Guilherme Delaroli, não poderia assumir o governo por estar na condição de interinidade.

A analogia serve de alerta: vácuos institucionais tendem a ser preenchidos por disputas de poder, e não por soluções consensuais.

Um xadrez aberto, com risco real para o Palácio

No Rio Grande do Norte, a renúncia prática do vice-governador ao posto de sucessor constitucional empurra o governo para uma arena em que o controle é limitado. A governadora entra no ano eleitoral sem garantia de que seu projeto político conduzirá a máquina administrativa durante a campanha. Para a oposição, é uma oportunidade rara. Para a base governista, um risco concreto.

Não há exagero em afirmar que o tabuleiro foi virado. O desfecho dependerá menos de discursos e mais de aritmética parlamentar — e, nesse campo, o bolsonarismo largou na frente. Mesmo não assumindo publicamente, fontes informam que o nome de Rogério Marinho sopra forte nos bastidores.

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