Bolsonaro ironiza, convida Moraes para vice e ouve resposta seca: “Eu declino”

A cena arrancou risos dos presentes, mas revelou a estratégia discursiva de Bolsonaro em meio a um depoimento sensível e altamente simbólico.
Bolsonaro ironiza, convida Moraes para vice e ouve resposta seca: “Eu declino”
Bolsonaro e Moraes - Foto: Reprodução

Durante interrogatório no Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (10), o ex-presidente Jair Bolsonaro protagonizou um momento de tensão misturada com ironia ao interagir diretamente com o ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal que apura a tentativa de golpe de Estado em 2022.

Réu no processo e apontado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) como líder de uma organização criminosa voltada à ruptura democrática, Bolsonaro fez uma provocação velada ao convidar Moraes para ser seu vice em uma suposta candidatura presidencial em 2026.

Eu gostaria de convidá-lo para ser vice em 26”, declarou Bolsonaro durante a audiência, após obter a permissão informal do magistrado para “fazer uma brincadeira”.

A resposta de Moraes foi direta: “Eu declino novamente”, repetindo a negativa já proferida instantes antes, quando o ex-presidente ofereceu ao ministro a possibilidade de assistir a vídeos com manifestações populares favoráveis a ele nas ruas.

A cena arrancou risos dos presentes, mas revelou a estratégia discursiva de Bolsonaro em meio a um depoimento sensível e altamente simbólico. Ele é o sexto réu a ser interrogado pelo STF no chamado “núcleo crucial” da ação penal que investiga os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e os movimentos anteriores que, segundo a acusação, visavam enfraquecer a confiança nas instituições democráticas e planejar uma ruptura institucional.

Réu e inelegível até 2030, Bolsonaro reafirma discurso e cita campanha via Pix

Ao longo do depoimento, transmitido pela TV Justiça, Bolsonaro buscou reiterar sua narrativa de perseguição e reforçar a imagem de apoio popular. Ele mencionou doações recebidas por meio de transferências voluntárias, as chamadas “campanhas de Pix”, organizadas por seus apoiadores.

Se não fosse a campanha de Pix, eu não sei como estaria sobrevivendo hoje em dia. 17 milhões… chegou a 18 milhões… e a gente gasta. […] Eu arrecadei mais dinheiro que o ‘Criança Esperança’, sinal de que o pessoal gosta da gente”, afirmou, sugerindo que a adesão financeira seria prova de aprovação popular, apesar de sua inelegibilidade.

Bolsonaro está proibido de concorrer a cargos eletivos até 2030, após ter sido condenado em dois julgamentos distintos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2023. As decisões, proferidas com base em abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, inviabilizaram juridicamente qualquer projeto eleitoral do ex-presidente no curto prazo. Ainda assim, ele segue mobilizando a base bolsonarista com sinalizações frequentes de retorno à cena política.

Moraes conduz depoimentos do “núcleo duro” dos atos golpistas

O depoimento desta terça integra uma fase importante do processo penal que envolve militares da reserva, ex-assessores, e o próprio ex-presidente da República. Todos são investigados pela suposta articulação de um golpe de Estado para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após as eleições de 2022.

De acordo com a denúncia da Procuradoria-Geral da República, Bolsonaro teria incentivado a deslegitimação do processo eleitoral, promovido desinformação, se reunido com militares e assessores para debater formas de evitar a transição democrática, e mantido proximidade com os atos antidemocráticos que culminaram na invasão das sedes dos Três Poderes.

O interrogatório de Bolsonaro pode influenciar diretamente nos rumos da ação penal que tramita na Suprema Corte. A expectativa é que, após a conclusão dessa fase processual, o STF avance para as alegações finais e, posteriormente, para o julgamento do caso.

Se condenado, além de inelegível, Bolsonaro poderá ser alvo de sanções penais mais severas, o que aumentaria o cerco jurídico em torno de seu nome e daqueles que, segundo a acusação, participaram da tentativa de golpe.

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