Após pressão do governo, projeto sobre entregadores e motoristas por aplicativo sai da pauta

A proposta, de autoria do deputado Luiz Gastão, tramitava desde julho do ano passado e enfrentou divisões internas no governo, com Guilherme Boulos contra o relatório e Wolney Queiroz e Luiz Marinho favoráveis ao texto apresentado na comissão especial.
Entregadores de aplicativo realizam manifestação na terça-feira, 30, contra o veto de Álvaro Dias ao PL que obrigava entregas nas portarias de condomínios (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)
Entregadores por aplicativo (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Resumo da Notícia

  • O projeto de regulamentação para entregadores e motoristas de aplicativos foi retirado da pauta da Câmara dos Deputados após pressão do governo.
  • O relator, deputado Augusto Coutinho, afirmou que, na prática, 'o projeto morreu'.
  • Houve divergência dentro do próprio governo: Guilherme Boulos era contra a proposta, enquanto Luiz Marinho e Wolney Queiroz eram favoráveis.
  • A proposta de Coutinho previa valor mínimo por entrega (R$ 8,50) ou por hora trabalhada (R$ 14,74), o que gerou críticas de Boulos.
  • Além da pressão governamental, o projeto enfrentou resistência de trabalhadores da categoria e das plataformas de aplicativos.
  • Com o vácuo legislativo, a definição sobre o vínculo empregatício pode recair sobre o Supremo Tribunal Federal (STF).
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O projeto que buscava regulamentar a atividade de entregadores e motoristas de aplicativos não será mais votado pela Câmara dos Deputados, ao menos neste momento. Após pressão do governo, o relator da proposta, deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), pediu a retirada do texto da pauta desta semana e afirmou, sem rodeios, que, na prática, “o projeto morreu”.

A decisão interrompe a tramitação de uma proposta que vinha sendo discutida desde julho do ano passado e que já acumulava resistências dentro do próprio governo, entre parlamentares, entre trabalhadores da categoria e também nas plataformas.

O projeto é de autoria do deputado Luiz Gastão (PSD-CE) e estava previsto para ser analisado nesta semana em comissão especial da Câmara. Coutinho havia sido escolhido relator pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), mas recuou após reunião realizada nesta segunda-feira (13) com Motta e com o ex-líder do governo, hoje ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT).

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Governo rachou sobre o texto e pressão política travou votação

A retirada do projeto da pauta ocorreu em um ambiente de divergência dentro do próprio governo. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), era contrário à proposta nos moldes apresentados por Augusto Coutinho. Já os ministros da Previdência Social, Wolney Queiroz (PDT), e do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho (PT), eram favoráveis.

Boulos confirmou o descontentamento com o texto e afirmou que essa posição foi compartilhada pelo núcleo do governo, inclusive pelo presidente Lula. De fato, não víamos nenhuma condição de este texto ser votado. Conversamos sobre isso com o presidente Lula, o ministro [Luiz] Marinho e com o então líder do governo José Guimarães, disse.

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Pela proposta apresentada por Coutinho, o entregador ou motorista poderia optar entre receber valor mínimo por entrega ou valor mínimo por hora trabalhada. No caso das entregas, o piso seria de R$ 8,50 para distâncias de até 3 km de carro ou 4 km em bicicletas ou motos. A outra alternativa seria remuneração mínima de R$ 14,74 por hora trabalhada.

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Foi justamente esse desenho que provocou críticas de Boulos, que pressionou para que o governo se colocasse contra o relatório. O ministro liderou um grupo de trabalho que propôs pagamento mínimo de R$ 10 por corrida.

Ao reagir a essa diferença, Coutinho ironizou a posição do ministro e disse: Ele quer um valor mínimo de R$ 10 por corrida e adicional de R$2,50 por quilômetro. Apesar de discordar, eu voto a favor. Mas depois quem vai ter que justificar o aumento do preço do serviço pra população é ele.

O embate expôs uma divisão não apenas sobre valores, mas sobre o próprio modelo de regulamentação. De um lado, a tentativa de fixar parâmetros mínimos para a atividade. De outro, a preocupação com impacto sobre preço, aceitação política e reação das empresas.

Pressão da categoria e resistência das plataformas pesaram contra o projeto

Além da pressão dentro do governo, o relatório também encontrou forte resistência fora do Palácio do Planalto. Integrantes da categoria de motoristas já planejavam protestos contra o projeto, em mobilização puxada também pelas redes sociais. Ao mesmo tempo, as plataformas apresentaram objeções ao texto.

Na avaliação do relator, o projeto não resistiu ao acúmulo de desgaste. Morreu. Agora fica a critério do Supremo [Tribunal Federal]. Eu espero que Boulos mande um projeto, porque se não infelizmente vamos ser legislados pelo Supremo, afirmou Coutinho.

A frase final do deputado recoloca no centro do debate a ação que tramita no STF sobre o reconhecimento de vínculo empregatício entre motoristas de aplicativo e empresas de aplicativos. Com a proposta fora da pauta e sem consenso político na Câmara, o vácuo legislativo continua aberto. E, nesse cenário, cresce a possibilidade de que a definição sobre o enquadramento da atividade venha do Judiciário, não do Congresso.

A retirada do texto, portanto, não encerra a disputa. Ela apenas desmonta uma tentativa específica de regulamentação que não conseguiu sobreviver à pressão simultânea do governo, da categoria e das plataformas.

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