Trump anuncia ‘controle permanente’ dos EUA sobre segurança da Groenlândia; Dinamarca preserva soberania
Acordo prevê expansão da presença militar americana e impede bases de países fora da Otan; texto ainda será assinado e governos de Dinamarca e Groenlândia dizem que não haverá transferência de soberania.
Resumo da Notícia
- Donald Trump anunciou que Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia chegaram a um acordo para ampliar de forma permanente a atuação americana na segurança da ilha.
- Washington poderá aumentar sua presença militar, manter direitos de acesso, bases e sobrevoo e impedir a instalação de bases de países fora da Otan.
- Trump afirmou que adversários dos EUA também não poderão realizar determinados investimentos considerados sensíveis sem autorização americana.
- Dinamarca e Groenlândia ressaltaram que o acordo não transfere soberania aos Estados Unidos e reconhece o direito de autodeterminação do povo groenlandês.
- O documento ainda não foi publicado integralmente nem formalmente assinado; a assinatura é esperada durante a Assembleia Geral da ONU na próxima semana.
Donald Trump anunciou que Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia chegaram a um entendimento que, segundo o presidente americano, dará a Washington controle permanente sobre as necessidades de segurança da ilha. O anúncio representa uma mudança importante na disputa que se arrasta desde o início do atual mandato de Trump, mas não significa que a Groenlândia tenha sido entregue aos Estados Unidos.
O ponto central é justamente essa diferença. Trump apresentou o acordo como uma solução permanente que dará aos EUA ampla capacidade para atuar militarmente na Groenlândia. Já os governos da Dinamarca e da própria Groenlândia afirmam que o pacto preserva a soberania, a integridade territorial do Reino da Dinamarca e o direito do povo groenlandês à autodeterminação.
O que Trump anunciou sobre a Groenlândia
Trump afirmou nesta sexta-feira (18) que o acordo dará aos Estados Unidos capacidade permanente para fazer o que Washington considerar necessário para defender a Groenlândia e os próprios interesses de segurança americanos.
Segundo o presidente, também ficará proibida a instalação de bases militares ou de presença militar de adversários dos Estados Unidos na ilha sem autorização americana. Ele acrescentou que determinados investimentos considerados sensíveis também dependeriam da aprovação de Washington.
A afirmação sobre um suposto “controle permanente”, porém, é a descrição feita por Trump. O comunicado oficial divulgado pelo governo da Dinamarca adota uma formulação diferente e afirma que o entendimento busca fortalecer a segurança no Ártico e no Atlântico Norte.
O documento oficial pode ser consultado diretamente no gabinete da primeira-ministra da Dinamarca.
Dinamarca diz que soberania da Groenlândia será mantida
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que o acordo reconhece expressamente a soberania e a integridade territorial do Reino da Dinamarca, além do direito dos groenlandeses à autodeterminação.
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, também afirmou que o entendimento reconhece os interesses da Groenlândia e sua posição na cooperação internacional.
Isso significa que, com as informações disponíveis até agora, não houve cessão territorial, anexação nem transferência formal da Groenlândia aos Estados Unidos. O que está sendo negociado é uma ampliação da estrutura de segurança e defesa americana na ilha.
A distinção é especialmente relevante porque, ao longo de 2025 e 2026, Trump defendeu repetidamente uma ampliação do controle americano sobre a Groenlândia, provocando uma crise diplomática com aliados europeus.
Em janeiro, o aumento das tensões em torno da Groenlândia levou países europeus a reforçar a presença militar no Ártico, enquanto governos aliados defendiam que qualquer discussão sobre o futuro da ilha deveria respeitar a soberania dinamarquesa e a vontade da população local.
EUA poderão ampliar presença militar na Groenlândia
Ainda não foram divulgados o número de militares envolvidos, os locais de possíveis novas instalações nem o alcance exato das novas prerrogativas americanas.
Informações obtidas pela Reuters indicam que o acordo permitirá uma presença militar americana mais robusta e poderá restringir bases e investimentos estratégicos de países que não façam parte da Otan. A reportagem pode ser consultada na apuração da Reuters sobre o acordo.
Trump afirmou ainda que os Estados Unidos começarão imediatamente a trabalhar para desenvolver uma presença militar maior em pontos considerados adequados da Groenlândia.
O presidente também declarou que o acordo não terá prazo de validade e afirmou que não haverá custo para os Estados Unidos. Esse último ponto ainda não foi detalhado publicamente nos documentos divulgados pelos governos envolvidos.
Estados Unidos já possuem uma base militar estratégica na ilha
A presença militar americana na Groenlândia não começa com o novo acordo. Os Estados Unidos já operam a Pituffik Space Base, antiga Base Aérea de Thule, no noroeste da ilha.
Segundo a própria Força Espacial dos Estados Unidos, Pituffik é a instalação mais ao norte do Departamento de Defesa americano. A localização permite operações relacionadas a alerta de mísseis, monitoramento espacial, comando de satélites e apoio à defesa dos Estados Unidos e de seus aliados.
Em maio, a Força Espacial destacou que a base funciona como um ponto estratégico para comunicação com satélites em órbita polar e para operações de inteligência, vigilância e alerta de mísseis.
Acordos militares entre EUA e Dinamarca existem desde 1951
Washington e Copenhague mantêm um acordo de defesa sobre a Groenlândia desde 1951, durante a Guerra Fria. Esse tratado já concede aos Estados Unidos direitos relacionados a instalações militares, operações e sobrevoos no território dentro da estrutura de defesa da Otan.
O acordo original foi posteriormente complementado. Em 2004, Estados Unidos, Dinamarca e o governo autônomo da Groenlândia assinaram uma atualização que reconheceu formalmente a participação groenlandesa nas decisões relacionadas à presença militar americana.
O texto dessa atualização está disponível no arquivo oficial de tratados do Departamento de Estado dos Estados Unidos.
O documento de 2004 estabelecia que a então Base Aérea de Thule — atual Pituffik — era a única área de defesa permanente americana na Groenlândia e previa procedimentos específicos para a criação de novas áreas.
O que pode mudar com o novo acordo
É justamente aí que está uma das principais questões ainda sem resposta. Como os Estados Unidos já possuem direitos militares significativos na Groenlândia, será necessário analisar o texto final para entender quais poderes adicionais Washington efetivamente receberá.
Entre os pontos ainda pendentes estão a possibilidade de novas bases, o número de tropas, as regras para investimentos estrangeiros e os limites da autoridade americana sobre decisões relacionadas à segurança e à infraestrutura estratégica.
Também será importante verificar como o texto tratará uma eventual independência futura da Groenlândia, tema que faz parte do debate político local há anos.
Por que a Groenlândia é tão importante para os Estados Unidos?
A Groenlândia ocupa uma posição geográfica estratégica entre América do Norte, Atlântico Norte e Ártico. Essa localização permite monitorar rotas aéreas, marítimas e espaciais que ligam América do Norte, Europa e Rússia.
O território também tem importância crescente diante da competição militar no Ártico e do interesse internacional em minerais críticos, novas rotas de navegação e infraestrutura estratégica.
A disputa ganhou força justamente porque Washington passou a tratar uma possível presença de Rússia e China na região como ameaça direta à segurança nacional americana. A tensão já havia levado aliados europeus a debater aumento de tropas e novas estratégias de defesa no Ártico.
Acordo ainda não entrou em vigor
Apesar da linguagem utilizada por Trump, o processo ainda não terminou. O comunicado oficial do governo dinamarquês informa que Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia esperam assinar o acordo na próxima semana, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.
Depois da assinatura, ainda serão necessários os procedimentos parlamentares previstos em cada jurisdição antes da entrada em vigor.
Até a publicação do texto integral, a informação mais segura é que o entendimento amplia a estrutura de segurança dos Estados Unidos na Groenlândia, mas não transfere a soberania da ilha para Washington. A dimensão exata do chamado “controle permanente” anunciado por Trump dependerá do conteúdo jurídico que será formalizado.


