Resumo da Notícia
Ben Roberts-Smith, apontado como o soldado mais condecorado ainda vivo da Austrália, foi preso no aeroporto de Sydney nesta terça-feira (7/04) e terá de responder na Justiça a cinco acusações de homicídio por crimes de guerra ligados à atuação no Afeganistão.
O militar, hoje com 47 anos e fora das Forças Armadas desde 2013, nega todas as acusações. A Polícia Federal Australiana afirmou que ele é acusado de matar detentos desarmados entre 2009 e 2012, além de participar e dar suporte a outros homicídios.
A Polícia Federal Australiana confirmou, em entrevista coletiva em Sydney, que um “ex-soldado de 47 anos foi preso” e informou que ele “será acusado de matar detentos desarmados enquanto servia no Afeganistão entre 2009 e 2012”.
No processo criminal, Roberts-Smith responde a uma acusação do crime de guerra de homicídio, uma de participação em encomendar um homicídio e três de auxílio, incentivo ou facilitação de homicídio.
A comissária Krissy Barrett detalhou: “As alegações são de que as vítimas foram mortas a tiros pelo acusado ou por subordinados das Forças de Defesa Australianas, na presença e sob ordens dele”.
O que Roberts-Smith diz sobre as acusações
O ex-militar sempre negou irregularidades durante o período em que serviu nas Forças Armadas. Agora, diante da nova etapa judicial, ele segue rejeitando as imputações.
Antes disso, já havia afirmado que as alegações contra ele — ainda não avaliadas sob padrão criminal naquele momento — eram “ultrajantes” e “maliciosas”.
Sua linha de defesa também foi sustentada no processo civil movido contra jornais australianos. Roberts-Smith argumentou que as mortes ocorreram legalmente em combate ou simplesmente não aconteceram.
Segundo a CNN, a nova acusação criminal não surge em um vazio. Em 2018, Roberts-Smith processou vários jornais por reportagens que o acusavam de diversos crimes de guerra. O caso ganhou enorme repercussão no país.
Em 2023, porém, um tribunal civil concluiu que o ex-cabo das forças especiais australianas, integrante do SAS e condecorado com a Victoria Cross, provavelmente matou civis desarmados. Em setembro, a Suprema Corte da Austrália se recusou a analisar o recurso apresentado por ele.
Esse processo civil foi descrito como a primeira vez na história em que um tribunal analisou alegações de crimes de guerra envolvendo forças australianas.
Na decisão, mantida posteriormente em recurso, o juiz Anthony Besanko concluiu, com base no padrão de “preponderância das evidências”, que Roberts-Smith participou de pelo menos quatro homicídios. O magistrado também apontou que ele ordenou, em duas ocasiões, que homens desarmados fossem executados para “iniciar” soldados novatos. Ainda segundo a decisão, ele esteve envolvido na morte de um agricultor algemado, que teria chutado de um penhasco, e de um combatente do Talebã capturado, cuja perna protética foi levada como troféu e depois usada por soldados como recipiente para beber.
Como o caso se conecta ao Relatório Brereton e ao OSI
A prisão de Roberts-Smith também se insere em um processo mais amplo de investigação sobre a atuação de tropas australianas no Afeganistão.
Em 2020, a investigação histórica conhecida como Relatório Brereton encontrou “evidências críveis” de que soldados de elite australianos mataram ilegalmente 39 pessoas no Afeganistão. O relatório recomendou a investigação de 19 militares atuais ou antigos.
Para conduzir essas apurações, foi criado o Escritório do Investigador Especial (OSI), uma equipe especializada. Até agora, apenas outra pessoa havia sido formalmente acusada.
Ross Barnett, diretor de investigações do OSI, afirmou que a prisão representa “um passo significativo” em meio a “circunstâncias desafiadoras”.
Ele explicou a dificuldade operacional das apurações: “O OSI foi encarregado de investigar literalmente dezenas de assassinatos que supostamente teriam sido cometidos no meio de uma zona de guerra, em um país a 9.000 km da Austrália”.
Na sequência, acrescentou: “Não podemos ir a esse país, não temos acesso às cenas do crime… Não temos fotografias, plantas dos locais, medições, recuperação de projéteis, análise de respingos de sangue… Não temos acesso aos mortos.”
O que disseram as autoridades e qual era a imagem pública do ex-militar
Krissy Barrett afirmou ainda que as suspeitas de má conduta se limitam a “uma parcela muito pequena das nossas confiáveis e respeitadas Forças de Defesa Australianas (ADF)”. Em seguida, ressaltou: “A maioria da ADF orgulha o nosso país”.
Mais cedo, também nesta terça-feira, o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, disse que não comentaria o caso por ele estar em julgamento. Segundo ele, “é muito importante que não haja envolvimento político”.
O Australian War Memorial, museu dedicado à história militar da Austrália, informou em comunicado que revisará o material dedicado a Ben Roberts-Smith.
Em 2018, quando os primeiros relatos foram publicados pela imprensa australiana, Roberts-Smith era tratado como herói nacional. Ele havia recebido a mais alta honraria militar do país por ter dominado, sozinho, combatentes do Talebã que atacavam seu pelotão do SAS. Depois disso, iniciou uma longa batalha judicial para tentar limpar seu nome — disputa que durou sete anos, custou milhões de dólares e foi chamada por alguns de “o julgamento do século” na Austrália.
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