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El Niño põe 1,2 milhão de pessoas em risco no Peru e país se prepara para extremos de chuva e seca

Defesa Civil identificou 536 pontos críticos, enquanto o governo mantém centenas de distritos sob emergência; autoridades esperam agravamento dos riscos com o fortalecimento do fenômeno nos próximos meses.
El Niño se forma no Pacífico e pode ganhar força nos próximos meses
Imagens de satélite mostrando a diferença entre a temperatura média da superfície do mar no Equador, no Oceano Pacífico tropical (Crédito da imagem: NOAA Satellites)

Resumo da Notícia

  • O Instituto Nacional de Defensa Civil do Peru estima que aproximadamente 1,2 milhão de pessoas estão expostas aos riscos associados ao El Niño em pelo menos dez regiões do país.
  • A Defesa Civil identificou 536 pontos críticos, onde autoridades priorizam intervenções para reduzir danos provocados por chuvas, enchentes e deslizamentos.
  • Uma declaração de emergência do governo peruano abrange 796 distritos por perigo iminente de chuvas intensas, enquanto outra alcança 607 distritos por risco de déficit hídrico.
  • O ENFEN mantém Alerta de El Niño Costero e considera mais provável que o episódio junto à costa alcance magnitude entre forte e extraordinária até o verão austral.
  • O Peru já registrou efeitos neste mês, com alagamentos em Lima, deslizamentos em estradas e problemas no acesso a Machu Picchu após chuvas intensas.

O Peru estima que aproximadamente 1,2 milhão de pessoas estejam expostas aos impactos do El Niño, em um momento em que o país se prepara simultaneamente para dois extremos: chuvas intensas e inundações em determinadas regiões e falta de água em outras. A estimativa foi apresentada nesta quinta-feira (27) pelo chefe do Instituto Nacional de Defensa Civil (Indeci), Luis Enrique Vásquez, e considera áreas historicamente atingidas pelo fenômeno.

Segundo Vásquez, pelo menos dez regiões apresentam vulnerabilidade elevada e 536 pontos críticos já foram identificados pelas autoridades. O trabalho preventivo inclui intervenções em áreas sujeitas a transbordamentos, inundações e movimentos de massa, enquanto o governo acompanha a expectativa de intensificação do fenômeno a partir dos próximos meses.

O número de 1,2 milhão exige uma distinção importante: não se trata de 1,2 milhão de vítimas nem de pessoas que já perderam casas ou foram desalojadas. É uma estimativa de população exposta ao risco, utilizada pela Defesa Civil para planejamento e preparação diante dos possíveis impactos do El Niño.

A dimensão da preparação aparece nas medidas adotadas pelo governo antes mesmo do período considerado mais crítico. Em 2 de julho, o Executivo declarou estado de emergência em 796 distritos por perigo iminente de chuvas intensas associadas ao El Niño 2026/2027.

A medida, válida inicialmente por 60 dias, permite ações excepcionais de redução de risco, resposta e reabilitação. Ela alcança localidades de Amazonas, Áncash, Apurímac, Arequipa, Ayacucho, Cajamarca, Huancavelica, Huánuco, Ica, Junín, La Libertad, Lambayeque, Lima, Loreto, Madre de Dios, Moquegua, Pasco, Piura, San Martín, Tacna, Tumbes, Ucayali e Callao.

O cenário não é, porém, de excesso de chuva em todo o país. Em 13 de agosto, outro decreto colocou 607 distritos de 16 departamentos em estado de emergência por perigo iminente de déficit hídrico durante o período chuvoso de 2026/2027.

A medida publicada no Diário Oficial El Peruano abrange áreas de Apurímac, Arequipa, Ayacucho, Cusco, Huancavelica, Huánuco, Junín, La Libertad, Loreto, Madre de Dios, Moquegua, Pasco, Puno, San Martín, Tacna e Ucayali.

Os dois números não devem ser simplesmente somados como se representassem mais de 1.400 distritos distintos, porque as declarações tratam de riscos diferentes e podem abranger localidades ou departamentos presentes nos dois cenários. O que elas demonstram é a complexidade do impacto esperado: El Niño pode ampliar a ameaça de chuva excessiva em uma área e, ao mesmo tempo, favorecer déficit de precipitação em outra.

El Niño Costero pode chegar a intensidade extraordinária

Para entender por que o Peru recebe atenção especial, é preciso diferenciar o El Niño Costero do comportamento do fenômeno no Pacífico Equatorial Central. O aquecimento das águas imediatamente próximas ao litoral de Peru e Equador pode produzir impactos particularmente fortes sobre o regime de chuvas da costa peruana.

No comunicado mais recente, de 14 de agosto, o ENFEN manteve o estado de Alerta de El Niño Costero. Para a região Niño 1+2, próxima ao litoral, a comissão considera mais provável que o fenômeno permaneça entre forte e extraordinário até o verão austral.

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No Pacífico Equatorial Central, monitorado pela região Niño 3.4, a previsão é de um El Niño forte entre agosto e setembro e entre forte e muito forte de outubro de 2026 a fevereiro de 2027. O órgão projeta que o episódio possa permanecer ativo até o início do outono de 2027.

O ENFEN também prevê temperaturas do ar muito acima do normal ao longo da costa peruana no trimestre agosto-outubro. As projeções são atualizadas periodicamente, portanto não significam que toda a faixa costeira terá necessariamente enchentes severas, mas sustentam a preparação antecipada para cenários de maior risco.

Chuvas já atingiram Lima e acesso a Machu Picchu

O Peru já enfrentou efeitos concretos neste mês. Em 19 de agosto, chuvas intensas associadas ao El Niño provocaram alagamentos em Lima, deslizamentos e interrupções rodoviárias, além de afetarem o acesso turístico a Machu Picchu.

As autoridades determinaram o fechamento temporário da Trilha Inca após aumento do nível dos cursos d’água e presença de detritos. Em outras áreas, as chuvas atingiram residências e comprometeram trechos de estradas.

Esses episódios não significam que o cenário projetado para o fim do ano já tenha se materializado em sua intensidade máxima. Ao contrário: a preocupação da Defesa Civil é justamente que o fenômeno ainda deverá se fortalecer, elevando o potencial de danos quando coincidir com a temporada de chuvas.

Agricultura e pesca estão entre os setores expostos

O norte do Peru merece atenção adicional porque reúne importantes áreas agrícolas. Chuvas intensas podem alagar plantações, danificar sistemas de irrigação, interromper estradas e dificultar o transporte de produtos, enquanto períodos de falta de água afetam outras áreas rurais.

O risco para o setor não surgiu apenas agora. Em março, produtores e autoridades climáticas já alertavam que o El Niño Costero ameaçava áreas voltadas às exportações agrícolas, especialmente pela possibilidade de chuvas intensas e inundações.

A pesca também é sensível ao aquecimento das águas. Mudanças na temperatura do Pacífico alteram a distribuição de espécies e dos nutrientes disponíveis no oceano, razão pela qual o ENFEN inclui avaliações sobre recursos pesqueiros em seus comunicados.

No boletim de agosto, o órgão prevê alterações na distribuição da anchoveta, espécie fundamental para a indústria pesqueira peruana. O setor possui grande peso econômico porque o país está entre os principais fornecedores mundiais de farinha e óleo de peixe.

O alerta peruano ajuda a dimensionar o El Niño de 2026

O caso do Peru mostra por que um El Niño intenso não pode ser resumido simplesmente a “mais chuva” ou “mais seca”. A alteração da circulação oceânica e atmosférica produz respostas diferentes conforme a posição geográfica, a época do ano e a interação com outros sistemas climáticos.

No Brasil, o fenômeno também está sendo acompanhado com atenção desde que a NOAA confirmou sua formação no Pacífico em junho. A atualização mais recente da agência norte-americana aponta probabilidade superior a 90% de um evento muito forte durante parte da primavera e do inverno de 2026/27 no Hemisfério Norte.

Os efeitos, contudo, são regionais. Enquanto o Peru se prepara para enchentes, deslizamentos e déficit hídrico simultaneamente, no Brasil as principais preocupações incluem chuva acima da média em partes do Sul e precipitação mais irregular ou reduzida em áreas do Norte e Nordeste.

Essa diferença também impede conclusões automáticas sobre alimentos ou inflação. Um modelo recente analisado pelo Portal N10 mostra que um El Niño forte pode pressionar determinados grupos de alimentos, mas o impacto final dependerá de quais regiões produtoras forem atingidas, da duração dos eventos extremos, dos estoques e da resposta da oferta.

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