Resumo da Notícia
A América do Sul entrou em uma nova fase de avanço da direita. A possível vitória do conservador Abelardo de la Espriella na Colômbia, apontada pela pré-contagem, e a vantagem de Keiko Fujimori na apuração do Peru podem ampliar a maioria de governos de direita e centro-direita no continente.
O movimento não surge isolado. Desde 2000, a região alterna ciclos de esquerda, reações conservadoras, retomadas progressistas e novas guinadas à direita. O que muda agora é o peso do momento: se Colômbia e Peru confirmarem os resultados em favor da direita, o placar regional pode chegar a sete governos de direita ou centro-direita contra cinco de esquerda ou centro-esquerda.
Hoje, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Paraguai aparecem no campo da direita ou centro-direita. Brasil, Uruguai, Guiana, Suriname e Venezuela seguem classificados à esquerda ou centro-esquerda. O Peru permanece em apuração, com vantagem apertada de Keiko Fujimori sobre o esquerdista Roberto Sánchez.
O pêndulo político voltou a se mover
A virada atual marca o quarto grande momento político sul-americano em 26 anos. O primeiro foi a chamada “onda rosa”, nos anos 2000 e início da década de 2010. Em 2010, recorte usado como referência daquele ciclo, governos de esquerda ou centro-esquerda comandavam 9 dos 12 países analisados.
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Esse período foi marcado por nomes como Lula, no Brasil; Hugo Chávez, na Venezuela; Néstor e Cristina Kirchner, na Argentina; Evo Morales, na Bolívia; Rafael Correa, no Equador; e a Frente Ampla, no Uruguai.
A expressão “onda rosa” foi popularizada pelo correspondente norte-americano Larry Rohter, do New York Times, para diferenciar uma esquerda reformista, “rosa”, de uma esquerda comunista, “vermelha”.
A reação veio entre 2015 e 2018, com a chegada de Mauricio Macri à Presidência da Argentina, o governo de Sebastián Piñera no Chile, a vitória de Iván Duque na Colômbia e, no Brasil, a queda de Dilma Rousseff, seguida pelo governo Michel Temer e pela eleição de Jair Bolsonaro.
Depois, entre 2019 e 2022, a esquerda voltou a crescer. O ciclo incluiu Gabriel Boric, no Chile; Gustavo Petro, na Colômbia; Luis Arce, na Bolívia; Pedro Castillo, no Peru; e o retorno de Lula no Brasil. Foi uma retomada curta, atravessada por crises internas e desgaste rápido em parte dos governos.
Desde 2023, o movimento voltou para a direita. Javier Milei venceu na Argentina, José Antonio Kast chegou ao poder no Chile, Daniel Noboa governa o Equador, Rodrigo Paz assumiu na Bolívia e Abelardo de la Espriella aparece como provável novo presidente da Colômbia. No Peru, a apuração ainda não terminou, mas Keiko Fujimori lidera por pequena margem.
Colômbia e Peru concentram o alerta

Na Colômbia, a vantagem de Abelardo de la Espriella pode interromper o ciclo de Gustavo Petro, primeiro presidente de esquerda da história do país. O resultado, porém, ainda exige cautela: a disputa foi apertada e há questionamentos sobre a contagem.
No Peru, a indefinição também pesa. Keiko Fujimori lidera contra Roberto Sánchez, mas a confirmação depende da conclusão oficial da apuração e da análise de recursos. O país já vive um longo período de instabilidade, com sucessivas trocas de presidentes e baixa confiança nas instituições.
Os dois casos reforçam uma marca do momento regional: o voto tem funcionado menos como adesão permanente a um campo ideológico e mais como cobrança por resultado. Crise econômica, insegurança pública, instabilidade institucional e promessas não cumpridas têm levado eleitores a trocar de lado com rapidez.
Brasil vira peça central
A próxima eleição presidencial brasileira tende a ser o ponto mais importante desse tabuleiro. O Brasil é a maior economia, maior população e maior território da América do Sul. Também é o principal governo de esquerda entre as grandes economias da região.
Com Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) nas primeiras colocações das pesquisas, o país aparece como o único da região com eleição presidencial até o fim do ano. A disputa seguinte no continente será apenas em 2027, na Argentina.
Se o Brasil mantiver o atual alinhamento, a América do Sul continuará dividida: uma maioria numérica de governos de direita e centro-direita, mas com o peso regional brasileiro sustentando o campo da esquerda. Se o Brasil mudar de lado, a região pode caminhar para uma maioria conservadora mais ampla, com impacto em integração regional, comércio, segurança pública e política externa.
Direita e esquerda não formam blocos iguais
O mapa político ajuda a entender a direção do continente, mas não deve ser lido como se todos os governos de um mesmo campo fossem iguais.
Na direita, há diferenças entre o liberalismo radical de Javier Milei, o conservadorismo de José Antonio Kast, a agenda de segurança de Daniel Noboa e o perfil de Abelardo de la Espriella, classificado por analistas políticos colombianos como ultradireitista.
Na esquerda, também há diferenças importantes entre Lula, a Frente Ampla uruguaia, o chavismo venezuelano e os governos de Guiana e Suriname.
A comparação histórica mostra justamente isso: a América do Sul não se move em linha reta. Ela oscila. Desde 2000, alterna avanço da esquerda, reação da direita e punição eleitoral a governos desgastados.
Colômbia e Peru indicam que o pêndulo voltou à direita. A eleição brasileira dirá se esse movimento vira uma maioria regional ampla ou se o continente seguirá dividido entre dois campos fortes.
