Resumo da Notícia
O assessor da Casa Branca Stephen Miller elevou o tom nesta quinta-feira (5) ao defender que países latino-americanos não deveriam aceitar “nem um único quilômetro quadrado” de território sob controle de qualquer entidade que não seja o próprio governo. A fala foi feita durante a Conferência das Américas contra os Cartéis, realizada na sede do Comando Sul dos Estados Unidos, na Flórida, com ministros e autoridades de Defesa de países da região.
No mesmo discurso, Miller também afirmou que Washington “não vai ceder nem uma polegada do território do hemisfério” a “inimigos ou adversários” — sem especificar quem estaria nesse alvo — e reconheceu que o governo de Donald Trump vem recorrendo a “poder duro, poder militar e força letal” como eixo da política de segurança.
Ao justificar por que o encontro foi montado com presença de chefes militares, Miller argumentou que a estratégia tradicional falhou. Ele disse: “Aprendemos, depois de décadas de esforço, que não existe uma solução de Justiça criminal para o problema dos cartéis.”
Na sequência, completou com uma frase que sintetiza a inflexão defendida por Washington: “A razão de esta ser uma conferência com liderança militar, e não uma conferência de advogados, é porque essas organizações só podem ser derrotadas com poder militar.”
Cartéis como “terrorismo” e a defesa de um tratamento “brutal”
Miller enquadrou cartéis, facções e grupos armados da região como “organizações terroristas”, comparando-os ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda. E, nesse ponto, fez uma defesa explícita de endurecimento: essas estruturas, disse ele, deveriam ser enfrentadas “com a mesma implacabilidade” e não com um modelo de processo judicial.
A frase mais dura atribuída ao assessor foi direta: cartéis “devem ser tratados tão brutalmente e tão implacavelmente quanto tratamos essas organizações” — uma lógica que troca o foco do sistema de Justiça por uma resposta de guerra, com “ponta de lança” e capacidade de letalidade.
Em outro trecho do evento, Miller ainda declarou que, na visão dele, os “direitos humanos” a serem protegidos não seriam os de criminosos violentos, mas os “dos cidadãos comuns”.
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O evento aconteceu em Doral, no sul da Flórida, e foi apresentado como a primeira edição da conferência voltada à articulação de uma frente regional contra cartéis, com foco operacional e militar. Um acordo de cooperação foi anunciado com participação de quase 20 países latino-americanos e caribenhos, em um ambiente que buscou reforçar discursos de soberania e “paz pela força”.
Ao mesmo tempo, a conferência expôs um desenho político: Brasil, México e Colômbia não enviaram delegações, segundo registros do encontro, enquanto a lista de presentes reuniu governos mais próximos de Washington naquele momento.
Miller também relacionou segurança pública e migração irregular. Na avaliação dele, haveria um “círculo vicioso” no hemisfério: países “do México ao extremo sul da América do Sul” não garantiriam segurança física básica, o que empurraria parte da população a buscar oportunidades econômicas nos EUA por rotas irregulares.
A fala reforça um argumento que o governo Trump vem repetindo: o combate ao crime organizado não seria apenas um tema policial, mas um pilar de estratégia hemisférica, com impacto direto sobre fronteira, imigração e economia.
Escalada militar: operações no mar e ação na Venezuela entram no pano de fundo
O discurso ocorre num momento em que Washington amplia o uso de ativos militares na região. Registros públicos recentes apontam uma sequência de ofensivas contra embarcações classificadas como ligadas ao narcotráfico, com dezenas de ataques desde setembro e centenas de vítimas, segundo levantamentos citados por organismos de imprensa internacional.
Esse ambiente também foi marcado por uma operação no início de janeiro que resultou na captura de Nicolás Maduro, então presidente da Venezuela, que passou a enfrentar acusações de narcotráfico em Nova York — episódio tratado como um divisor de águas na escalada regional.