Após acerto com Japão, EUA firmam acordo histórico com União Europeia e fixam tarifa de 15%

Trump e Ursula von der Leyen anunciam pacto que encerra meses de impasse e afasta ameaça de tarifas de 30% sobre todos os produtos europeus; Por outro lado, o Brasil enfrenta uma medida oposta: a imposição de tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras para os Estados Unidos, prevista para entrar em vigor em 1º de agosto.
Após acerto com Japão, EUA firmam acordo histórico com União Europeia e fixam tarifa de 15%
Ursula von der Leyen e Donald Trump (Foto: Reprodução / @vonderleyen

Os Estados Unidos e a União Europeia anunciaram neste domingo (21) um acordo comercial abrangente, encerrando um impasse que durava meses e eliminando o risco de um conflito tarifário de grandes proporções. O anúncio foi feito após reunião entre o presidente americano Donald Trump e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, realizada na Escócia.

“Chegamos a um acordo. É um bom acordo para todos”, declarou Trump aos jornalistas.
“Temos um acordo comercial entre as duas maiores economias do mundo. É um grande acordo, é enorme”, afirmou von der Leyen, que buscava finalizar a negociação antes do prazo de 1º de agosto.

No entanto, enquanto as negociações com UE e Japão avançam, o Brasil enfrenta uma medida oposta: a imposição de tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras para os Estados Unidos, prevista para entrar em vigor em 1º de agosto.

Tarifa uniforme de 15% e compras bilionárias de energia

Pelo novo pacto, será aplicada uma tarifa uniforme de 15% sobre automóveis, semicondutores e produtos farmacêuticos. Atualmente, produtos europeus enfrentam tarifas que variam entre 10% e 25% ao entrarem nos Estados Unidos. O novo índice representa, portanto, uma padronização mais elevada, mas ainda assim considerada um avanço, diante da ameaça anterior de Trump de impor tarifas de 30% sobre todos os produtos do bloco europeu.

Entretanto, produtos como aço e alumínio seguirão com taxa de 50%, permanecendo fora do novo regime de tarifa uniforme.

Além disso, a União Europeia concordou em comprar cerca de US$ 750 bilhões (equivalente a R$ 4 trilhões) em energia dos EUA, segundo Trump, incluindo gás natural liquefeito (GNL), petróleo e combustíveis nucleares. Von der Leyen destacou que as compras representam uma medida estratégica para reduzir a dependência energética da Rússia:

“As compras de produtos energéticos dos EUA vão diversificar nossas fontes de fornecimento e contribuir para a segurança energética da Europa. Substituiremos o gás e o petróleo russos por compras significativas de GNL, petróleo e combustíveis nucleares norte-americanos”, afirmou.

O pacote também inclui investimentos adicionais de US$ 600 bilhões em setores variados por parte dos europeus.

Segundo von der Leyen, tarifa zero foi acordada para produtos estratégicos como aeronaves e peças aeronáuticas, alguns tipos de químicos e determinados produtos agrícolas. No entanto, setores como bebidas alcoólicas ainda não têm decisão definida no escopo atual do acordo.

Ela reforçou que o pacto trará estabilidade e previsibilidade para as empresas dos dois lados do Atlântico, e acrescentou que o acordo agora precisará ser aprovado pelos 27 Estados-membros da União Europeia.

O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, celebrou o entendimento, citando que a medida evita prejuízos significativos à economia do país:

“Conseguimos evitar um conflito comercial que teria atingido duramente a economia exportadora alemã”, escreveu Merz em publicação na rede X (antigo Twitter).

O acordo firmado com a União Europeia acontece dias depois de os Estados Unidos estabelecerem o mesmo regime de tarifa-base de 15% com o Japão. O padrão tarifário — inicialmente anunciado como exclusivo — agora serve de referência para os dois principais aliados comerciais dos EUA.

No entanto, há diferenças importantes entre os acordos. Enquanto com o Japão o foco foi quase exclusivamente industrial, o acordo com a União Europeia é mais amplo, abrange energia e fixação de marcos regulatórios que podem influenciar cadeias globais.

Durante a coletiva, Trump declarou que o entendimento representa “o maior acordo comercial já feito”, apesar de a proposta inicial da UE ter sido de tarifa zero para bens industriais.

“O principal obstáculo era a equidade. A Europa é muito fechada. Não vendemos carros para lá. Agricultura, praticamente nada. Isso precisa mudar”, declarou o presidente dos EUA antes do encontro, citando um “50-50 de chance” de acordo.

Agora, com a assinatura preliminar confirmada, as negociações passam à fase de implementação e ratificação, tanto no Parlamento Europeu quanto nos órgãos comerciais norte-americanos.

Brasil é alvo de tarifa elevada e retaliações

Em contraste, o governo brasileiro enfrenta ameaça de tarifa de 50% sobre seus produtos exportados aos EUA, uma medida anunciada em 9 de julho sob justificativas de decisão judicial no Brasil relacionada ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A imposição unilateral foi interpretada por autoridades brasileiras como instrumento de retaliação política.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil tentou negociar em 10 encontros formais desde maio, enviados documentos por carta ao governo dos EUA, mas não obteve resposta substancial. Ele classificou a ameaça como “chantagem inaceitável” e reiterou que o país está pronto para impor medidas recíprocas, com base na nova Lei de Reciprocidade Comercial brasileira.

O vice-presidente Geraldo Alckmin ressaltou disposição para diálogo, bem como a abertura para apoio institucional de empresas brasileiras e estrangeiras afetadas.

Setores mais impactados no Brasil

A tarifa americana de 50% deve atingir setores estratégicos da economia brasileira:

  • Café, um dos principais produtos de exportação (com cerca de 16% das vendas dos EUA vindo do Brasil), enfrenta queda de demanda e perda de competitividade.
  • Suco de laranja: o Brasil responde por 80% do abastecimento dos EUA, que detêm a menor produção interna em 50 anos; os preços despencaram, chegando à metade do valor do ano anterior.
  • Açaí, consumido amplamente nos EUA, poderá sofrer alta nos preços ou redução de oferta nos pontos de venda.

Organizações do setor industrial brasileiro alertam que até 100 mil empregos podem ser ameaçados com a medida. O governo admite a necessidade de apoio emergencial para os segmentos afetados.

Respota brasileira: postura multilateral e fortalecimento de alianças

Diante da escalada de tensão, o Brasil reforçou sua aposta na cooperação multilateral e diversificação de parceiros comerciais. O governo anunciou maior aproximação com o Mercosul, União Europeia e países da Ásia, e reafirmou compromisso com os BRICS.

O diplomata Celso Amorim, assessor do governo Lula, afirmou que os ataques tarifários não mudarão o enfoque brasileiro em um comércio globalmente integrado e equitativo.

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