As políticas tarifárias do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltaram a dominar o debate econômico internacional após uma série de anúncios que evidenciam o endurecimento com o Brasil. Em declaração à imprensa nesta segunda-feira (28), Trump afirmou: “A tarifa mundial ficaria em algum lugar na faixa de 15% a 20%”, referindo-se às taxas que pretende impor a países que não celebrarem acordos bilaterais com Washington.
O Brasil, no entanto, está fora dessa faixa e será submetido a uma tarifa de 50%, mais que o dobro da média global projetada pelo próprio ex-presidente norte-americano.
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A decisão afeta diretamente os produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos a partir de 1º de agosto. Enquanto isso, países como Indonésia, Japão, Vietnã, Filipinas e Reino Unido avançam em acordos que preveem tarifas recíprocas de 15% e investimentos bilionários. Segundo Trump, “concluímos o acordo com a Indonésia, e eles abriram o mercado para nós. O Japão também liberou a entrada dos nossos carros e do nosso arroz. As Filipinas fizeram o mesmo […] e eu adoraria ver a China seguir esse caminho. Estamos negociando com eles neste momento”.
Nova rodada de acordos e o isolamento brasileiro
Os acordos recentes celebrados por Trump com países asiáticos e europeus incluem contrapartidas relevantes, como a abertura de mercados, redução de barreiras tarifárias e garantias de investimentos. No caso do Japão, por exemplo, há um compromisso de US$ 550 bilhões em investimentos, enquanto com a União Europeia, o pacto assinado no domingo prevê tarifas fixas de 15% sobre a maioria das exportações do bloco aos EUA, incluindo veículos, além de um pacote de US$ 600 bilhões em investimentos europeus em território americano.
O tratado com os europeus, no entanto, ainda precisa passar pelo crivo dos países-membro. Segundo o que apurou a imprensa internacional, já há resistência de líderes europeus às condições propostas por Trump, o que pode dificultar sua ratificação.
China e EUA voltam à mesa de negociações
Simultaneamente ao acordo com a Europa, os EUA retomaram nesta segunda-feira (28), em Estocolmo, as negociações com a China. As duas maiores economias do mundo tentam evitar nova escalada na guerra comercial e buscam prorrogar a trégua tarifária por mais três meses, conforme divulgado pela agência Reuters. O prazo para um acordo definitivo expira em 12 de agosto, resultado de entendimentos preliminares alcançados entre maio e junho.
“Estamos muito próximos de um acordo com a China. Nós realmente fizemos uma espécie de acordo com a China, mas vamos ver como isso vai se desenrolar”, declarou Trump no domingo, sem detalhar os termos. O Financial Times revelou que o governo americano suspendeu restrições à exportação de tecnologia para a China, como forma de não prejudicar as negociações em andamento. A reportagem cita fontes ligadas ao Departamento de Comércio dos EUA, mas não houve confirmação oficial da Casa Branca.
A possível prorrogação da trégua abriria espaço para uma reunião entre Trump e o presidente Xi Jinping, cogitada para o final de outubro ou início de novembro, conforme fontes diplomáticas.
Brasil fora do circuito
O governo brasileiro, por sua vez, segue de fora das novas tratativas multilaterais com os Estados Unidos. Apesar de declarações públicas de interesse em dialogar, o Brasil será afetado diretamente pela tarifa de 50% — a mais alta entre os parceiros comerciais de Washington.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se manifestou de forma crítica à ausência de diálogo com os americanos, enquanto o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) divulgou nota no domingo reafirmando que vem tentando negociar desde o anúncio das medidas.
“Reiteramos que a soberania do Brasil e o estado democrático de direito são inegociáveis. No entanto, o governo brasileiro continua e seguirá aberto ao debate das questões comerciais, em uma postura que já é clara também para o governo norte-americano”, afirmou o MDIC.
Especialistas apontam entraves políticos e geopolíticos
Segundo o g1, há uma percepção entre especialistas de que os canais diplomáticos entre Brasil e EUA estão fragilizados, dificultando qualquer avanço nas tratativas. Eles avaliam que a política tarifária sob Trump está fortemente ancorada em interesses geopolíticos, reduzindo o espaço para uma negociação técnica. A atuação direta do presidente republicano, sem intermediação consistente de órgãos como o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA), seria uma das razões para o bloqueio das conversas.
Outro fator que contribui para o afastamento seria o interesse estratégico dos EUA na América do Sul, especialmente frente ao avanço da influência chinesa na região e às reservas de terras raras existentes no Brasil. Segundo Alberto Pfeifer, coordenador do Grupo de Análise de Estratégia Internacional da USP, esses elementos reforçam o viés político por trás da elevação das tarifas.
Caminho incerto
Sem a inclusão em nenhum dos novos acordos e com uma tarifa punitiva de 50%, o Brasil se vê em posição delicada no cenário do comércio internacional. A medida não apenas dificulta o acesso de produtos brasileiros ao mercado norte-americano, como também sinaliza um distanciamento diplomático relevante.
Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos ampliam laços comerciais com diversas economias estratégicas e flexibilizam medidas para negociar com a China, o Brasil se torna um dos poucos países a sofrer uma penalização tarifária dessa magnitude, sem prazo para revisão.
A continuidade desse cenário pode afetar setores-chave da economia brasileira voltados à exportação e exigirá, segundo analistas, uma reavaliação urgente da estratégia de política externa e comercial do país.
