Estudo mapeia áreas de risco para leishmaniose em Natal e aponta foco na zona Norte

A presença contínua de vetores contaminados demonstra que a região requer ações sistemáticas de controle e prevenção, envolvendo tanto a saúde pública quanto a saúde animal.
Estudo mapeia áreas de risco para leishmaniose em Natal e aponta foco na zona Norte
Vetor transmite o parasita após se alimentar do sangue de um hospedeiro infectado, geralmente cães - Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

Uma pesquisa realizada no Instituto de Medicina Tropical do Rio Grande do Norte (IMT/UFRN) identificou áreas de risco para a transmissão da leishmaniose visceral na cidade de Natal. O estudo analisou a distribuição espacial da doença na comunidade de Nordelândia, localizada no bairro Lagoa Azul, zona Norte da capital potiguar, e aponta aumento no número de vetores contaminados entre 2021 e 2023.

Intitulada Análise Espacial do Perfil Epidemiológico de Leishmania infantum em Nordelândia, Lagoa Azul (Natal/RN), a pesquisa foi desenvolvida como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do estudante Kezmy Alves, sob orientação da professora Selma Jerônimo, diretora do IMT, e coorientação da bióloga Joanna Valverde.

De acordo com os dados coletados, o número de flebotomíneos — conhecidos como mosquito-palha, principal vetor da doença — contaminados por Leishmania apresentou crescimento relevante no período analisado. Em 2021, a média de contaminação variou de 0,24 a 3,58, com 339 insetos capturados. Em 2022, as médias oscilaram entre 0,05 e 1,89, com 228 capturas. Já em 2023, a variação foi de 0,00 a 5,68, com 382 exemplares coletados.

Outro dado relevante é a relação direta com a saúde animal. A pesquisa indica que cães apresentam 3,25 vezes mais chances de infecção por Leishmania em comparação com as pessoas residentes da região estudada, o que reforça a necessidade de políticas públicas voltadas ao controle da zoonose.

Os resultados apontam para um cenário de alta endemicidade na área, com concentração significativa de vetores contaminados. Essa situação reforça o alerta para a saúde pública local e a necessidade de estratégias contínuas de vigilância, prevenção e combate ao vetor.

Como funciona o ciclo de transmissão

O ciclo de transmissão da Leishmania infantum envolve a interação entre mosquito-palha, cães e seres humanos. O vetor transmite o protozoário causador da leishmaniose visceral ao se alimentar do sangue de hospedeiros infectados, geralmente cães, mantendo a circulação do agente infeccioso no ambiente. Ambientes com presença de matéria orgânica em decomposição e criadouros inadequados favorecem a proliferação do vetor e ampliam o risco de infecção.

A Leishmania infantum é registrada na América Latina, Europa e norte da África. Nos seres humanos, a doença pode ser fatal em até 5% dos casos quando não há diagnóstico e tratamento adequados. Em cães, a infecção costuma ser ainda mais agressiva, elevando o risco de adoecimento e morte.

Principais sintomas da leishmaniose visceral em humanos:

  • Febre prolongada (geralmente intermitente e sem causa aparente)
  • Perda de peso acentuada
  • Fraqueza e cansaço extremo
  • Anemia
  • Aumento do baço (esplenomegalia)
  • Aumento do fígado (hepatomegalia)
  • Inchaço abdominal
  • Pele pálida
  • Infecções recorrentes devido à baixa imunidade
  • Tosse seca (em alguns casos)
  • Sangramentos (gengiva, nariz)

Sem tratamento, a doença pode levar à morte em até 90% dos casos graves.

Principais sintomas da leishmaniose visceral em cães:

  • Perda de peso progressiva
  • Apatia e fraqueza
  • Lesões de pele, principalmente nas orelhas e ao redor dos olhos
  • Crescimento exagerado das unhas
  • Perda de pelos (principalmente ao redor dos olhos e focinho)
  • Feridas que não cicatrizam
  • Anemia
  • Aumento dos gânglios linfáticos
  • Problemas oculares
  • Dificuldades respiratórias (em casos mais graves)

Nos cães, mesmo sem sintomas evidentes, o animal pode estar infectado e manter o ciclo da doença.

Ferramentas de análise espacial indicam áreas de risco

Para a condução da pesquisa, foram utilizadas ferramentas de georreferenciamento e análise espacial, que permitiram identificar as áreas com maior concentração de vetores e ambientes mais propícios para sua proliferação. O estudo revelou que a zona Norte de Natal, em especial a comunidade de Nordelândia, reúne características ambientais que favorecem a manutenção e crescimento das populações de Lutzomyia longipalpis, espécie responsável pela transmissão da doença.

A presença contínua de vetores contaminados demonstra que a região requer ações sistemáticas de controle e prevenção, envolvendo tanto a saúde pública quanto a saúde animal.

Mudanças no perfil da doença nos últimos anos

Nos últimos anos, estudos têm apontado uma mudança no perfil epidemiológico da leishmaniose visceral. Até o início dos anos 2000, a doença afetava principalmente crianças, mas, com avanços em nutrição, vacinação e diagnóstico, houve uma redução expressiva na gravidade dos casos nessa faixa etária. Atualmente, os registros se concentram mais em adultos jovens, embora as infecções sigam ocorrendo em todas as idades.

Especialistas reforçam que, mesmo com maior resistência imunológica, a vacinação é fundamental, especialmente para crianças, pois fortalece a resposta do organismo não apenas contra a leishmaniose, mas contra outros patógenos.

Impacto para saúde pública em Natal

Os resultados do estudo reforçam a importância de manter ações permanentes de vigilância epidemiológica, educação em saúde e controle ambiental, principalmente em regiões de maior vulnerabilidade socioambiental, como Lagoa Azul. O monitoramento contínuo dos vetores e a conscientização da população sobre os riscos e formas de prevenção seguem sendo essenciais para conter o avanço da doença.

O trabalho contribui diretamente para o entendimento da dinâmica da leishmaniose visceral em Natal e serve de subsídio para políticas públicas e estratégias de combate à doença, tanto na capital potiguar quanto em outras regiões afetadas.

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