Seca e estiagem deixam R$ 68,2 milhões em prejuízos no RN em meio ao El Niño
Levantamento da CNM aponta R$ 60,5 milhões em perdas privadas e R$ 7,7 milhões no setor público entre julho e agosto; seca e estiagem respondem por 92% dos decretos registrados no estado.
Resumo da Notícia
- O Rio Grande do Norte acumulou R$ 68,2 milhões em prejuízos associados aos desastres registrados entre julho e agosto, segundo recorte estadual da Confederação Nacional de Municípios.
- A pecuária responde por R$ 35,4 milhões e a agricultura por R$ 24,4 milhões, concentrando a maior parte das perdas econômicas identificadas no período.
- O estado registrou 25 decretos de anormalidade, 92% relacionados a seca ou estiagem, com 62,3 mil pessoas afetadas.
- O quadro ganha peso porque o El Niño continua se intensificando: órgãos federais apontam probabilidade superior a 90% de um evento muito forte entre setembro e novembro, enquanto municípios do RN seguem obtendo reconhecimento federal por seca.
O Rio Grande do Norte acumula R$ 68,2 milhões em prejuízos associados aos desastres registrados entre julho e agosto de 2026, período marcado pelo avanço da seca e da estiagem em diferentes áreas do estado. O recorte estadual produzido pela área de Proteção e Defesa Civil da Confederação Nacional de Municípios (CNM) aponta que R$ 60,5 milhões das perdas ocorreram no setor privado e R$ 7,7 milhões atingiram estruturas e serviços públicos.
A agropecuária concentra praticamente todo o impacto privado identificado. A pecuária soma R$ 35,4 milhões em prejuízos, enquanto a agricultura aparece com outros R$ 24,4 milhões. O levantamento registra ainda 25 decretos de anormalidade no RN, dos quais 92% estão associados a seca ou estiagem, e contabiliza 62,3 mil pessoas afetadas.
O cenário potiguar integra um quadro mais amplo acompanhado pela CNM. O Boletim El Niño 2026/2027 da Confederação Nacional de Municípios contabilizou mais de R$ 8,2 bilhões em prejuízos econômicos no país apenas em julho e agosto, com 4,7 milhões de pessoas atingidas em 641 municípios com registros de emergência ou calamidade.
Pecuária e agricultura somam R$ 59,8 milhões em perdas
Os números do Rio Grande do Norte mostram que o impacto econômico está concentrado justamente nas atividades mais expostas à disponibilidade de água e à irregularidade das chuvas.
Somadas, pecuária e agricultura chegam a R$ 59,8 milhões, equivalentes à quase totalidade dos prejuízos privados registrados pela CNM no estado. Na produção rural, falta de água, redução das pastagens e necessidade de ampliar gastos com alimentação animal atingem diretamente os custos das propriedades, enquanto culturas dependentes de chuva sofrem com a irregularidade do período chuvoso.
Essa pressão já vinha aparecendo antes da divulgação do novo levantamento. Em agosto, o Portal N10 mostrou que o fortalecimento do El Niño colocava especialmente o Seridó em alerta diante da baixa recarga de vários reservatórios. A preocupação não estava apenas no volume armazenado naquele momento, mas na condição em que os mananciais entrariam na próxima estação chuvosa.
O problema ficou mais concreto em setembro. Uma avaliação da Caern mostrou risco de colapso de mananciais ligados ao abastecimento de nove municípios do Seridó até dezembro, entre eles Currais Novos, Parelhas, Jardim do Seridó, São João do Sabugi e Ouro Branco.
Municípios do RN continuam entrando em emergência por seca
Os decretos reunidos pela CNM também encontram correspondência nos reconhecimentos publicados pela Defesa Civil Nacional.
Somente nesta semana, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional reconheceu situação de emergência por seca em Lajes Pintadas, Messias Targino e São Tomé, no Rio Grande do Norte. Com o reconhecimento federal, os municípios podem apresentar planos de trabalho e solicitar recursos para ações de resposta e recuperação por meio do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres.
Na quinta-feira (24), outro reconhecimento alcançou Monte das Gameleiras, também por seca. A classificação utilizada pela Defesa Civil diferencia seca de estiagem pela duração da ausência de chuva, sendo a seca um período mais prolongado.
A sequência mostra que os efeitos não estão restritos a uma única região potiguar. Municípios do Agreste, Seridó e Oeste aparecem entre os que enfrentam restrições hídricas ou buscam apoio federal.
O processo de reconhecimento e liberação de recursos pode ser acompanhado pela Defesa Civil Nacional no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres. A liberação de dinheiro não ocorre automaticamente com o decreto: cada prefeitura precisa apresentar o plano de trabalho e os valores solicitados passam por análise técnica federal.
El Niño continua ganhando intensidade
A preocupação com os meses seguintes está ligada à evolução do fenômeno no Oceano Pacífico.
O boletim mais recente elaborado conjuntamente por INMET, INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil Nacional e Censipam aponta mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro.
O monitoramento oficial do El Niño divulgado pelo INMET prevê chuva abaixo da média em áreas do Norte e Nordeste e temperaturas acima da normal em grande parte do país. Para o Nordeste, o risco está principalmente na persistência ou agravamento das condições secas.
Isso não significa que todos os municípios do Rio Grande do Norte terão necessariamente menos chuva ou que o fenômeno produzirá o mesmo efeito em todo o território. Os órgãos de monitoramento ressaltam que a intensidade e a distribuição dos impactos dependem também das condições atmosféricas e oceânicas regionais.
Para o RN, o ponto mais sensível está no encontro entre essa perspectiva climática e uma situação hídrica que já apresenta fragilidades antes da próxima quadra chuvosa.
Próxima estação chuvosa passa a ser decisiva
No Rio Grande do Norte, o período entre setembro e dezembro normalmente não concentra as principais chuvas do interior. Por isso, a maior preocupação está na persistência do El Niño até o início de 2027 e na influência que o fenômeno poderá exercer quando começar a próxima quadra chuvosa.
Essa diferença temporal é importante. Parte dos R$ 68,2 milhões contabilizados agora está ligada a perdas já registradas em 2026, enquanto o risco climático apontado para os próximos meses diz respeito ao agravamento das condições existentes e ao desempenho das chuvas que ainda virão.
A CNM recomenda que municípios atualizem planos de contingência, identifiquem áreas vulneráveis e reforcem estruturas locais de Defesa Civil. A entidade também chama atenção para a diferença entre os recursos anunciados pela União para prevenção e resposta a desastres e os valores que efetivamente chegam às administrações municipais.
No Rio Grande do Norte, o tamanho desse desafio começa a aparecer de maneira concreta: R$ 68,2 milhões em perdas, mais de 62 mil pessoas afetadas e uma sequência de municípios com emergência reconhecida, enquanto o El Niño entra justamente no período em que os modelos indicam maior intensidade.


