El Niño muito forte acende alerta no RN e Seridó concentra maior risco hídrico
Baixa recarga de açudes coloca a região entre as áreas mais vulneráveis do estado; Dourado, Itans e Passagem das Traíras estão entre os reservatórios que chegaram a agosto em situação crítica.
Resumo da Notícia
- O Seridó é a região do Rio Grande do Norte que concentra a maior preocupação diante do fortalecimento do El Niño, principalmente pela baixa recarga de vários reservatórios no período chuvoso de 2026.
- A NOAA calcula probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte entre a primavera e o início do verão, e o INMET prevê chuva mais irregular e abaixo da média no Norte e Nordeste a partir de outubro.
- Apesar de a Barragem de Oiticica ter chegado a cerca de 74% da capacidade em agosto, vários reservatórios do Seridó permanecem com volumes muito baixos.
- Dourado, Itans, Passagem das Traíras, Esguicho, Boqueirão de Parelhas e outros mananciais da região aparecem entre os pontos de maior vulnerabilidade.
- Uma estação chuvosa desfavorável em 2027 poderá afetar abastecimento, produção de forragem, pecuária leiteira, agricultura de sequeiro e custos de produção.
O El Niño deve alcançar intensidade muito forte entre outubro e novembro de 2026, aumentando a atenção sobre a próxima estação chuvosa do Rio Grande do Norte. No estado, o Seridó aparece como a região que mais preocupa, principalmente porque uma parcela importante de seus reservatórios praticamente não recebeu água durante o período chuvoso deste ano.
A avaliação é do meteorologista Gilmar Bistrot, da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (Emparn). Segundo ele, o fenômeno está entrando na categoria forte e a expectativa é que avance para muito forte entre outubro e novembro.
A projeção local acompanha um movimento observado internacionalmente. O Instituto Nacional de Meteorologia informou que a NOAA calcula probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte nos trimestres setembro-outubro-novembro, outubro-novembro-dezembro e novembro-dezembro-janeiro.
Segundo a atualização, há ainda 69% de probabilidade de este episódio superar em intensidade os demais registrados desde 1950, considerando o indicador utilizado pela agência norte-americana. O fenômeno começou em junho e deve permanecer pelo menos até março de 2027.
A intensidade do El Niño, porém, não significa que uma seca de determinada magnitude esteja decretada para o Rio Grande do Norte. O comportamento das chuvas depende também de outros fatores atmosféricos e oceânicos, e os impactos podem variar bastante dentro do próprio estado.
Por que o Seridó preocupa mais
A maior vulnerabilidade do Seridó está ligada principalmente à quantidade de água que seus reservatórios conseguiram acumular em 2026.
O secretário estadual do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos, Paulo Varella, explica que a atenção especial não decorre de uma expectativa de que necessariamente choverá menos no Seridó do que em todas as demais áreas do estado. O problema é a condição inicial dos açudes.
Segundo Varella, a recarga de boa parte da açudagem da região foi muito pequena neste ano.
Entre os reservatórios destacados pelo secretário estão Gargalheiras, Dourado, Sabugi, Boqueirão de Parelhas, Esguicho, Passagem das Traíras e Itans.
Isso significa que uma eventual estação chuvosa abaixo da média ou com chuvas mal distribuídas em 2027 encontraria vários desses mananciais com pouca reserva acumulada.
Nove reservatórios do Seridó estavam abaixo de 10%
Os números mais recentes ajudam a dimensionar essa preocupação.
No levantamento de 10 de agosto, os 69 reservatórios monitorados pelo Instituto de Gestão das Águas do Rio Grande do Norte (Igarn) acumulavam 2.706.696.580 metros cúbicos de água, equivalentes a 51,11% da capacidade total de 5.295.422.524 m³.
Apesar de o armazenamento estadual estar acima da metade da capacidade, 13 reservatórios apresentavam menos de 10% de água.
Entre os casos identificados no levantamento, nove estão no Seridó:
| Reservatório | Município | Volume em 10 de agosto |
|---|---|---|
| Passagem das Traíras | São José do Seridó | 0,03% |
| Itans | Caicó | 0,45% |
| Totoró | Currais Novos | 0,71% |
| Dourado | Currais Novos | 1,34% |
| Mundo Novo | Caicó | 1,98% |
| Zangarelhas | Jardim do Seridó | 3,25% |
| Esguicho | Ouro Branco | 6,18% |
| Sabugi | São João do Sabugi | 8,40% |
| Boqueirão de Parelhas | Parelhas | 8,76% |
O quadro mostra por que o percentual total de água armazenada no estado não é suficiente para avaliar a segurança hídrica de cada município. Uma parcela significativa da reserva potiguar está concentrada nos grandes mananciais, enquanto açudes menores e diretamente ligados ao abastecimento de determinadas cidades podem estar próximos do volume morto ou do colapso.
Os dados de agosto também evitam uma conclusão equivocada: nem todos os reservatórios do Seridó estão em situação crítica.
No mesmo levantamento, o Pinga, em Cerro Corá, estava com 88,59%, enquanto o Dinamarca, em Serra Negra do Norte, armazenava 81,98%.
O problema, portanto, é a concentração de vários mananciais estratégicos em níveis extremamente baixos, e não uma ausência generalizada de água em toda a região.
Oiticica é a grande exceção
A Barragem de Oiticica, em Jucurutu, apresenta um cenário muito diferente.
No monitoramento de 10 de agosto, o reservatório tinha 551.592.279 metros cúbicos, equivalentes a 74,28% de sua capacidade total de 742.632.840 m³.
Oiticica é atualmente o segundo maior reservatório monitorado pelo Igarn e representa uma reserva estratégica para a segurança hídrica do Seridó.
O bom nível da barragem, entretanto, não resolve isoladamente a situação de todos os municípios. A existência de água armazenada precisa estar acompanhada de infraestrutura capaz de transportá-la até as localidades atendidas.
É justamente por isso que projetos de adutoras e integração de sistemas têm peso semelhante ao das próprias barragens na estratégia de convivência com períodos prolongados de estiagem.
Currais Novos já exige atenção
O Açude Dourado ilustra como a baixa recarga já produz preocupação concreta.
A Caern informou que o reservatório não recebeu recarga durante o período chuvoso de 2026 e reforçou a necessidade de uso consciente da água em Currais Novos.
O Dourado responde por aproximadamente 25% da água distribuída no município. O restante vem principalmente do sistema Gargalheiras.
Caso o Dourado alcance o colapso, segundo a companhia, Currais Novos passará a depender exclusivamente do Gargalheiras, que também atende Acari.
Para prolongar a utilização do manancial, a Caern instalou um sistema flutuante de captação e prepara a infraestrutura necessária para ampliar o envio de água do Gargalheiras, se isso se tornar necessário.
Essa situação antecede os possíveis efeitos mais fortes do El Niño e demonstra por que o nível dos reservatórios é tão relevante na análise da próxima estação.
Menos chuva pode atingir abastecimento e economia
Paulo Varella avalia que uma redução mais expressiva das chuvas poderá afetar diretamente o abastecimento das cidades, porque diminui a capacidade de recarga dos açudes.
Os efeitos também podem ultrapassar o consumo doméstico.
Atividades industriais e comerciais que dependem de fornecimento regular de água ficam mais expostas em situações de escassez, enquanto o setor agropecuário enfrenta consequências sobre lavouras, pastagens e criação animal.
Segundo o secretário, o impacto esperado tende a ser mais intenso no semiárido potiguar, enquanto o litoral leste deve sentir menos os efeitos relacionados à redução das precipitações.
A diferença regional é importante. O El Niño não provoca uma redução uniforme das chuvas em todo o território potiguar.
Milho, feijão e pecuária entram no radar
A Federação da Agricultura e Pecuária do Rio Grande do Norte (Faern) considera que o momento exige antecipação do planejamento rural.
Entre as medidas defendidas estão utilização mais eficiente da irrigação, adequação do calendário de plantio às informações meteorológicas e formação antecipada de reservas de alimentação para os animais.
Caso se confirme um período de chuvas abaixo da média ou mal distribuídas, a entidade aponta risco de redução da umidade do solo, perda de produtividade nas culturas de sequeiro e diminuição das pastagens.
Milho e feijão estão entre as culturas mais sensíveis porque boa parte da produção depende diretamente das chuvas.
Na pecuária, um período mais seco reduz a disponibilidade natural de alimento e pode obrigar o produtor a ampliar a compra de ração, silagem, palma e outros suplementos, aumentando os custos.
A pecuária leiteira merece atenção especial porque os animais precisam de oferta contínua de água e alimento durante todo o ano.
Mesmo a agricultura irrigada não está completamente protegida. Uma estiagem prolongada aumenta a necessidade de irrigação justamente quando a disponibilidade de água pode ficar mais pressionada.
El Niño forte não significa seca automática
A própria Faern ressalta que o cenário é de atenção e preparação, e não de alarmismo.
Essa ressalva é especialmente importante diante das projeções de um episódio muito forte.
A probabilidade superior a 90% divulgada pelo INMET refere-se à possibilidade de o El Niño alcançar determinada intensidade no Pacífico Equatorial. Ela não significa uma chance de 90% de seca no Rio Grande do Norte.
São indicadores diferentes.
O regime chuvoso potiguar também é influenciado pelas condições do Atlântico Tropical e pela atuação da Zona de Convergência Intertropical, sistema fundamental para a estação chuvosa do norte do Nordeste.
Quando a NOAA confirmou a formação do El Niño em junho, já havia indicação de fortalecimento durante o segundo semestre. As atualizações posteriores elevaram significativamente a probabilidade de um episódio excepcionalmente intenso.
O que ainda não pode ser definido com precisão é quanto choverá em cada região do Rio Grande do Norte durante a estação de 2027.
Estado aposta em obras e gestão dos reservatórios
O Governo do RN aponta uma combinação de obras estruturantes e gestão da água como estratégia para reduzir a vulnerabilidade.
Entre as medidas citadas por Paulo Varella estão a própria Barragem de Oiticica, a ampliação das redes de adutoras, o Projeto Seridó, a Adutora do Agreste e estruturas relacionadas à chegada das águas do Projeto de Integração do Rio São Francisco.
Segundo o secretário, a primeira etapa do Projeto Seridó deverá ser concluída até o fim deste ano.
Também fazem parte das ações a perfuração de poços e implantação de sistemas de dessalinização em comunidades nas quais a água subterrânea não possui condições adequadas para consumo direto.
O Igarn mantém o monitoramento dos reservatórios e a fiscalização do uso da água. Em um cenário de agravamento da estiagem, essa gestão tende a ganhar ainda mais importância para definir vazões, prioridades de uso e medidas de preservação dos estoques existentes.
A preocupação com o El Niño não termina na disponibilidade de água.
Uma redução relevante da produção agropecuária pode pressionar custos e, dependendo da dimensão das perdas, chegar aos preços pagos pelo consumidor.
Um estudo recente do Rabobank analisado em reportagem sobre o possível impacto do El Niño nos preços dos alimentos e no IPCA estimou que, em um cenário de fenômeno forte, alimentos in natura poderiam acumular alta de até 19,9% em 12 meses.
O percentual não é uma previsão de que os alimentos necessariamente subirão esse valor. Trata-se de um cenário econométrico construído a partir de episódios anteriores.
Os efeitos efetivos dependerão da localização das perdas, comportamento das safras, estoques, câmbio, custos de transporte e condições de oferta em outras regiões produtoras.
Para o Rio Grande do Norte, o principal sinal neste momento é mais imediato: vários reservatórios importantes do Seridó entram nos próximos meses com pouquíssima água justamente quando o El Niño avança para uma intensidade que a Emparn espera classificar como muito forte entre outubro e novembro.
Isso não permite decretar antecipadamente uma nova grande seca. Mas deixa menos margem para erro caso a próxima estação chuvosa seja fraca ou irregular.


