O avanço acelerado da indústria de veículos elétricos, celebrado como símbolo de inovação e sustentabilidade, passa a conviver com denúncias que colocam em xeque os bastidores dessa produção. Um relatório internacional levanta suspeitas graves sobre condições de trabalho em uma importante fábrica europeia, trazendo à tona um debate que vai além da tecnologia e alcança direitos humanos.
As acusações recaem sobre a construção da primeira unidade europeia da BYD, na cidade de Szeged, na Hungria. Segundo investigações conduzidas por uma organização independente, trabalhadores migrantes chineses teriam sido submetidos a rotinas exaustivas, com jornadas prolongadas e sem intervalos adequados, além de um ambiente marcado por medo e insegurança.

A apuração ouviu mais de 50 operários, a maioria contratada por meio de intermediários e subempreiteiras. Para preservar a segurança dos envolvidos, os relatos foram mantidos em anonimato, mas apontam um padrão consistente de abusos, incluindo semanas completas de trabalho sem descanso e turnos que poderiam ultrapassar 12 horas diárias.
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Além da carga horária excessiva, surgem denúncias de irregularidades salariais. Parte significativa dos pagamentos teria sido retida e depositada em contas na China, criando um mecanismo que dificultava a saída dos trabalhadores. Em alguns casos, abandonar o emprego antes do prazo significaria perder valores acumulados e arcar com custos de retorno.
Outro ponto sensível envolve o processo de recrutamento. Muitos operários teriam pago taxas elevadas para garantir a vaga, o que os colocava em situação de endividamento. Esse modelo, aliado à dependência financeira, contribuía para mantê-los nas obras mesmo diante de condições consideradas degradantes.
Os relatos também mencionam a orientação para que funcionários ocultassem a real jornada de trabalho durante inspeções oficiais. Havia receio de represálias, o que reforça a dificuldade de fiscalização efetiva. A falta de domínio do idioma local e o desconhecimento das leis ampliavam ainda mais a vulnerabilidade desses trabalhadores.
A estrutura de contratações, marcada por múltiplos níveis de subcontratação, aparece como um dos principais entraves para a responsabilização direta. Segundo os investigadores, essa fragmentação permite que responsabilidades sejam transferidas entre empresas, diluindo eventuais obrigações legais.
As denúncias ganham ainda mais peso por não serem um episódio isolado. Em ocasiões recentes, a empresa já esteve envolvida em questionamentos semelhantes em outros países, incluindo o Brasil, onde houve acusações de condições análogas à escravidão em obras industriais.
Até o momento, as alegações não foram verificadas de forma independente por todos os veículos que divulgaram o caso, e a empresa citada não apresentou resposta oficial. Ainda assim, o material já foi encaminhado a autoridades europeias, enquanto investigações locais seguem em andamento, ampliando a pressão por esclarecimentos.
