Resumo da Notícia
A noite que deveria ser marcada apenas pelo duelo entre Flamengo e Independiente Medellín, pela Copa Libertadores da América, acabou transformada em uma crise esportiva, política e cultural. Entre protestos, caos no estádio e uma publicação polêmica nas redes sociais, o clube carioca virou alvo de duras críticas na Colômbia e passou a enfrentar um desgaste que ultrapassou os limites do futebol.
Horas antes da partida, o Flamengo publicou uma imagem do ator Wagner Moura caracterizado como Pablo Escobar na série Narcos. Na postagem, o personagem aparecia sentado, usando uma montagem com a camisa rubro-negra, acompanhado da legenda: “E a hora não passa, Nação! Só o adm tá assim?”. O objetivo era brincar com a ansiedade antes do jogo.
A publicação, porém, provocou revolta imediata entre jornalistas e torcedores colombianos. Isso porque a imagem remetia diretamente a Pablo Escobar, narcotraficante que liderou o Cartel de Medellín e deixou marcas profundas de violência na história da Colômbia. Para muitos moradores do país, qualquer associação ao criminoso representa uma estigmatização dolorosa e desrespeitosa.
A repercussão negativa cresceu rapidamente nas redes sociais. O jornalista colombiano Samuel Vargas foi um dos mais duros nas críticas e afirmou que o Flamengo demorava para apagar ou corrigir a postagem. Segundo ele, o conteúdo contrariava até campanhas da própria Conmebol contra discriminação, violência e preconceito dentro do futebol sul-americano.
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Outros comunicadores colombianos também classificaram a atitude como “gravíssima”. Em meio às críticas, muitos afirmaram que um clube do tamanho do Flamengo deveria compreender o peso histórico da figura de Escobar para Medellín e para toda a sociedade colombiana, ainda marcada pelos traumas deixados pelo narcotráfico nos anos 80 e 90.
Parte da torcida rubro-negra tentou amenizar a situação. Muitos explicaram que a cena de Wagner Moura em “Narcos” virou um meme bastante popular no Brasil, normalmente usado apenas para representar alguém esperando por alguma coisa. Mesmo assim, a justificativa não reduziu a indignação entre os colombianos, que interpretaram o post como uma associação ofensiva ao país.
Enquanto a polêmica crescia fora de campo, o ambiente no Estádio Atanasio Girardot já dava sinais de tensão. Autoridades locais haviam recomendado que a partida fosse disputada com portões fechados, devido a protestos programados por torcedores do Independiente Medellín. Ainda assim, o clube colombiano insistiu na presença de público e conseguiu autorização para abrir os acessos.
O cenário rapidamente saiu do controle. Poucos minutos após o início da partida, protestos tomaram conta das arquibancadas, houve invasão de gramado, incêndio em parte do estádio e confusão generalizada. A arbitragem decidiu interromper o confronto por falta de segurança, enquanto jogadores, dirigentes e torcedores aguardavam uma definição sobre a continuidade da partida.
Torcedores do Flamengo que estavam no setor visitante relataram momentos de apreensão, embora afirmem que não foram diretamente atacados pelos colombianos. O rubro-negro Felipe Amorim contou que a polícia segurou os brasileiros dentro do estádio até controlar a situação do lado de fora, organizando depois uma escolta até os ônibus da delegação visitante.
Após o cancelamento do jogo, o foco passou imediatamente para os bastidores jurídicos da Conmebol. O regulamento da entidade estabelece que a responsabilidade pela segurança da partida pertence ao clube mandante. Por isso, cresce a expectativa de que o Independiente Medellín seja responsabilizado oficialmente pelos incidentes ocorridos em Medellín.
O artigo 24 do Código Disciplinar da Conmebol prevê vitória por 3 a 0 para o adversário em casos de W.O. ou impossibilidade de continuidade da partida por falhas do mandante. Nos bastidores, dirigentes do Flamengo demonstram confiança de que os três pontos serão confirmados, resultado que deixaria o clube praticamente classificado para as oitavas de final da Libertadores.
O diretor de futebol do Flamengo, José Boto, afirmou que o clube sempre quis disputar a partida, mas ressaltou que não existiam garantias mínimas de segurança para jogadores, comissão técnica e torcedores. Segundo ele, até o deslocamento da delegação ao aeroporto apresentava riscos diante do clima de instabilidade na cidade.
Ao mesmo tempo em que aguarda a decisão oficial da Conmebol, o Flamengo tenta administrar o desgaste provocado pela postagem envolvendo Pablo Escobar. A crise expôs como referências culturais tratadas de maneira banal em um país podem carregar significados profundamente sensíveis em outro, especialmente em um torneio continental acompanhado por milhões de pessoas.
O episódio deixou marcas dentro e fora de campo. De um lado, o Independiente Medellín pode sofrer punições severas pelo caos no estádio. Do outro, o Flamengo enfrenta questionamentos sobre a condução de sua comunicação digital em um momento delicado. Em uma noite marcada por violência, tensão e polêmica, o futebol acabou ficando em segundo plano.
