Resumo da Notícia
A segunda parte da 2ª temporada de Wandinha confirma que a série segue em alta forma: Jenna Ortega retorna com a protagonista em seu auge soturno; há um inventivo “troca de corpos” ao estilo Freaky Friday; Gwendoline Christie volta a brilhar; e o roteiro consegue equilibrar vários fios narrativos de interesse.
Entre eles, o mistério em stop-motion envolvendo Isaac Night (Owen Painter), as revelações sobre a verdadeira identidade de Mãozinha e o esquema ganancioso e criminoso do diretor Dort (Steve Buscemi), que empurra a mitologia da Família Addams para um desfecho ainda mais sombrio do que o da 1ª temporada.
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Ainda assim, há um ponto que destoa: a condução da trajetória de Tyler Galpin e de seu “Hyde” — incômoda, repetitiva e, do jeito que está, difícil de sustentar em uma 3ª temporada.
Por que a linha de Tyler é problemática
Desde a revelação na 1ª temporada de que Tyler é o Hyde assassino, sua presença em Jericho e em Nevermore causa desconforto. Superficialmente, ele é um “normie” simpático que esconde algo muito mais feroz; em camadas mais profundas, porém, sua condição está costurada a traumas e relações de poder abusivas. A série estabelece duas formas de um Hyde “despertar”:
- por um evento emocional traumático — como teria ocorrido com a mãe de Tyler, Françoise (Frances O’Connor), associando sua transformação a um quadro de depressão pós-parto;
- de modo quimicamente induzido, quando uma pessoa domestica e controla o Hyde, tornando-se seu “mestre”.
É nesse segundo caso que a professora Thornhill (Christina Ricci), também conhecida como Laurel Gates, se encaixa. A revelação da 1ª temporada deixa claro que, além de vilã, Thornhill transforma Tyler em vítima: uma adulta que se aproveita da vulnerabilidade de um adolescente para controlá-lo. A própria personagem, em sua passagem pelo sanatório Willow Hill na 2ª temporada, usa o termo “grooming” para se referir ao que fez — e a encenação de toques e proximidade física sugere uma dimensão potencialmente sexualizada dessa exploração. A identidade de Tyler, portanto, é armada contra ele desde a origem.
A Parte 2 piora o quadro: a “maldição” do mestre
A segunda metade da 2ª temporada adiciona um componente ainda mais duro: as transformações de Hydes levam a mortes precoces e, no caso dos Hydes masculinos, a vida sem mestre seria inviável. A ausência de controle externo empurraria o indivíduo para a insanidade, em um declínio inevitável.
Em termos dramáticos, há ironia — Tyler se orgulha de sua potência, mas dependeria eternamente de um “tutor”. Em termos humanos, é trágico: ao matar Thornhill, ele rompe um ciclo de predação, apenas para se ver condenado a outra forma de submissão.
Quando o sofrimento vira acumulação
Representações de abuso, predação e manipulação cabem em séries adultas — desde que tratadas com sensibilidade e propósito. Em Wandinha, porém, a 2ª temporada acumula dor sobre Tyler sem lhe conceder respiros/pausa. A mãe, sem pedir consentimento, assume o papel de nova mestra e recorre à agressão física quando contrariada — um baque que dilui o impacto do reencontro. Em seguida, um tio cientista ressuscitado volta a instrumentalizá-lo contra Wandinha e Nevermore, enquanto o roteiro sugere uma proximidade imprópria entre mãe e irmão que Tyler é forçado a testemunhar.
O contraste fica mais evidente porque coadjuvantes como Agnes (Evie Templeton) e Bianca (Joy Sunday) ganham arcos e introspecção, enquanto Tyler segue como pêndulo de vilão-peão e vítima sem voz. O resultado é que seu tormento parece excessivo não por iluminar o tema do abuso, mas por substituir um arco de evolução que a narrativa poderia oferecer.
O “sistema de mestres” emperra a redenção
Há elementos sugerindo que Tyler ainda tem algo de bom. A rapidez com que salva Wandinha no início da série e sua química com a protagonista na 1ª temporada apontam áreas cinzentas. Mesmo na 2ª temporada, em momentos como o enterro de Wandinha, a câmera destaca o desconforto de Tyler — pistas visuais de que não concorda com as ordens da mestra. Dado o histórico de manipulação por Thornhill, é plausível que a dor extrema funcione como detonador para que ele pense por conta própria.
O obstáculo é estrutural: a dependência narrativa de um mestre. Após a morte da mãe — sua última “controladora” — surge a professora Capri (Billie Piper), com a promessa de libertá-lo via um sistema de “alcateia” que, no fundo, reformula a mesma lógica de subserviência. Se a 3ª temporada repetir o padrão, Tyler continuará terceirizando sua autonomia, preso ao próximo adulto ruivo de moral duvidosa a oferecer “salvação”.
Se a série pretende honrar o trauma do personagem, é hora de romper com a engrenagem. Isso significa abandonar a necessidade de mestre para Hydes — ao menos no caso de Tyler — e investir na jornada difícil de reparação e cura: elaborar o abuso sofrido, reconstruir relações e, sobretudo, tomar decisões próprias. Dramaticamente, a série só ganha: o antagonista se torna um sujeito, e não apenas um objeto de vontades alheias. E Wandinha, que sempre dialogou com temas de pertencimento, diferença e autodeterminação, reforça sua vocação ao colocar um sobrevivente no centro de um arco de responsabilidade e escolha.
O que fica para a 3ª temporada
Com a 2ª temporada já completa e a mitologia ampliada, Wandinha provou que consegue elevar a escala sem perder personalidade. O passo seguinte exige coragem: encerrar a repetição de ciclos abusivos na trajetória de Tyler e abrir espaço para sua redenção crítica, sem atalho místico, sem novo “mestre”, sem muleta. Ao fazer isso, a série não suaviza a escuridão que a define; transforma essa escuridão em consequência narrativa, com impacto emocional verdadeiro.
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