“Raul Seixas: Eu Sou” – A série que traz o ‘Maluco Beleza’ à vida no Globoplay

O que ela entrega é uma narrativa viva, cheia de tensões e emoções reais, que honra a biografia complexa de um artista que nunca caberia em uma moldura.
Raul Seixas no Globoplay
Estrelada por Ravel Andrade, série sobre vida de Raul Seixas ganha vida no Globoplay — Foto: Ariela Bueno

Não é simples dramatizar a vida de alguém que já parecia viver em estado de ficção permanente. Raul Seixas sempre foi mais do que um cantor. Foi mito, metáfora, personagem de si mesmo. Por isso mesmo, a série original Raul Seixas: Eu Sou, lançada pelo Globoplay em 2025 para celebrar os 80 anos do artista, não tinha tarefa fácil. Mas ao fim dos oito episódios, o que vejo é um trabalho que consegue, com suas imperfeições e méritos, reacender Raul com humanidade e lucidez, sem cair no culto vazio nem na cronologia apressada dos telefilmes.

Confesso que cheguei ao primeiro episódio com o pé atrás. A abertura, que mistura recortes acelerados, montagem quase onírica e trechos reencenados da infância de Raul em Salvador, me deu medo de que a série se rendesse à caricatura. Mas, ao contrário: ela escolhe mergulhar. Os primeiros dois episódios são, sim, os mais difíceis. Há uma tentativa estética de experimentação que, às vezes, pesa mais do que contribui. Porém, a partir do terceiro, quando Ravel Andrade assume Raul mais adulto e o roteiro começa a conectar genialidade e desespero, tudo se transforma.

O que mais me impressionou foi o esforço evidente de não santificar o “Maluco Beleza”. A série mostra Raul como ele era: genial e contraditório, criativo e autodestrutivo, visionário e irresponsável. A parceria com Paulo Coelho — vivida com grande intensidade por João Pedro Zappa — ganha o destaque merecido. E é ali que a trama encontra sua espinha dorsal: os anos 70, a censura, a alquimia do rock com esoterismo, e o grito anárquico contra tudo que domesticava o homem comum.

Gostei especialmente de como a série retrata a fase mística de Raul sem ridicularizar. Há uma cena tocante em que ele tenta explicar a um produtor de gravadora que “a sociedade alternativa” não era apenas uma provocação, mas uma necessidade quase espiritual. É nesses momentos que o roteiro encontra força: quando deixa a música como pano de fundo e joga luz na inquietação do homem Raulzito.

Outro ponto alto é a reconstrução visual. A ambientação dos anos 70 e 80 é cuidadosa, do figurino à textura das imagens. A trilha sonora, então, é um capítulo à parte. Feita com regravações de músicos que tocaram com Raul, dá nova vida às canções sem traí-las. “Ouro de Tolo”, “Metamorfose Ambulante”, “Maluco Beleza”, “Tente Outra Vez”… todas aparecem como peças dramáticas, não como clipes.

Claro, há deslizes. Alguns episódios soam inchados, algumas interpretações secundárias ficam aquém, e há trechos em que o tom de alucinação parece exagerar na dose. Mas nada disso compromete a força do conjunto. A série não se propõe a ser um documentário — e nem deveria. O que ela entrega é uma narrativa viva, cheia de tensões e emoções reais, que honra a biografia complexa de um artista que nunca caberia em uma moldura.

Saí do último episódio com um nó na garganta e a certeza de que, se estivesse vivo, Raul provavelmente acharia tudo isso uma grande viagem. Talvez dissesse que colocaram palavras demais na boca dele. Ou talvez sorrisse, com aquele jeito de profeta debochado, e respondesse: “mas eu sou isso mesmo”.

A série “Raul Seixas: Eu Sou” não pretende resolver o enigma. Mas consegue algo ainda mais raro: nos faz sentir saudade de alguém que, mesmo ausente, nunca foi embora de verdade.

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