Resumo da Notícia
Quase três anos depois do encerramento de Peaky Blinders, a história de Tommy Shelby, vivido por Cillian Murphy, volta a ganhar força com a chegada de Peaky Blinders: O Homem Imortal. E, para entender o peso desse retorno, não basta lembrar apenas que o personagem sobreviveu.
O ponto central é outro: quando a série terminou, Tommy já não era apenas um chefe de gangue tentando preservar poder em Birmingham — ele era um homem cercado por luto, manipulações políticas, inimigos internacionais e pela falsa certeza de que estava à beira da morte.
Esse é justamente o estado em que a narrativa deixa a família Shelby antes do novo filme. O império ainda existe, mas carrega rachaduras profundas. O nome Shelby continua temido, só que o custo dessa ascensão foi devastador. Ao longo de seis temporadas, Tommy ampliou seus negócios, saiu do submundo local e passou a negociar com gente influente, extremistas, políticos e empresários poderosos. Só que, ao fazer isso, ele foi destruindo aos poucos tudo aquilo que dizia querer proteger.
Antes da estreia de Peaky Blinders: O Homem Imortal – no dia 20 de março na Netflix, vale recapitular onde a trama realmente parou.
O fracasso contra Oswald Mosley foi o estopim da derrocada
O último grande movimento da família Shelby na reta final da série nasceu do plano para matar Oswald Mosley, interpretado por Sam Claflin. A operação fracassa, e esse erro muda completamente o rumo da história. O que parecia ser apenas mais um golpe mal calculado se transforma numa devastação emocional e estratégica.
Tommy leva o fracasso para um nível pessoal extremo. Ele quase tira a própria vida, e só não vai adiante porque Lizzie Shelby, interpretada por Natasha O’Keeffe, tira as balas da arma. Esse detalhe é importante porque já mostra o estado mental do personagem naquele momento: Tommy deixa de agir apenas como estrategista e passa a se mover também como alguém esmagado pelo peso das próprias escolhas.
Depois, ele descobre que a emboscada contra os Shelby não tinha sido ordenada por Mosley. O ataque, na verdade, foi executado por brigadas do IRA. O resultado foi brutal. Aberama Gold, interpretado por Aidan Gillen, é morto, e Polly Shelby, interpretada por Helen McCrory, também morre, com a série sugerindo essa perda fora de cena. A morte de Polly não desestrutura apenas a família. Ela abre uma ferida irreparável em Michael Gray, interpretado por Finn Cole, que já vinha alimentando ressentimento contra Tommy e transforma a dor em promessa de vingança.
Tommy usa o fim da Lei Seca para reposicionar seus negócios
A série dá um salto temporal de quatro anos e leva Tommy para a Ilha de Miquelon, território francês próximo de Terra Nova, que tinha importância estratégica no contrabando de álcool durante a Lei Seca nos Estados Unidos. A data é 5 de dezembro de 1933, justamente quando a proibição do álcool chega ao fim à meia-noite.
É aí que aparece uma das jogadas mais calculadas de Tommy na temporada. Com o fim da Lei Seca, ele enxerga a oportunidade de usar a mesma estrutura de contrabando já estabelecida na ilha para um novo comércio: o ópio importado de Xangai. Durante uma reunião em Miquelon, ele convida Michael para integrar o negócio e entrega a ele uma bolsa com ópio. Só que aquilo já fazia parte de outro plano.
Sem que Michael soubesse, Tommy informa as autoridades de Boston de que ele está carregando drogas, incriminando o próprio primo e garantindo sua prisão. É um movimento frio, calculado e revelador. Mais uma vez, Tommy trata a família como peça de tabuleiro, e não como limite moral.
A doença de Ruby leva Tommy a um território entre superstição e desespero

De volta a Londres, Tommy se divide entre negócios e problemas familiares. Só que a situação doméstica logo se torna mais urgente. Sua filha, Ruby, começa a apresentar um quadro preocupante: febre alta, vozes, visões e a menção recorrente a um “homem cinza”. A série constrói esse arco de forma importante porque mistura medicina, medo ancestral e o trauma íntimo dos Shelby.
Mesmo com tratamentos modernos e remédios tradicionais, Ruby não melhora de forma definitiva. O quadro piora, ela passa a tossir sangue, e as alucinações ficam mais severas. Depois, os médicos identificam tuberculose no pulmão esquerdo. Embora a doença tenha sido detectada cedo, o tratamento é duro, e as chances de recuperação são pequenas.
Tommy, no entanto, se recusa a aceitar uma explicação apenas clínica. Convencido de que existe uma maldição em torno da família, ele procura Esme Lee, interpretada por Aimee-Ffion Edwards, viúva de John Shelby, personagem de Joe Cole. Esme diz a Tommy que há muitas pessoas desejando o mal dele e o leva a uma sepultura ligada à safira amaldiçoada que ele havia dado a Grace Burgess, interpretada por Annabelle Wallis, sua primeira esposa, ainda na terceira temporada. Embora a joia já não estivesse mais com ele, a maldição, segundo essa crença, continuaria ativa.
Esme aponta que o feitiço teria sido lançado por Evadne Barwell, interpretada por Gwynne McElveen. Desesperado, Tommy tenta barganhar com aquilo que acredita controlar: oferece dinheiro, ouro e até um monumento em troca da vida da filha. Não adianta. Ruby morre de tuberculose, deixando Tommy, Lizzie e Charles devastados.
Enquanto Tommy afunda no luto, Ada segura a estrutura da família
Durante a ausência e o colapso emocional de Tommy, quem assume o comando prático da operação é Ada Thorne, interpretada por Sophie Rundle. E esse detalhe é decisivo para entender a fase final da série. Ada é mostrada como uma Shelby mais equilibrada, moralmente mais lúcida e menos impulsiva.
Ela entra em choque com Lady Diana Mitford, interpretada por Amber Anderson, e com Oswald Mosley, interpretado por Sam Claflin, mas consegue assegurar um convite para uma futura reunião dos Shelby com esse núcleo político e ideológico. Ao mesmo tempo, Ada também envia Isiah Jesus, interpretado por Daryl McCormack, e Arthur para Liverpool para lidar com Hayden Stagg, interpretado por Stephen Graham, acusado de roubar ópio nas docas.
Nesse ponto, Arthur Shelby, interpretado por Paul Anderson, já aparece profundamente fragilizado por sua dependência. Em vez de matar Stagg, como talvez fizesse em outro momento, ele recua ao ser confrontado sobre seu vício. É uma cena importante porque mostra que a fragilidade de Arthur já não é apenas pessoal. Ela virou problema operacional para toda a organização.
Jack Nelson amplia o alcance político e internacional da ameaça
Em paralelo à tragédia familiar, Tommy tenta consolidar relações com Jack Nelson, interpretado por James Frecheville, influente empresário de Boston e tio de Gina Gray, interpretada por Anya Taylor-Joy, esposa de Michael. Nelson aparece como uma figura poderosa, próxima do presidente dos Estados Unidos, mas alinhada secretamente ao fascismo.
Tommy usa sua posição no Parlamento como moeda de troca. Ele oferece acesso político e articula aproximações entre Nelson, Mosley e Lady Diana Mitford. Ao mesmo tempo, propõe a Nelson um acordo para abrir Boston ao seu comércio de ópio. Se a proposta fosse recusada, Tommy ameaça se aliar à família Solomon da comunidade judaica do leste de Boston, arriscando provocar uma guerra entre grupos rivais.
Essa parte da trama é decisiva porque mostra que Peaky Blinders já não está falando apenas de gangues de rua. A história, naquele ponto, opera entre crime internacional, influência parlamentar e avanço de ideologias autoritárias.
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Tommy acredita que vai morrer e começa a preparar sua sucessão

Depois da morte de Ruby, Tommy se torna ainda mais violento. Convencido de que Evadne Barwell, interpretada por Gwynne McElveen, teve responsabilidade na morte da filha por causa da maldição, ele vai ao acampamento da família Barwell e os mata. Antes de partir, Esme ainda revela outra verdade que altera a estrutura familiar: Tommy tem um filho ilegítimo.
Esse filho vive no acampamento sob o nome de Duke, interpretado por Conrad Khan. Mesmo devastado, Tommy o incorpora ao universo da Shelby Ltd., já pensando em transformá-lo em sucessor. Só que a família não sabe de tudo o que está acontecendo. O motivo dessa urgência fica claro pouco depois.
Tommy recebe de Dr. Holford, interpretado por Aneurin Barnard, um diagnóstico devastador: tuberculoma, supostamente provocado por sua exposição à doença de Ruby. O médico explica que isso justificaria as alucinações e convulsões que ele vinha sofrendo. O veredito é cruel: 18 meses de vida.
A notícia reorganiza todas as prioridades de Tommy. Ele passa a agir como alguém que precisa arrumar a casa antes do fim.
O casamento com Lizzie implode de vez

Com a ideia da morte cada vez mais presente, Tommy tenta garantir futuro financeiro e operacional para os Shelby. Ele intervém em Chinatown, intimida traficantes com uma bomba e depois a detona do lado de fora da loja. Recoloca Hayden Stagg no comando de carregamentos vindos de Boston e sugere transferir rotas de abastecimento para Liverpool. Também procura Linda, interpretada por Kate Phillips, ex-mulher de Arthur, e oferece 10 mil libras para a fundação dela, desde que ajude Arthur a buscar redenção.
Mas no campo íntimo a situação é irreversível. Tommy tenta se reaproximar de Lizzie, só que o casamento já está esvaziado pelo luto, pela frieza e pelas humilhações. A ruptura definitiva vem quando, numa reunião com Nelson, Mosley e Lady Diana Mitford, fica exposto que Tommy teve relações com Diana antes de conseguir influência para um projeto habitacional.
Lizzie se sente humilhada e devastada. Depois, quando Lady Diana Mitford, interpretada por Amber Anderson, expõe o caso, Lizzie confronta Tommy e encerra o casamento. Ela vai embora com Charlie, que admite que Tommy nunca foi realmente presente como pai. É o colapso completo da vida doméstica de Tommy Shelby.
A rede de traições se fecha, mas Tommy descobre a verdade no fim

Enquanto isso, Michael sai oficialmente da prisão com um único objetivo: matar Tommy. Ele e Gina planejam o assassinato do líder dos Shelby e também a morte de Arthur. Do outro lado, Arthur finalmente descobre a suposta condição terminal do irmão e o ajuda até mesmo com preparativos para o funeral.
Na reta final, Tommy também rompe publicamente com Mosley no Parlamento, recusando um convite para seu casamento. É um gesto político importante porque mostra que, mesmo cercado, ele ainda tenta definir sozinho a linha final de confronto.
Em Miquelon, Michael arma uma emboscada com bomba acreditando que Tommy morrerá na explosão. Mas Tommy troca de carro, sobrevive e responde com brutalidade direta: atira na cabeça de Michael e o mata. Em Londres, Duke assume o controle dos Peaky Blinders, executa Billy Grade, interpretado por Emmett J. Scanlan, que era informante, e corta Finn Shelby, interpretado por Harry Kirton, da família. Para vingar Polly, Arthur mata McKee.
Depois de um último jantar de despedida com a família, Tommy segue para o campo, vivendo isolado. Ele está pronto para encerrar a própria vida. Só que, no instante final, descobre a revelação que redefine tudo: sua doença era uma farsa. Dr. Holford estava ligado a Mosley, e o diagnóstico havia sido fabricado. Na confrontação final, Tommy não mata o médico. Quando o relógio marca a décima primeira hora, ele abaixa a arma. Para ele, aquele gesto significa o rompimento definitivo da maldição sobre os Shelby.
É assim que Peaky Blinders termina: com Tommy vivo, fora do mapa, depois de escapar da morte, da mentira e do próprio impulso de se destruir. É desse ponto que parte Peaky Blinders: O Homem Imortal.
Por que esse final importa tanto para o novo filme
O ponto mais importante antes do novo capítulo é simples: Tommy Shelby não retorna apenas como sobrevivente, mas como alguém que viu seu império ser corroído por dentro, perdeu a filha, perdeu o casamento, matou o próprio primo, descobriu um filho fora da estrutura tradicional da família e foi empurrado a acreditar numa sentença de morte falsa.
Isso faz de Peaky Blinders: O Homem Imortal mais do que uma continuação. O filme nasce sobre ruínas emocionais, políticas e familiares que a série construiu com cuidado. E, se Tommy Shelby voltar a agir, ele já não estará voltando como o homem que dominava Birmingham. Estará voltando como alguém que enfrentou a própria aniquilação e saiu vivo do outro lado.