Resumo da Notícia
A Netflix voltou a provar a força do true crime ao ver uma de suas produções mais criticadas dos últimos anos atingir números impressionantes de audiência. “Monstro: A história de Ed Gein”, mesmo acumulando reprovação da crítica especializada, alcançou 415 milhões de horas assistidas, um dado que, por si só, ajuda a explicar por que o gênero segue tão central na estratégia da plataforma — e também por que ele exige cada vez mais responsabilidade editorial.
Produções sobre crimes reais seguem atraindo milhões de espectadores, especialmente na América do Norte, onde quase metade das contas nos Estados Unidos e mais de 60% no Canadá consumiram títulos do gênero em 2024. O problema não está no interesse do público, mas na forma como essas histórias são contadas — e é justamente aí que a série passa a ser alvo de críticas mais profundas.
Do ponto de vista técnico, A história de Ed Gein não é uma produção frágil. Pelo contrário. Parte da crítica reconhece o alto nível do elenco e o cuidado com a ambientação, elementos que ajudam a sustentar o interesse do público ao longo dos episódios. O problema não está na execução, mas na decisão editorial de transformar o criminoso em objeto de empatia.
Na série, Ed Gein, interpretado por Charlie Hunnam, é apresentado como um homem tímido, quase ingênuo, moldado por circunstâncias externas. A narrativa insiste em justificar seus crimes como resultado direto de doença mental, da relação abusiva com a mãe Augusta Gein, vivida por Laurie Metcalf, e de uma suposta relação amorosa com Adeline Watkins, personagem interpretada por Suzanna Son.
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O efeito prático disso é claro: o espectador é conduzido a sentir compaixão por um assassino em série, enquanto as vítimas permanecem à margem da narrativa.
Liberdades históricas que distorcem os fatos
A opção por humanizar Gein não se limita à interpretação. A série assume liberdades graves com fatos históricos, comprometendo a fidelidade dos acontecimentos reais. O caso mais emblemático envolve Adeline Watkins, pessoa real que, segundo registros históricos, não manteve relação íntima com Gein e sequer teve envolvimento profundo com sua vida. A própria Watkins já negou qualquer romance ou cumplicidade com o criminoso, algo que a série ignora deliberadamente.
Outro ponto ainda mais problemático é a fabricação de um arco de “redenção”, ao sugerir que Gein teria colaborado com o FBI na captura de Ted Bundy — algo que nunca aconteceu. Essa escolha narrativa não apenas falseia a história como reforça a ideia de que o assassino não seria totalmente responsável por seus atos, diluindo a gravidade de seus crimes.
Quando o sucesso vira um problema social
É justamente aqui que o enorme alcance da série se torna preocupante. Não se trata apenas de uma obra ficcional mal recebida, mas de um produto cultural que influencia a percepção coletiva sobre violência real. Ao justificar os atos de Gein e relegar suas vítimas a um papel secundário, a série contribui para um fenômeno já recorrente: a romantização de assassinos em série.
A curiosidade humana sobre o mal existe, é inegável. O problema surge quando essa curiosidade é explorada sem compromisso com a verdade, priorizando impacto emocional em detrimento da responsabilidade histórica. Em um cenário em que a checagem de fatos se torna cada vez mais rara e a narrativa audiovisual ganha status de “verdade” para muitos espectadores, os danos se multiplicam.
O fato de milhões de pessoas terem consumido uma versão distorcida da história de Ed Gein levanta uma pergunta incômoda: até que ponto o entretenimento pode reescrever crimes reais sem prestar contas às vítimas e à sociedade?
