Resumo da Notícia
How I Met Your Mother ainda funciona muito bem quando acerta no humor, na amizade do grupo e naquela sensação de juventude adulta em Nova York, com gente tentando entender amor, carreira, casamento e futuro ao mesmo tempo. Mas rever a 1ª temporada hoje, mais de duas décadas depois da estreia do piloto em setembro de 2005, também deixa algumas coisas bem mais difíceis de engolir.
A série continua carismática. Ted Mosby, vivido por Josh Radnor, ainda tem um grupo de amigos com ótima dinâmica, e a ideia de acompanhar a história até ele encontrar a mãe dos filhos segue sendo um ponto de partida forte. O problema é que, sabendo como tudo termina, algumas escolhas da primeira temporada ficam mais incômodas. Certas piadas envelheceram mal, algumas relações parecem menos românticas do que a série queria vender e certos arcos soam apressados demais.
Ao rever How I Met Your Mother, não consigo mais olhar para a 1ª temporada só com nostalgia. Ela tem grandes momentos, mas também carrega sinais claros de uma sitcom dos anos 2000 que nem sempre tratava seus personagens, principalmente as mulheres, com a complexidade que eles mereciam.
1. A busca de Ted pelo amor parece mais insistente do que romântica

A premissa de How I Met Your Mother é mostrar como Ted conheceu a mãe dos filhos. Isso, por si só, é uma ideia ótima. O problema é que, na 1ª temporada, a busca dele pelo amor às vezes parece menos romântica e mais obsessiva.
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Ted não apenas quer encontrar alguém. Ele parece odiar a própria solteirice. Em vários momentos, age como se conseguir um encontro fosse uma missão que ele precisa vencer a qualquer custo. Isso pesa na forma como ele se aproxima das mulheres e, principalmente, de Robin.
Algumas atitudes deixam essa impressão mais forte. Ele consulta informações privadas em uma agência de encontros, vai atrás de uma ex-namorada e organiza várias festas esperando que Robin apareça. A série tenta vender parte disso como insistência apaixonada, mas revendo hoje, o comportamento soa controlador e desconfortável.
A mensagem de que o amor pode aparecer quando menos se espera ainda é bonita. Mas teria funcionado melhor se Ted vivesse essa busca com mais leveza. Na 1ª temporada, ele muitas vezes parece mais interessado em alcançar a ideia de “a mulher certa” do que em conhecer alguém de verdade.
2. A saída de Lily para São Francisco é forte, mas abrupta demais

Marshall Eriksen, vivido por Jason Segel, e Lily Aldrin, interpretada por Alyson Hannigan, formam uma das melhores partes de How I Met Your Mother. Eles têm intimidade, piadas internas, afeto e uma cumplicidade que torna o casal muito fácil de acompanhar.
Por isso, a decisão de Lily de ir para São Francisco no final da 1ª temporada continua sendo um choque. Eu entendo o conflito dela. Lily está assustada com o casamento, quer perseguir seus sonhos artísticos e precisa descobrir quem é fora da relação. Isso é legítimo. O que incomoda é a forma como a série conduz essa escolha.
A personagem envia a inscrição sem ter uma conversa honesta com Marshall até ser tarde demais. Para um casal que fala sobre tantas coisas, inclusive pequenos constrangimentos da convivência, essa falta de diálogo parece estranha. A ruptura machuca, mas não porque seja uma virada perfeitamente construída. Machuca porque soa apressada.
A série poderia chegar ao mesmo impacto de outra maneira. Lily poderia ter contado a Marshall que queria aceitar a bolsa, os dois poderiam adiar o casamento e a tensão ainda existiria. O problema não é ela querer ir. O problema é a forma como a decisão aparece quase como uma quebra brusca da confiança construída entre os dois.
3. Barney é engraçado, mas a série força simpatia demais por ele

Barney Stinson, vivido por Neil Patrick Harris, é um personagem importante para o ritmo cômico de How I Met Your Mother. Ele tem energia, frases marcantes e presença. Mas rever a 1ª temporada deixa mais evidente como a série pede que a gente goste dele mesmo quando suas atitudes são difíceis de defender.
Barney é apresentado como amigo divertido de Ted, mas sua forma de tratar mulheres é péssima, especialmente no começo da série. Ele enxerga sexo como conquista, trata mulheres como objetos e transforma manipulação em piada recorrente. Isso já era problemático na época e fica ainda mais duro de assistir hoje.
O incômodo aumenta quando a própria série, em temporadas posteriores, solta uma fala como aquela em que Barney brinca dizendo ter quase certeza de que vendeu uma mulher. Não há como tratar isso apenas como humor exagerado. A piada encosta em algo grave demais para ser jogado como comentário descartável.
Barney poderia ter sido um solteiro mulherengo, imaturo e engraçado sem ultrapassar certas linhas. Ao lado de Robin, Marshall e Lily, fica ainda mais evidente como ele destoa do grupo em muitos momentos. A série até tenta amadurecê-lo depois, mas a 1ª temporada ainda insiste demais em transformar atitudes ruins em charme.
4. As piadas com sexo e mulheres envelheceram muito mal

Para uma sitcom sobre namoro, encontros e vida adulta, How I Met Your Mother tem na 1ª temporada uma relação agressiva demais com sexo, intimidade e julgamento moral. Barney é o exemplo mais evidente, mas Ted também participa de piadas que hoje soam bem ruins.
A trama envolvendo Mary, tratada a partir de piadas com profissionais do sexo, é um dos exemplos mais desconfortáveis. A série usa estigma como humor sem oferecer qualquer nuance ou respeito ao tema. Se não havia intenção de tratar isso com cuidado, era melhor nem ter colocado essa história na temporada.
Outro caso é a personagem Naomi, lembrada pelo apelido ligado à fantasia de abóbora usada no Halloween. A piada se apoia em uma forma de chamar a mulher que reduz a personagem a um rótulo sexualizado. O apelido ainda volta anos depois, na 8ª temporada, o que reforça como a série insistiu em algo que já era fraco.
Hoje, esse tipo de humor pesa. Não é questão de apagar a série, mas de reconhecer que parte da comédia envelheceu mal. How I Met Your Mother tinha inteligência suficiente para fazer piadas melhores sobre encontros, desejo e frustração romântica sem depender desse tipo de recurso.
5. O final da série enfraquece a força do piloto

O piloto de How I Met Your Mother é muito eficiente. Ele apresenta Ted, Marshall, Lily, Barney e Robin, estabelece o grupo, cria curiosidade sobre a futura mãe dos filhos de Ted e faz o público comprar a promessa central: vamos acompanhar uma grande história de amor até chegar a Tracy McConnell, vivida por Cristin Milioti.
O problema é que rever esse começo sabendo o final muda tudo. A morte de Tracy continua sendo uma escolha difícil de aceitar, principalmente porque a série passa anos construindo a expectativa em torno dela. Quando finalmente conhecemos a mãe, o tempo com a personagem parece pequeno demais para justificar a despedida trágica.
Mesmo para quem aceita Ted e Robin no encerramento, a execução é controversa. A série dedica uma temporada inteira ao casamento de Robin e Barney, separa os dois rapidamente e recoloca Ted no caminho de Robin depois da morte de Tracy. Isso faz o piloto parecer parte de uma promessa que a série não cumpriu plenamente.
A primeira temporada ainda tem aquele encanto de começo, mas o final lança uma sombra sobre ela. A pergunta deixa de ser apenas “como Ted conheceu a esposa?” e passa a ser “por que a série investiu tanto nessa promessa para resolver tudo desse jeito?”.
6. O uso de “lendário” por Barney fica cansativo

Eu sei que “lendário” é uma das marcas de Barney. A frase virou parte da identidade do personagem e atravessa as nove temporadas. Mas, ao rever a 1ª temporada, fica claro como a repetição aparece cedo demais e cansa rápido.
Em um dos primeiros episódios, quando Barney tenta emplacar a piada dividindo a palavra em uma construção longa, o efeito já parece forçado. Ted não demonstra grande entusiasmo, e essa reação acaba representando bem a sensação de quem revê a cena hoje.
A comparação com outras frases famosas de sitcoms ajuda a entender o problema. Em Friends, Joey Tribbiani, vivido por Matt LeBlanc, tem um bordão simples, direto e carismático. Com Barney, a repetição de “lendário” muitas vezes parece menos espontânea e mais uma tentativa insistente de transformar o personagem em ícone.
How I Met Your Mother tem diálogos muito bons, especialmente entre Lily e Marshall ou quando Marshall fala de inseguranças profissionais. Por isso, a insistência em um bordão tão repetido fica ainda mais evidente. Barney não precisava dizer “lendário” tantas vezes para ser lembrado.
7. Robin começa menor do que realmente é

Robin Scherbatsky, interpretada por Cobie Smulders, é uma das personagens mais interessantes de How I Met Your Mother. Ela é ambiciosa, inteligente, direta, sabe que não quer ter filhos e não tem certeza se deseja casar. Havia ali uma personagem com muito potencial para discutir escolhas pessoais sem transformar tudo em piada.
Mas a 1ª temporada nem sempre trata Robin com essa complexidade. Em vez de valorizar sua independência e sua carreira como repórter, a série muitas vezes a coloca em situações construídas para destacar como ela é “diferente das outras mulheres” ou como alguém que busca aprovação dentro do grupo.
O trabalho dela também vira alvo de piada cedo demais. Quando Barney a desafia a fazer comentários estranhos durante uma transmissão, a série até cria uma cena engraçada, mas também reforça um padrão: Robin poderia ter sido levada mais a sério profissionalmente desde o início.
O incômodo é que a personagem tinha material para ser muito maior. Robin não precisava ser reduzida à mulher bonita, competitiva ou “descolada” do grupo. Ela já era forte o suficiente como alguém que sabia o que queria — e também o que não queria.
8. O começo da amizade de Robin e Lily é decepcionante

A amizade entre Robin e Lily se torna importante ao longo da série, mas o começo dessa relação é mais fraco do que deveria. Quando as duas saem juntas para um bar, a dinâmica se apoia demais na inveja de Lily porque os homens se interessam por Robin e a acham atraente.
Esse caminho é pobre. A série poderia ter usado esse primeiro contato para mostrar duas mulheres adultas se descobrindo como amigas, percebendo diferenças, afinidades e formas de apoio. Em vez disso, o foco fica na aparência e na competição feminina.
É uma pena porque Robin e Lily tinham tudo para render uma amizade divertida, madura e acolhedora desde o início. A ideia de fazer amizade na vida adulta é ótima para uma sitcom sobre crescimento pessoal. Conhecer alguém novo, criar vínculo e encontrar uma parceira de confidências poderia ter sido uma trama mais doce e mais engraçada.
O que fica é uma cena estranha, que envelheceu mal. A série melhora essa relação depois, mas a primeira impressão poderia ter sido muito melhor.
How I Met Your Mother ainda funciona, mas a 1ª temporada mostra sua idade
Rever a 1ª temporada de How I Met Your Mother não destrói a série. Ela ainda tem humor, carisma e um grupo central que sustenta boa parte do encanto. O problema é que alguns elementos dos anos 2000 aparecem com força demais: insistência masculina confundida com romance, piadas sexistas, bordões repetidos, julgamentos sobre mulheres e decisões dramáticas apressadas.
O que mais chama atenção é o contraste. Quando a série fala de amizade, medo do futuro, insegurança no trabalho e desejo de pertencimento, ela continua funcionando. Quando tenta fazer humor às custas de mulheres, sexo ou comportamentos invasivos, envelhece muito mal.
Ainda gosto de How I Met Your Mother, mas não da mesma forma. Rever a 1ª temporada hoje exige reconhecer que a série tinha coração, mas também tinha vícios claros de sua época. E talvez seja justamente isso que torne a revisão interessante: perceber o que continua vivo e o que ficou preso em 2005.
