Resumo da Notícia
O quinto episódio da terceira temporada de A Casa do Dragão, produção original exibida pela HBO, trouxe à tona uma série de debates calorosos entre os leitores da obra de George R.R. Martin. Para analistas especializados no universo de Westeros, o capítulo seguiu uma estrutura semelhante à de preenchimentos observados no ano anterior: episódios que funcionam com ritmo reduzido e pouca progressão na trama central da Dança dos Dragões.
Em uma temporada enxuta de apenas oito episódios, a opção por fragmentar a narrativa resultou em furos de roteiro e alterações profundas no cânone estabelecido pelo livro Fogo e Sangue.
Embora o episódio tenha sido agraciado por detalhes visuais curiosos, como a presença constante de gatos circulando livremente pelos aposentos da Fortaleza Vermelha, o avanço geopolítico da guerra civil estagnou. As frentes de Porto Real, das Terras Fluviais e de Harrenhal expuseram conveniências de roteiro que modificam drasticamente o destino e as motivações de figuras centrais.
O massacre dos Capas Douradas e a execução de Luthor Largent
A alteração mais severa e imediata sofrida pela narrativa ocorreu nos limites urbanos de Porto Real. No encerramento do episódio, a Patrulha da Cidade sofreu um ataque devastador em plena luz do dia. Os comandantes da guarda, leais a Daemon Targaryen, foram chacinados.
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A principal baixa foi Sor Luthor Largent, o comandante dos Capas Douradas, cujo corpo foi arranjado de forma macabra em torno de uma mesa com seus subordinados, simulando um banquete sob uma mensagem pintada com sangue: “Um banquete para traidores”.
Essa execução quebra diretamente o registro histórico de Fogo e Sangue. Na obra literária, Sor Luthor Largent não morre por causa de uma infiltração secreta nesta fase da guerra. Seu fim ocorre muito mais tarde, assassinado brutalmente pela própria população civil furiosa durante as revoltas populares que assolam a capital após a sangrenta Batalha de Tumbleton.
Na adaptação para a TV, os assassinatos foram arquitetados por ordens diretas de Ormund Hightower, enviado a partir de Tumbleton. A construção gerou estranheza pela falta de verossimilhança, já que Ormund jamais esteve em Porto Real e teoricamente não possuiria acesso a espiões locais tão eficientes quanto as redes consolidadas de Mysaria e Larys Strong. A perda fragiliza o conselho de Rhaenyra Targaryen, que lida com um tesouro vazio e com a insatisfação dos próprios guardas, que seguiam atuando com salários atrasados.
Ironicamente, a própria figura de Ormund Hightower apresentou uma contradição de comportamento apontada pelos fãs. Conhecido por sua postura preconceituosa contra mulheres e pela defesa ferrenha da supremacia da cultura dos Ândalos no Reino da Campina, o líder militar passou minutos da exibição exaltando a figura histórica da Princesa Meria Martell, a lendária “Sapo Amarelo” de Dorne, responsável por derrotar os dragões de Aegon, o Conquistador.
Distorções de tempo e espaço nas Terras Fluviais
O deslocamento de tropas nas Terras Fluviais também foi alvo de críticas pela perda total de senso de tempo e espaço. As hostes dos Senhores dos Rios e os Lobos de Inverno marcham na região desde o encerramento da segunda temporada sem alcançar um destino lógico. O roteiro tenta justificar a lentidão afirmando que o Lorde Comandante Criston Cole e seus homens realizam ataques de guerrilha, queimando passagens e sabotando acampamentos desde o episódio anterior.
Contudo, nas páginas de Fogo e Sangue, a situação é o oposto exato: são os guerreiros nativos das Terras Fluviais que utilizam o conhecimento geográfico de seu solo para encurralar, atrasar e destruir a guarnição muito maior liderada por Cole.
Ao término da investida dos homens dos rios, que armaram uma armadilha eliminando os cavalos da equação, Cole recusa o pedido de Sor Gwayne Hightower para abandonar a investida e se juntar ao exército principal em Tumbleton. Em tom de cruzada suicida, desaprovado por seus próprios comandantes, Cole afirma que deseja tombar em combate como um homem livre, exclamando que “cantarão canções sobre isso”.
O momento serve como um forte sinalizador (foreshadowing) do seu destino nos livros, onde ele recebe uma resposta implacável antes de morrer sem honras: “Não haverá canções sobre o quão bravamente você morreu, Fazedor de Reis. Há dezenas de milhares de mortos por sua causa“.
Paralelamente, Lady Sabitha Frey comparece pessoalmente perante o conselho de Rhaenyra em Porto Real para protestar. Ela exige a posse de Harrenhal, prometida em troca da passagem dos Lobos do Inverno pelas Gêmeas, mas revogada pela Rainha, que ofereceu o castelo amaldiçoado a quem eliminar Aemond Targaryen. A presença de Sabitha no conselho da capital é inédita.
No livro, ela toma Harrenhal à força após a saída de Cole, sobrevive aos ataques de fogo de Vhagar e atua ativamente nos campos de batalha, chegando a dividir sua tenda militar com Lady Alysanne Blackwood. O roteiro parece usar a mudança para pavimentar a entrada futura de Sabitha e de Ser Torrhen Manderly no conselho de regentes.
Inconsistências na Fortaleza Vermelha e em Pouso de Gralhas
Nos aposentos da corte, a Rainha Alicent Hightower surge implorando para que sua filha, Helaena Targaryen, tome o chamado “chá da lua” para interromper sua gravidez. A cena carrega uma ironia dramática para os leitores, visto que o príncipe Maelor Targaryen, o filho caçula de Helaena, já deveria estar nascido e vivo neste ponto da cronologia.
Adicionalmente, Helaena protagoniza um instante tenso ao lamentar seu aprisionamento e postar-se de forma perigosa à beira da janela para observar a lua, um sinalizador claro de seu suicídio futuro nos livros, embora os motivos na série caminhem para rumos distintos.
Alicent falha em duas tentativas de fuga e confronta Mysaria. O diálogo, contudo, expõe furos de roteiro notáveis: não há justificativa clara de como Rhaenyra saberia do envolvimento íntimo entre Alicent e Criston Cole, nem como Alicent saberia do período em que Mysaria esteve aprisionada em Pedra do Dragão ou do romance dela com a rainha. A troca de falas foi criticada por soar artificial e dependente de rivalidades infundadas.

Em Harrenhal, Alys Rivers consolida seu papel como a nova Castelã de Harrenhal após a saída de Ser Simon Strong. Diferente dos livros, onde atua puramente como amante de Aemond Targaryen, a série mostra Alys controlando o príncipe ao assumir um papel de figura materna, explorando seus traumas de rejeição. Aemond surge consumido pelo remorso de suas ações contra Aegon II Targaryen, repetindo o padrão de culpa que sentiu após matar Lucerys Velaryon.
Enquanto isso, Aegon II, debilitado, lamenta sua sorte em um monólogo melancólico, sendo repreendido por Larys Strong para que desista de fugir sozinho. A maior conveniência do episódio ocorre quando Tyland Lannister surge repentinamente nos arredores de Pouso de Gralhas para oferecer fuga ao rei. No episódio de estreia da temporada, Tyland havia sido jogado ao mar pela Almirante Sharako Lohar na passagem da Goela, em águas próximas a Pedra do Dragão e Derivamarca. Sua sobrevivência ao afogamento e sua viagem inexplicável até Pouso de Gralhas, com o conhecimento exato do paradeiro secreto do rei deposto, configura um recurso de deus ex machina inexistente na obra de Martin.
Por fim, o enredo deu espaço para Lady Baela Targaryen em diálogos com Addam de Driftmark. O jovem bastardo demonstra preocupação com a exaustão física de Baela, que tenta provar seu valor para Rhaenyra. Addam chega a prometer que, caso ela seja forçada a um casamento político indesejado, ambos fugirão montados em seus dragões — com Addam agora montando Asa de Prata.
A aproximação romântica ocorre logo após a morte recente de Jacaerys Velaryon, divergindo integralmente de Fogo e Sangue. Na literatura, para escapar de um casamento forçado com o idoso Lorde Rowan, Baela foge para Derivamarca e casa-se com Alyn Velaryon (irmão de Addam), iniciando uma união marcada por infidelidades e turbulências. Caso a série opte pelo romance com Addam, criará um destino completamente novo para a montadora de Moondancer.
