Netflix sai do jogo e deixa Warner a um passo da Paramount

A Netflix decidiu oficialmente sair da disputa pela Warner Bros. Discovery após se recusar a elevar sua oferta para o patamar de US$ 31 por ação apresentado pela Paramount Skydance, avaliando que o novo valor exigido tornava o negócio financeiramente inviável dentro de sua estratégia de disciplina de capital.
Paramount, Warner e Netflix
Paramount, Warner e Netflix

Resumo da Notícia

A disputa bilionária pela Warner Bros. Discovery ganhou um desfecho decisivo nesta quinta-feira (26). A Netflix confirmou oficialmente que desistiu de aumentar sua oferta e, na prática, saiu da corrida pela aquisição do lendário conglomerado de entretenimento. Com isso, a Paramount Skydance desponta como a provável vencedora de uma batalha que se arrastou por meses em Hollywood e em Wall Street.

A decisão da Netflix não passou despercebida pelo mercado. Após o fechamento das negociações, as ações da empresa subiram cerca de 10%, reflexo direto da leitura dos investidores de que a companhia evitou um movimento considerado arriscado do ponto de vista financeiro.

O ponto central está no valor exigido para seguir na disputa. Mais cedo, a Warner informou que a proposta revisada da Paramount Skydance, de US$ 31 por ação, superava a oferta existente da Netflix, que previa US$ 27,75 por ação pelos ativos de estúdio e streaming da Warner. Para igualar o novo patamar, a Netflix precisaria rever completamente seus cálculos.

Em comunicado oficial publicado em sua área institucional — disponível aqui — a empresa foi direta ao justificar a retirada. Segundo a plataforma, o preço necessário para cobrir a proposta rival simplesmente deixou de fazer sentido econômico dentro da disciplina financeira adotada pela companhia.

Sempre fomos disciplinados e, pelo preço exigido para igualar a última oferta da Paramount Skydance, o negócio deixa de ser financeiramente atraente, afirmou a Netflix, deixando claro que não entraria em uma disputa inflacionada apenas para vencer o leilão.

A confirmação da desistência também foi feita à agência Reuters. Agora, o conselho da Warner Bros. Discovery ainda precisa cumprir etapas formais: rescindir o contrato existente com a Netflix e deliberar oficialmente sobre a aceitação da proposta da Paramount Skydance.

A lógica econômica por trás da retirada

A decisão da Netflix não surgiu no vácuo. Um consultor da empresa, falando sob condição de anonimato, afirmou que aconselhou diretamente a desistência, alegando que o negócio havia perdido racionalidade financeira. Segundo essa fonte, a Netflix estava disputando a aquisição com um bilionário disposto a pagar um valor considerado “irracional” para assumir o controle da Warner.

A declaração mais emblemática veio na forma de metáfora: Não adianta ficar jogando roleta russa com alguém que não vai virar o volante, disse o consultor, em referência direta a Larry Ellison, cofundador, presidente executivo e diretor de tecnologia da Oracle. Ellison é pai de David Ellison, presidente-executivo da Paramount, figura central na articulação da oferta da Skydance.

Esse fator ajuda a explicar por que a Netflix preferiu preservar capital em vez de insistir em uma disputa que poderia comprometer sua estratégia de longo prazo.

Um acordo gigante sob risco regulatório

A possível fusão entre Paramount e Warner Bros. não envolve apenas cifras astronômicas. O acordo uniria dois grandes estúdios de Hollywood, duas plataformas de streaming (HBO Max e Paramount+) e duas operações jornalísticas de peso (CNN e CBS). Naturalmente, isso acendeu alertas regulatórios.

Mesmo com as conhecidas ligações dos Ellison com o presidente Donald Trump, analistas avaliam que a transação enfrentará escrutínio antitruste rigoroso em Washington, além de análises em outros países e em estados norte-americanos como a Califórnia.

No Congresso, senadores democratas como Elizabeth Warren, Bernie Sanders e Richard Blumenthal já manifestaram preocupação pública com a possibilidade de favorecimento político no processo de aprovação do acordo.

Ciente desses riscos, a Paramount ajustou sua proposta. A empresa elevou a multa rescisória em caso de reprovação regulatória de US$ 5,8 bilhões para US$ 7 bilhões, além de reforçar o compromisso de capital próprio. O Ellison Trust passou a comprometer US$ 45,7 bilhões, acima dos US$ 43,6 bilhões anteriores, incluindo recursos adicionais para atender às exigências de solvência bancária.

No campo do financiamento, Bank of America Merrill Lynch, Citi e Apollo ampliaram o pacote de dívida para US$ 57,5 bilhões, ante os US$ 54 bilhões inicialmente previstos.

Pressão de investidores e bastidores da decisão

A movimentação também ocorre sob pressão de acionistas. A investidora ativista Ancora Holdings, que detém uma participação minoritária na Warner Bros., aumentou as críticas à gestão da companhia, alegando que a empresa não se engajou adequadamente com a Paramount durante o processo.

Já a Netflix, em sua declaração oficial assinada pelos co-CEOs Ted Sarandos e Greg Peters, fez questão de ressaltar que a empresa segue financeiramente saudável, com crescimento orgânico impulsionado por catálogo e serviço. A plataforma reiterou que investirá cerca de US$ 20 bilhões em filmes e séries em 2025 e que retomará seu programa de recompra de ações, em linha com sua política de alocação de capital.

Ao agradecer nominalmente executivos da Warner, como David Zaslav e Gunnar Wiedenfels, a Netflix reforçou que via a aquisição como algo “bom de se ter pelo preço certo”, e não como uma necessidade estratégica a qualquer custo.

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