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Mestres do Universo aposta em aventura, humor e um He-Man mais humano

Nicholas Galitzine entrega um Príncipe Adam mais doce, atrapalhado e humano, fazendo com que o heroísmo de He-Man dependa menos da força física e mais da coragem de fazer o que é certo.
Mestres do Universo pode ser o blockbuster esperançoso que a temporada precisava
Mestres do Universo pode ser o blockbuster esperançoso que a temporada precisava

Resumo da Notícia

  • O filme Mestres do Universo é dirigido por Travis Knight, conhecido por seu trabalho em Bumblebee.
  • Nicholas Galitzine interpreta o Príncipe Adam, trazendo uma abordagem mais vulnerável e humana ao herói.
  • Jared Leto compõe o vilão Esqueleto com uma atuação teatral e exagerada, respeitando o tom original da franquia.
  • A produção da Amazon MGM busca equilibrar o lado cartunesco do material original com uma narrativa moderna de fantasia.
  • O longa-metragem utiliza uma mistura de efeitos práticos e CGI para dar textura e peso ao mundo de Eternia.

Mestres do Universo é exatamente o tipo de blockbuster que poderia dar muito errado. A franquia da Mattel tem um imaginário visual exagerado, nomes que parecem saídos diretamente de um desenho dos anos 1980 e uma mitologia que, se tratada com seriedade demais, correria o risco de ficar involuntariamente ridícula.

A surpresa é que o filme dirigido por Travis Knight, de Bumblebee, entende isso muito bem. Em vez de fugir do absurdo de He-Man, ele abraça essa estranheza e encontra nela uma aventura sincera, colorida, esperançosa e mais humana do que eu esperava.

O novo filme acompanha Nicholas Galitzine como o Príncipe Adam de Eternia. Ainda criança, ele é enviado ao mundo humano com a Espada do Poder depois que seu reino é atacado por Esqueleto, vivido por Jared Leto. Quinze anos depois, Adam reencontra a espada e é salvo de um capanga do vilão por Teela, personagem de Camila Mendes, antes de voltar a Eternia para tentar libertar sua terra.

A história não reinventa a fantasia de aventura. Há elementos familiares, ecos de Star Wars e O Senhor dos Anéis, além de uma jornada de herói bastante reconhecível. Mestres do Universo funciona porque não tenta parecer mais sofisticado do que é. O filme sabe que está lidando com He-Man, Esqueleto, Maligna, Ariete, Fisto, Roboto e a Espada do Poder. E, justamente por não ter vergonha desse universo, consegue transformar a maluquice em charme.

Nicholas Galitzine encontra o melhor caminho para He-Man

O que mais me ganhou em Mestres do Universo foi a escolha de não transformar Adam em um herói musculoso e vazio. Nicholas Galitzine interpreta o personagem com uma doçura que desmonta parte da imagem mais óbvia associada a He-Man. Quando conhecemos Adam, primeiro criança e depois já adulto, aos 25 anos, trabalhando em recursos humanos e tentando reencontrar sua espada, ele não parece um guerreiro pronto. Parece um sujeito meio atrapalhado, bem-intencionado e deslocado.

Isso faz diferença. Mesmo quando ele recupera a Espada do Poder e declara “eu tenho a força”, Galitzine não abandona essa vulnerabilidade. O corpo está lá, claro, quase sempre em evidência por um figurino mais revelador do que qualquer coisa usada pelas personagens femininas. Mas o filme não reduz seu heroísmo aos músculos. A força de Adam vem da humanidade, da disposição de fazer o certo e da forma como ele encara a responsabilidade sem virar uma caricatura de masculinidade agressiva.

Essa leitura moderna de He-Man é o maior acerto do longa. O personagem nasceu em uma cultura de heróis físicos, exagerados, quase invencíveis. Aqui, ele continua sendo poderoso, mas não é definido apenas por isso. Há uma tentativa clara de aproximá-lo de heróis que carregam esperança sem cinismo, como o Superman de David Corenswet e o Capitão América de Chris Evans. Pode não ser uma ideia inédita, mas funciona porque Galitzine entrega Adam com sinceridade suficiente para fazer o público comprar essa versão.

O filme respeita a franquia sem virar peça de museu

O mundo e os personagens de Eternia fazem de Mestres do Universo um filme de fantasia grandioso e encantador
O mundo e os personagens de Eternia fazem de Mestres do Universo um filme de fantasia grandioso

Hollywood passou anos tentando encontrar um caminho para Mestres do Universo em live-action. Em 1987, Dolph Lundgren estrelou uma versão que foi mal recebida pela crítica e fracassou nas bilheterias, arrecadando apenas US$ 17,3 milhões. Depois disso, a ideia de recomeçar He-Man no cinema ficou circulando por décadas, com várias mudanças de cineastas e atores, até finalmente chegar à Amazon MGM com Travis Knight na direção.

O novo filme parece consciente desse peso. Ele não trata a franquia como piada, mas também não tenta apagar o lado cartunesco do material original. Esse equilíbrio é fundamental. Personagens como Maligna, interpretada por Allison Brie, Ariete, vivido por Jon Xue Zhang, e Fisto, interpretado por Jóhannes Haukur Jóhannesson, carregam nomes e presenças que exigem um tom muito específico. Se o filme tentasse deixá-los realistas demais, perderia a graça. Se exagerasse sem controle, viraria paródia.

A direção encontra um meio-termo eficiente. Há humor, há acenos ao desenho, há exagero visual, mas também existe uma narrativa simples sobre coragem, pertencimento e esperança. Como alguém que não cresceu assistindo ao desenho original nem lendo os quadrinhos, mas acompanhou as cinco temporadas de She-Ra e as Princesas do Poder, eu entendo melhor agora o apelo de Eternia. O filme consegue apresentar esse mundo para quem não tem nostalgia direta e, ao mesmo tempo, parece respeitar quem cresceu com He-Man.

Eternia ganha vida com um elenco que entende o tom

O elenco ajuda bastante a sustentar esse equilíbrio. Idris Elba interpreta Duncan, o Mentor, homem de armas do rei e pai adotivo de Teela. Ele entrega uma presença mais rígida, marcada por culpa e sensação de fracasso, funcionando como contraste direto com Adam. Se Adam representa uma força mais aberta e emocional, Duncan carrega uma masculinidade mais dura, acostumada a fugir dos próprios sentimentos.

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Kristen Wiig também se destaca como a voz de Roboto, trazendo leveza ao filme. Em alguns momentos, essa comicidade aparece até quando a cena talvez não precisasse tanto, mas a personagem ajuda a manter a aventura viva e menos pesada.

Do lado dos vilões, Jared Leto surge quase irreconhecível como Esqueleto. A voz, a aparência e a postura trabalham a favor de uma atuação assumidamente camp, teatral e exagerada. E esse é o caminho certo. Esqueleto não deveria ser um vilão discreto. Ele precisa parecer maior que a vida, quase como uma ameaça saída diretamente da animação original. Leto entende isso e se diverte com o papel.

Allison Brie, como Maligna, cumpre bem sua função, embora a personagem pareça sofrer mais com a tentativa de equilibrar realismo e exagero. Ela não tem a mesma liberdade camp de Esqueleto e, por isso, acaba sendo menos divertida. Ainda assim, funciona dentro do conjunto.

O filme também traz Morena Baccarin como a Feiticeira, James Purefoy como o Rei Randor, pai de Adam, e Charlotte Riley como a Rainha Marlena Glenn, mãe do protagonista. Christiaan Bettridge aparece como Dian, enquanto Camila Mendes, Nicholas Galitzine, Idris Elba, Jon Xue Zhang e Jóhannes Haukur Jóhannesson ajudam a compor o núcleo de aventura em Eternia. Nem todos recebem o mesmo espaço, mas o conjunto dá corpo ao mundo do filme.

Uma aventura derivativa, mas com personalidade suficiente

A principal fragilidade de Mestres do Universo está na sensação de que já vimos partes dessa estrutura em outras fantasias. Teela, por exemplo, é uma guerreira mais competente que Adam, mas ainda assim fica posicionada como parceira de jornada dele. A construção geral também lembra caminhos tradicionais de sagas como Star Wars e O Senhor dos Anéis.

Isso poderia pesar mais se o filme não fosse tão consciente do próprio mundo. A diferença é que Mestres do Universo aposta bastante no design de Eternia, nas criaturas, nas armas, nos nomes e na energia visual da franquia. O resultado não parece apenas uma cópia de outras aventuras. Parece uma obra que usa fórmulas conhecidas para apresentar um universo com identidade própria.

E há algo interessante nessa aposta. Para um público mais jovem, Mestres do Universo pode funcionar como uma porta de entrada para a fantasia épica da mesma forma que Star Wars e O Senhor dos Anéis foram para gerações anteriores. Não porque esteja no mesmo patamar dessas franquias, mas porque oferece um mundo grande, personagens marcantes e uma aventura acessível, feita para ser descoberta sem exigir conhecimento prévio.

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O filme tem cara de grande lançamento de temporada. As cenas de ação são empolgantes, a jornada do personagem é simples, e a aventura tem apelo para a família. Ainda assim, há imagens surpreendentemente grotescas e mortes assustadoras para um longa PG-13, o que dá ao universo um peso maior do que o esperado.

Visualmente, o equilíbrio entre CGI e efeitos práticos ajuda muito. Eternia poderia facilmente parecer artificial demais, mas o uso de elementos físicos mantém a fantasia com alguma textura. O mundo é colorido, exagerado e cheio de detalhes, mas não fica totalmente sem peso.

O que faz Mestres do Universo se destacar, porém, é a mensagem. O filme acredita em esperança. Acredita em fazer o certo. Acredita em um herói que não precisa ser cínico para ser interessante. Nesse sentido, ele segue uma linha parecida com o Superman de James Gunn, buscando uma aventura mais luminosa em meio a um cinema de franquias que muitas vezes confunde seriedade com falta de afeto.

Essa sinceridade é o que torna o filme mais forte. Mestres do Universo não quer desconstruir He-Man até que ele deixe de ser reconhecível. Também não quer apenas repetir a nostalgia. Ele tenta atualizar o personagem sem remover sua essência: um herói de fantasia, com uma espada mágica, um reino em perigo e uma confiança quase ingênua na ideia de que ainda vale a pena lutar pelo bem.

He-Man pode ter encontrado seu novo começo

Ainda é cedo para dizer se Mestres do Universo vai realmente apagar a lembrança do fracasso de 1987 e abrir uma nova franquia para a Mattel e a Amazon MGM. O filme deixa sinais de confiança em uma possível sequência, e há material suficiente em Eternia para continuar expandindo esse universo.

O ponto mais importante é que, desta vez, He-Man parece ter encontrado uma forma de funcionar no cinema atual. A produção não foge do ridículo, não esconde o coração e não trata esperança como fraqueza. Isso torna a aventura mais cativante do que uma simples tentativa de relançar uma marca conhecida.

Saí da experiência com uma impressão clara: Mestres do Universo entende que o poder de He-Man não está apenas na força física. Está na bondade, na coragem e na disposição de continuar acreditando quando seria mais fácil endurecer. Para uma franquia tão marcada por músculos, espadas e vilões espalhafatosos, essa talvez seja a atualização mais inteligente possível.

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