Resumo da Notícia
Assisti A Hora do Mal no Moviecom do Praia Shopping, em Natal, e, por alguns minutos depois da sessão, fiquei parado no corredor olhando para o cartaz. Não era pelo impacto de uma cena específica ou por qualquer “susto” gratuito, mas por uma constatação rara: eu tinha acabado de ver um filme de terror que trata o gênero como cinema — com roteiro, direção e elenco alinhados para construir desconforto, e não para disputar quem arranca o grito mais alto da plateia.
O diretor Zach Cregger já tinha mostrado serviço em Noites Brutais (2022), mas aqui ele dá um salto. Estrutura a narrativa em seis pontos de vista, lembrando Rashomon (1950), de Kurosawa, e Magnólia (1996), de Paul Thomas Anderson.
Não é simples: cada segmento responde algumas perguntas e abre outras, mantendo o público em estado de vigilância. E no terror, a vigilância é tão importante quanto o choque.
O terror que não se explica demais
Em tempos de produções que entregam tudo mastigado — como se o espectador fosse incapaz de preencher lacunas —, A Hora do Mal respeita a inteligência de quem assiste. A história das 17 crianças que desaparecem misteriosamente na pequena Maybrook não é tratada como enigma de videogame, mas como trauma coletivo.
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A professora Justine (Julia Garner) vira alvo de desconfiança, e cada novo olhar sobre os acontecimentos adiciona mais peso do que alívio.
Cregger cria medo não pelo que mostra, mas pelo que sugere. Silêncios incômodos, enquadramentos que escondem mais do que revelam e um ritmo que sabe desacelerar antes de golpear. É o oposto da lógica de terror em série, que confunde pressa com tensão.
Elenco que carrega e transforma

Josh Brolin, longe dos papéis caricatos de vilão ou herói, constrói um pai que vai da apatia inicial ao desespero ativo. Julia Garner entrega camadas à personagem, oscilando entre fragilidade e firmeza, enquanto luta para preservar a própria sanidade. Cary Christopher, como Alex — o único aluno que não desapareceu —, sustenta sozinho alguns momentos-chave com um peso dramático surpreendente para a idade.
Até coadjuvantes como Amy Maddigan e Benedict Wong marcam presença de forma memorável, lembrando que, no terror, o detalhe bem executado pode ser mais perturbador que o monstro explícito.
O recado para o gênero
A Hora do Mal chega num momento em que o terror vive um paradoxo: nunca foi tão popular, mas raramente é tratado com seriedade por quem o produz. Filmes como Fale Comigo e Pecadores já vinham mostrando que dá para misturar gêneros e criar algo mais complexo, mas Cregger vai além — ele constrói um filme que poderia funcionar sem a etiqueta “terror”, porque se sustenta como narrativa e como experiência cinematográfica.
No Moviecom, percebi algo curioso: a plateia não ria nervosa para disfarçar susto. As pessoas estavam em silêncio, absorvendo. Isso, para o terror, é o equivalente a ver um estádio inteiro prender a respiração num pênalti.
Final que não quer ser bonitinho
O desfecho é intenso e desconfortável, e isso é um elogio. Cregger não fecha todas as portas, e a sensação é de ter lido um bom Stephen King: há explicação suficiente para satisfazer, mas espaço bastante para a imaginação continuar trabalhando à noite. O cinema de terror precisa de mais filmes assim — que não tenham medo de deixar a gente com medo.
