Há um ano sem Silvio Santos: a origem soviética do tema do “Show de Calouros”, e como ele virou um hino da TV brasileira

No primeiro aniversário da morte de Silvio Santos (1930–2024), reconstituímos a trajetória da melodia que marcou o “Show de Calouros”. O tema nasceu na antiga União Soviética como “Dorogoi dlinnoyu”, ganhou o mundo em 1968 na versão inglesa “Those Were the Days” e, no Brasil, virou a marchinha pegajosa com que o apresentador chamava os jurados.
Há um ano sem Silvio Santos: a origem soviética do tema do “Show de Calouros”, e como ele virou um hino da TV brasileira
Foto: SBT/Divulgação

Resumo da Notícia

Passou-se um ano desde a morte de Silvio Santos (1930–2024), e a lembrança de seu legado continua viva. Entre tantos elementos que definiram seu estilo, há um detalhe sonoro que permanece fixo na memória coletiva: o “lá-lá-lá” que embalava a abertura do “Show de Calouros”.

Essa melodia, repetida milhares de vezes nas tardes e noites de domingo, não nasceu nos estúdios do SBT. Pelo contrário: sua origem remonta à antiga União Soviética, atravessou fronteiras e idiomas, até ganhar o arranjo que se tornaria uma das marcas registradas da televisão brasileira.

A história inicia nos anos 1920, quando o compositor Boris Fomin, em parceria com o poeta Konstantin Podrevskii, escreveu “Dorogoi dlinnoyu” (“Pela longa estrada”).

Relatos fonográficos apontam gravações entre 1925 e 1926, com vozes de artistas como Tamara Tsereteli e Alexander Vertinsky. A canção, de melodia nostálgica e versos que evocavam saudade e juventude, rapidamente circulou em cafés e encontros da sociedade russa.

Porém, em 1929, já sob o endurecimento do regime stalinista, há registros de que a música foi considerada “antirrevolucionária”, sendo retirada das programações oficiais. Ainda assim, manteve-se viva em ambientes privados e entre emigrados russos.

A virada internacional: “Those Were the Days” (1968)

Quase quatro décadas depois, a melodia ressurgiu. O músico americano Gene Raskin escreveu uma nova letra em inglês sobre a melodia soviética. O projeto ganhou força quando Paul McCartney, então nos Beatles, produziu o single de estreia da cantora galesa Mary Hopkin.

Em 30 de agosto de 1968, a canção “Those Were the Days” foi lançada e logo estourou: alcançou o 1º lugar nas paradas britânicas e chegou ao 2º nos Estados Unidos. O tom nostálgico, aliado à estrutura repetitiva e envolvente, garantiu longevidade e reconhecimento mundial.

Como chegou ao Brasil: “Aqueles Tempos”, com Joelma

Ainda em 1968, o mercado fonográfico do Brasil recebeu sua versão. O letrista Fred Jorge adaptou a canção para o português, batizando-a de “Aqueles Tempos”. A intérprete escolhida foi Joelma, cantora popular na época (não confundir com a artista homônima de décadas seguintes).

A gravação saiu em compacto no final de 1968 e foi incluída no LP “Casatschok”, lançado em 1969 pela gravadora Chantecler. Nos registros, mantiveram-se os créditos originais da melodia russa, agora acompanhados da adaptação brasileira.

A televisão brasileira transforma em assinatura: o “Show de Calouros”

Quando o “Show de Calouros” estreou em 1977, Silvio Santos buscava um tema musical que fosse ao mesmo tempo animado, popular e de fácil memorização. A versão escolhida foi a base de “Aqueles Tempos”, reorganizada pelo maestro Zezinho, regente da orquestra do SBT.

O arranjo transformou a melodia em marchinha televisiva. Silvio, como apresentador, reforçava o refrão com o célebre “lá-lá-lá” diante das câmeras, convidando jurados e plateia a repetir.

Esse recurso não era improviso: estava diretamente ligado à lógica de televisão popular — uma assinatura sonora de fácil identificação, que permitia ao público associar imediatamente o quadro ao carisma de seu apresentador.

Linha do tempo essencial

  • 1925–1926 — Primeiras gravações conhecidas de “Dorogoi dlinnoyu”. Autoria: Boris Fomin (música) e Konstantin Podrevskii (letra).
  • 1953 — A canção aparece no filme britânico “Innocents in Paris”, mantendo-a em circulação no Ocidente.
  • 1968Mary Hopkin lança “Those Were the Days”, produção de Paul McCartney; sucesso de paradas.
  • 1968–1969Joelma grava “Aqueles Tempos” (versão Fred Jorge) em compacto e no LP “Casatschok”.
  • 1977–1996 — O “Show de Calouros” fixa o “lá-lá-lá” como assinatura sonora do programa, em arranjo do maestro Zezinho.

Nostalgia universal — tanto a versão russa quanto a inglesa tratam de lembranças da juventude, tema de forte empatia no entretenimento popular. Estrutura melódica simples e refrão silábico facilitam a participação da plateia e criam marca auditiva instantânea — elemento que a direção do programa explorou com método.

Um ano sem Silvio Santos

Silvio Santos morreu em 17 de agosto de 2024, em São Paulo, aos 93 anos, de broncopneumonia após infecção por H1N1, segundo boletim do Hospital Albert Einstein. A morte foi confirmada pelo SBT e teve repercussão internacional.

Hoje, ao lembrar de sua trajetória, é impossível não associar o riso solto, a espontaneidade e os bordões ao som inconfundível do “lá-lá-lá” que atravessou décadas. Mais do que trilha de um programa, tornou-se símbolo de um estilo televisivo que mesclava simplicidade com apelo de massa.

A história da canção mostra como um tema soviético banido como “antirrevolucionário” pôde, anos depois, ser transformado em uma marca alegre e popular do maior comunicador da televisão brasileira. Essa é uma prova de como a cultura circula, se adapta e ganha novos significados.

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