Por que Emerald Fennell decidiu colocar aspas nova adaptação de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’?

Estrelado por Margot Robbie e Jacob Elordi, filme já está em cartaz nos cinemas brasileiros.
Por que nova adaptação de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ leva aspas em seu título oficial
Por que nova adaptação de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ leva aspas em seu título oficial?

Resumo da Notícia

A estreia de “O Morro dos Ventos Uivantes”, nesta quinta-feira (12), nos cinemas brasileiros, reacendeu não apenas o interesse por um dos romances mais influentes do século XIX, como também um debate curioso: por que o título oficial do filme aparece entre aspas? A escolha, longe de ser um detalhe gráfico ou mero capricho estético, revela muito sobre a proposta da nova adaptação e sobre como o cinema contemporâneo lida com obras literárias consideradas praticamente “intocáveis”.

Dirigido e roteirizado por Emerald Fennell, vencedora do Oscar de Melhor Roteiro Original por Bela Vingança (2020), o longa parte de uma premissa clara: não se trata de reproduzir fielmente o clássico de 1847, mas de assumir, desde o título, que estamos diante de uma interpretação. A decisão de usar aspas funciona como um aviso direto ao espectador — e também como uma tomada de posição autoral.

Em entrevista concedida à Fandango, a diretora foi direta ao explicar o raciocínio por trás da pontuação, encerrando teorias que circulavam desde o anúncio do projeto. Segundo Fennell:

Para mim, não acho que seja possível adaptar algo tão denso, complicado e difícil como esse livro. Eu não posso dizer que estou fazendo ‘O Morro dos Ventos Uivantes’. Não é possível. O que posso dizer é que estou fazendo uma versão dele.”

A cineasta reforçou que toda adaptação carrega inevitavelmente a memória de quem lê e interpreta a obra, e concluiu: Então, é ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ e não é. Mas, realmente, eu diria que qualquer adaptação de um livro, especialmente de um como este, deveria ter aspas nela.”

A fala ajuda a compreender a escolha do título como um gesto conceitual. Ao assumir as aspas, o filme reconhece que dialoga com o romance, mas não pretende substituí-lo nem reivindicar o status de versão definitiva. É uma estratégia rara no cinema comercial, que costuma vender adaptações como se fossem traduções diretas do texto original.

Publicado em 1847, o romance O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, acompanha a relação intensa e destrutiva entre Catherine Earnshaw e Heathcliff, um garoto órfão acolhido pelo pai da protagonista. A ligação profunda entre os dois, construída desde a infância, é atravessada por orgulho, ressentimento e barreiras sociais. Quando Catherine decide se casar com outro homem, Heathcliff abandona a região consumido pela dor. Anos depois, retorna transformado: rico, poderoso e movido por um desejo obsessivo de vingança contra todos que associa à sua infelicidade.

Não por acaso, a obra já foi adaptada diversas vezes para o cinema e para a televisão. A versão dirigida por William Wyler, lançada em 1939, permanece como a mais lembrada. Em tempos mais recentes, destacam-se a minissérie de 2009, com Tom Hardy no papel de Heathcliff e Charlotte Riley como Catherine, além do filme de 2012 protagonizado por James Howson e Kaya Scodelario.

Na nova versão, os protagonistas ganham novos rostos. Margot Robbie interpreta Catherine Earnshaw, enquanto Jacob Elordi assume o papel de Heathcliff — informação central para compreender o apelo contemporâneo da produção e sua tentativa de dialogar com um público mais jovem, sem abandonar o peso dramático da história. O elenco ainda conta com Alison Oliver, Shazad Latif e Hong Chau, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por A Baleia, compondo um conjunto que reforça a ambição artística do projeto.

Produzido pela LuckyChap, em parceria com a Lie Still e a MRC Film, o longa se posiciona como uma releitura consciente de seus limites. As aspas, portanto, não diminuem o clássico — ao contrário, funcionam como um reconhecimento explícito de sua complexidade e de sua força histórica, algo raro em adaptações que costumam prometer fidelidade absoluta e acabam frustrando leitores e cinéfilos.

Deixe um comentário

Seu e‑mail não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.