Metade dos profissionais brasileiros já sofreu ou presenciou assédio no trabalho, aponta pesquisa

De acordo com a CLA Brasil, 63% das vítimas são mulheres; especialistas avaliam o cenário e alertam para impactos na saúde mental.
Assédio no trabalho atinge 50% dos profissionais e expõe peso das lideranças
Assédio no trabalho atinge 50% dos profissionais e expõe peso das lideranças - Crédito: Freepik

Resumo da Notícia

  • Uma pesquisa da CLA Brasil em 2025 aponta que 50% dos profissionais brasileiros já sofreram ou presenciaram assédio no trabalho.
  • Em 85% dos casos, os agressores ocupavam cargos de liderança, e mulheres são as principais vítimas (63%).
  • Especialistas indicam que o aumento das denúncias reflete uma mudança cultural e maior rigor jurídico sobre o tema.
  • O assédio tem impacto direto na saúde mental, com o Brasil registrando mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025.
  • Empresas que ignoram denúncias enfrentam riscos psicossociais, afetando o clima organizacional, a produtividade e a imagem.
  • Existem diferentes tipos de assédio (moral, sexual, vertical e horizontal), e a empresa pode ser responsabilizada por omissão.
  • Trabalhadores devem reunir provas e buscar canais de denúncia, como sindicatos ou o Ministério Público do Trabalho.
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Uma pesquisa realizada pela CLA Brasil em 2025 revelou que 50% dos profissionais brasileiros já sofreram ou presenciaram algum tipo de assédio no ambiente de trabalho. O levantamento também mostra que, em 85% dos casos, os agressores ocupavam cargos de liderança.

As mulheres aparecem como as principais vítimas, com 63%, enquanto os homens são maioria entre os agressores, com 66%. Os dados reforçam um problema que deixou de ser tratado como conflito isolado e passou a ser visto como risco jurídico, psicológico e organizacional.

Para Túlio Chaves, docente de Direito da Estácio e especialista em Direito Trabalhista, o volume de relatos também revela uma mudança cultural: situações antes toleradas ou silenciadas passaram a ser reconhecidas como violência no ambiente profissional.

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É assustador que metade dos profissionais brasileiros já tenha passado por isso, mas esse número alto também é um sinal de que paramos de normalizar situações como essas. O assédio sempre existiu, mas agora as pessoas têm mais consciência e menos medo de denunciar, explica.

Segundo o especialista, o crescimento das denúncias também acompanha uma mudança no campo jurídico. Os tribunais estão muito mais rigorosos e o tema ganhou um fôlego enorme com as novas leis e protocolos, como os que protegem especificamente as mulheres, tornando as denúncias muito mais frequentes, complementa o especialista.

Qual é o papel das lideranças na prevenção

A pesquisa mostra que a maioria dos agressores ocupa cargos de liderança, o que torna a responsabilidade das chefias ainda mais relevante na prevenção. Para Ana Cláudia Medeiros, consultora de Gestão de Pessoas da Rui Cadete, líderes não apenas gerenciam equipes: eles influenciam diretamente a cultura interna.

São elas que dão o exemplo, ao promover o diálogo aberto, agir rapidamente diante de desvios e garantir um ambiente de respeito, confiança e segurança psicológica. A liderança é quem irá replicar as boas práticas e favorecer um ambiente de cultura seguro, comenta Ana Cláudia Medeiros, consultora de Gestão de Pessoas da Rui Cadete.

Quando a empresa ignora denúncias, naturaliza abusos ou trata o tema como problema individual, o ambiente se torna mais vulnerável à repetição das condutas. Por isso, o assédio passa a exigir resposta institucional, com apuração, acolhimento e medidas concretas de prevenção.

O assédio também tem impacto direto na saúde mental. De acordo com o Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou em 2025 um total de 546.254 afastamentos do trabalho por transtornos mentais. Entre os principais diagnósticos estão os transtornos de ansiedade, com 166.489 casos, e os episódios depressivos, com 126.608 registros.

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Para Helington Costa, coordenador do curso de Psicologia da Estácio, os números mostram que o sofrimento relacionado ao trabalho não pode mais ser lido apenas como questão individual.

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Quando mais de meio milhão de trabalhadores precisam se afastar por questões de saúde mental, isso indica que o sofrimento deixou de ser individual e passou a ser estrutural. Do ponto de vista clínico, excesso de demandas, metas inalcançáveis e hiperconectividade ampliam a sobrecarga psíquica e podem contribuir para o agravamento desse cenário, avalia.

O psicólogo também destaca que o assédio funciona como um desgaste contínuo. Ele coloca o trabalhador em estado de vigilância constante, o que pode levar a quadros de ansiedade generalizada, depressão, burnout e até manifestações psicossomáticas. O trabalhador perde a confiança e passa a duvidar da própria competência. E o trabalho, que antes era visto como um espaço de realização, passa a ser vivido como um território de ameaça, aponta o psicólogo.

Por que o assédio é um risco para as empresas

Além de atingir diretamente a vítima, o assédio compromete o clima interno, a produtividade e a imagem da organização. Para Ana Cláudia, o problema precisa ser tratado como um risco psicossocial relevante.

Quando essa prática está presente e é mal conduzida, ela se torna um risco direto, que pode afetar a saúde mental, o clima organizacional e o desempenho sustentável. Além de impactar a marca empregadora da empresa, destaca Ana Cláudia.

Essa avaliação reforça que prevenir assédio não é apenas uma obrigação ética. Também envolve responsabilidade trabalhista, gestão de pessoas, retenção de talentos e credibilidade institucional.

O primeiro passo para denunciar é entender as diferenças entre os tipos de assédio. Túlio Chaves explica que as condutas podem ocorrer de formas distintas dentro do ambiente profissional.

O assédio moral é aquela tortura psicológica repetitiva que mina a autoestima do funcionário. Já o assédio sexual é mais direto, focado em obter vantagem física ou constranger a pessoa, e não precisa de repetição para ser crime. Também existe o assédio vertical, vindo da chefia, e o horizontal, entre colegas — e, em todos os casos, a empresa pode ser responsabilizada em caso de omissão, detalha Túlio Chaves.

Depois de identificar a situação, o trabalhador deve reunir o máximo de provas possível. A orientação é registrar datas, horários, nomes de testemunhas e guardar evidências como prints de mensagens, e-mails, gravações de conversas e laudos médicos que comprovem o desgaste psicológico.

O profissional também pode acionar os canais de denúncia da empresa. Caso não se sinta seguro, pode buscar apoio junto ao sindicato ou ao Ministério Público do Trabalho.

Em alguns casos, é possível pedir a rescisão indireta, que ocorre quando o trabalhador deixa a empresa com todos os seus direitos garantidos, diante do descumprimento do contrato por parte do empregador ao permitir abuso. Já a indenização por danos morais serve para tentar compensar o sofrimento e a violação da dignidade que ninguém deveria ser obrigado a suportar para ganhar a vida, finaliza o advogado.

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