Resumo da Notícia
O Dia do Trabalhador, celebrado nesta sexta-feira (1º de maio), coincide com os 83 anos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e reacende um debate cada vez mais presente entre jovens profissionais: a relação da geração Z com o emprego formal.
Entre os nascidos de 1997 a 2010, cresce a crítica ao modelo tradicional de trabalho, impulsionada por busca de propósito, bem-estar, autonomia e frustração com um mercado considerado desfavorável por boa parte desse público.
A pesquisa “Gen Z: os novos autores da cultura”, da MindMiners, aponta que 34% dos jovens enxergam o trabalho apenas como meio de ascensão e colocam propósito e bem-estar antes da vida profissional. O levantamento também mostra que 59% consideram o mercado atual desfavorável, o que ajuda a explicar o distanciamento em relação à ideia de carreira linear e vínculo formal como prioridade absoluta.
Esse cenário também aparece nos pedidos de demissão voluntária entre pessoas de 18 a 24 anos. Segundo pesquisa do Ministério do Trabalho, com dados de 2025, os principais motivos são a busca por novas oportunidades (38%), a falta de reconhecimento (34%) e questões éticas (28%).
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Para o neuropsicólogo Helington Costa, coordenador do curso de Psicologia da Estácio, o fator geracional tem peso direto nessa leitura mais crítica da formalidade.
“Muitos jovens cresceram em um contexto em que os direitos trabalhistas como salário mínimo, décimo terceiro, férias remuneradas, FGTS e o seguro-desemprego já estavam relativamente consolidados. Como não vivenciaram a ausência dessas garantias, há uma tendência de desvalorizá-las”, afirma.
Como as redes sociais influenciam a percepção sobre carreira
A crítica ao modelo formal não nasce apenas do mercado de trabalho. Ela também é alimentada pelo tipo de conteúdo que os jovens consomem diariamente nas redes sociais, especialmente quando a vida profissional é apresentada como uma combinação de liberdade, renda rápida e sucesso individual.
“As redes funcionam como verdadeiros curadores de realidade. O que aparece ali é um recorte altamente selecionado por algoritmos, geralmente voltado para sucesso, liberdade e ganho financeiro rápido”, observa o especialista.
Essa exposição constante tende a ampliar a comparação social e a sensação de atraso. Para Helington, o problema aparece quando a trajetória real de trabalho passa a parecer insuficiente diante de uma vitrine permanente de conquistas selecionadas.
“A tendência é que o jovem acredite que todos estão em uma situação melhor, o que intensifica o sofrimento psicológico”, avalia.
Ainda assim, o especialista faz uma distinção importante sobre o desejo de autonomia.
“O problema não está no desejo por autonomia ou crescimento financeiro, mas na crença de que isso acontece sem processo, sem risco e sem esforço consistente”.
O que a informalidade pode tirar do trabalhador
A busca por modelos mais flexíveis também ampliou a presença de formatos como pejotização, freelancing e trabalho por plataformas. O alerta, segundo o advogado especialista em Direito Trabalhista Túlio Chaves, é que parte dessas alternativas pode significar perda de garantias essenciais, especialmente quando vínculos empregatícios são mascarados para reduzir custos das empresas.
“Há uma ilusão de maior ganho, mas isso frequentemente ocorre com a transferência de todos os riscos da atividade para o trabalhador. Sem a proteção da CLT, o jovem fica mais vulnerável a oscilações de renda e à ausência de assistência em momentos de incapacidade laboral”, explica o profissional, que também é docente de Direito da Estácio.
Entre os principais riscos citados por ele estão a falta de contribuição previdenciária regular, que pode comprometer o acesso a benefícios como auxílio-doença e aposentadoria; a ausência de limites de jornada, que favorece rotinas exaustivas; e a inexistência de verbas rescisórias, dificultando a transição entre vínculos de trabalho.
Por que a CLT ainda pesa no debate sobre proteção social
A CLT completa 83 anos em um momento em que o mercado cobra atualização, mas também evidencia a importância de garantias mínimas. Para profissionais da Geração X, formada por nascidos entre 1965 e 1980, a relação formal de trabalho ainda costuma ser associada a estabilidade e direitos conquistados. Para parte da geração Z, o mesmo modelo pode parecer rígido, pouco atrativo ou distante das expectativas atuais.
Na avaliação de Túlio Chaves, a legislação precisa acompanhar as transformações do mercado, mas ainda ocupa papel central na proteção dos trabalhadores.
“A CLT continua sendo o instrumento mais eficaz de justiça social no país, ao garantir direitos mínimos e reduzir vulnerabilidades em um ambiente cada vez mais dinâmico”, finaliza.
O debate, portanto, não se resume a escolher entre emprego formal e autonomia. A questão central está em entender como garantir liberdade, inovação e novas formas de trabalho sem abandonar proteção previdenciária, segurança jurídica, limites de jornada e condições mínimas de dignidade profissional.
