Ferramenta lúdica e eficaz: estudo destaca poder da contação de histórias para ensinar saúde a crianças

Estudo revela que a prática pode humanizar o ensino e facilitar o entendimento de temas complexos, mas ainda carece de integração contínua nas escolas brasileiras.
Ferramenta lúdica e eficaz: estudo destaca poder da contação de histórias para ensinar saúde a crianças
Foto: Africa Studio / Adobe Stock

Resumo da Notícia

A contação de histórias é uma prática milenar que atravessa gerações, culturas e contextos sociais. No ambiente escolar, especialmente no Brasil, esse recurso lúdico tem se mostrado cada vez mais relevante como estratégia para educar crianças não apenas em conteúdos formais, mas também na área da saúde.

É o que aponta o artigo A contação de histórias como ferramenta lúdica para educação em saúde de escolares brasileiros: uma revisão integrativa, de autoria da pesquisadora Brunna Rayane Mendes da Silva, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

O estudo, disponível no repositório da UFRN, reúne e analisa diversas pesquisas sobre o tema, identificando como essa prática tem sido aplicada no contexto da saúde dentro das escolas brasileiras. A conclusão é clara: a contação de histórias é uma estratégia promissora, mas ainda subaproveitada quando se trata da promoção de saúde para escolares.

Como o estudo foi conduzido

A pesquisa foi feita por meio de uma revisão integrativa da literatura, uma metodologia que permite reunir estudos diversos sobre um mesmo tema, com rigor científico e análise crítica.

Foram utilizadas as seguintes bases de dados: Scielo, Scopus, Web of Science, ERIC, Medline via PubMed e Lilacs via BVS. Além disso, a pesquisadora aplicou a chamada técnica snowball, que consiste em ampliar a busca a partir das referências dos estudos já encontrados.

O software Rayyan foi empregado para eliminar duplicidades e realizar a triagem dos artigos selecionados, garantindo que apenas os estudos mais relevantes fossem incluídos na amostra final.

Contação de histórias na saúde: uma prática pontual e pouco integrada

Segundo o artigo, a maioria das ações que envolvem contação de histórias nas escolas brasileiras tem caráter pontual, ou seja, ocorrem de forma isolada e sem continuidade. Muitas dessas práticas são realizadas por profissionais da saúde que visitam escolas, promovendo atividades educativas sobre temas como higiene, alimentação saudável, prevenção de doenças, entre outros.

Contudo, não há uma integração consistente dessa ferramenta ao currículo escolar, nem um envolvimento sistemático de professores ou gestores da educação. De acordo com o estudo, as experiências analisadas não promovem, na maior parte dos casos, participação ativa dos estudantes, o que limita o potencial formativo da contação de histórias.

A pesquisadora também observa que, em geral, essa prática está associada a outras atividades pedagógicas, o que pode ser positivo, desde que haja uma intencionalidade educativa e um planejamento que valorize a participação dos alunos.

Um recurso humanizador e afetivo

Apesar da aplicação ainda limitada, o artigo destaca que a contação de histórias é uma ferramenta que pode humanizar a educação em saúde, ao estimular o envolvimento afetivo, a imaginação e a capacidade de reflexão crítica das crianças. Trata-se, segundo a pesquisadora, de um recurso culturalmente significativo, que dialoga com a realidade dos estudantes e pode facilitar o entendimento de temas complexos da saúde, muitas vezes difíceis de serem abordados apenas com explicações técnicas ou expositivas.

Para Brunna Mendes, “a contação de histórias promove vínculos, cria empatia e oferece um ambiente seguro para que crianças expressem sentimentos, dúvidas e aprendam de forma ativa”. Isso reforça a importância da abordagem lúdica, especialmente no contexto escolar, onde o aprendizado precisa ser significativo e respeitar o universo infantil.

Desafios e caminhos para avançar

Um dos pontos centrais da conclusão do estudo é a necessidade de ampliar o reconhecimento dessa prática no campo das políticas públicas, especialmente nas áreas de saúde e educação. O artigo defende que a contação de histórias seja valorizada como uma ferramenta estratégica de promoção da saúde, não apenas como atividade complementar ou recreativa.

Além disso, é essencial formar adequadamente os profissionais — tanto da saúde quanto da educação — para que possam utilizar essa ferramenta de maneira crítica, participativa e contínua. Isso implica oferecer capacitações específicas, inserir a contação de histórias nos programas escolares e construir materiais educativos adaptados às faixas etárias e contextos regionais dos alunos.

Embora o estudo aponte uma carência de iniciativas sistematizadas, há exemplos positivos mencionados na literatura revisada. Em algumas escolas, por exemplo, a contação de histórias foi usada para trabalhar temas como prevenção da dengue, higiene bucal e alimentação saudável, com resultados positivos na compreensão dos alunos e no engajamento das famílias.

Em outros contextos, essa prática foi adotada em campanhas de vacinação e ações de saúde pública, com foco na sensibilização das crianças e dos responsáveis. Essas experiências demonstram que a contação de histórias pode ser adaptada a diversas realidades e utilizada de forma estratégica para promover saúde com linguagem acessível e envolvente.

O estudo defende que tais iniciativas se tornem parte permanente da educação em saúde nas escolas, contribuindo para formar cidadãos mais conscientes sobre o cuidado com o corpo, a prevenção de doenças e a promoção do bem-estar.

Potencial existe, mas precisa de valorização

A principal conclusão da pesquisa da UFRN é que a contação de histórias possui enorme potencial como ferramenta de educação em saúde no ambiente escolar. No entanto, esse recurso ainda é visto como algo secundário ou pontual, e não como parte de uma política pública integrada.

Para que a contação de histórias seja de fato valorizada, é necessário um esforço conjunto entre educadores, profissionais da saúde, gestores públicos e pesquisadores, com foco em garantir às crianças uma formação mais humanizada e consciente, capaz de promover não apenas o conhecimento, mas também o desenvolvimento social e afetivo.

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