Oferta hostil da Paramount coloca Netflix em posição delicada na compra da Warner

Mais do que uma disputa por ativos, a briga expõe a redefinição do poder em Hollywood — com estúdios tradicionais lutando contra plataformas digitais que remodelaram por completo o mercado global de entretenimento.
Paramount vira o jogo e ameaça acordo da Netflix pela Warner Bros. Discovery
Paramount vira o jogo e ameaça acordo da Netflix pela Warner Bros. Discovery

Resumo da Notícia

A disputa pela compra da Warner Bros. Discovery chegou ao ponto mais tenso desde o início das negociações. A Paramount apresentou uma “oferta hostil” de US$ 108 bilhões nesta segunda-feira (8), superando com folga os US$ 72 bilhões oferecidos pela Netflix.

A manobra coloca a gigante de Los Angeles diretamente contra os interesses da rival de streaming — e contra a própria diretoria da Warner, que vinha conduzindo tratativas reservadas com a Netflix.

Logo após anunciar a proposta, o CEO da Paramount, David Ellison, foi categórico ao defender que sua oferta precisa prevalecer: Os acionistas da WBD merecem a oportunidade de considerar nossa oferta superior em dinheiro por suas ações da empresa inteira. A declaração, repetida em nota oficial, sinaliza que a estratégia da Paramount é ir direto ao bolso dos acionistas, pressionando o Conselho da Warner a aceitar uma proposta mais rentável e com execução mais rápida.

O peso de uma oferta hostil e o impacto para o mercado

A Paramount não quer apenas o segmento de streaming da Warner. O plano é assumir tudo, incluindo os canais a cabo CNN e TNT. A empresa oferece 30 dólares por ação, contra os 28 dólares por ação propostos pela Netflix. Para qualquer acionista, a matemática é simples: mais dinheiro, maior atratividade. Mas o processo está longe de ser simples.

A chamada oferta hostil ocorre quando uma empresa tenta adquirir outra sem apoio da diretoria. Em vez de negociar internamente, a compradora procura os acionistas com um valor capaz de virar votos e derrubar objeções internas. É exatamente o movimento que a Paramount decidiu fazer — uma escolha rara no setor de entretenimento, onde acordos costumam ser amigáveis e estratégicos.

O CEO reafirmou o discurso em nova nota: Os acionistas da WBD merecem a oportunidade de considerar nossa oferta superior em dinheiro por suas ações da empresa inteira. Para a Paramount, insistir nessa frase é também insistir na narrativa de que o Conselho da Warner estaria impedindo a análise de uma proposta mais vantajosa.

A Paramount alegou ainda: Nossa oferta pública, que tem os mesmos termos que apresentamos ao Conselho de Administração da Warner Bros. Discovery em particular, oferece um valor superior e um caminho mais seguro e rápido para a conclusão do negócio. Acreditamos que o Conselho de Administração da WBD está buscando uma proposta inferior.”

A oferta tem previsão de expirar em 8 de janeiro de 2026, salvo prorrogação. Até lá, a disputa deve intensificar-se, sobretudo por causa de um obstáculo decisivo: os reguladores dos Estados Unidos.

A batalha regulatória e os riscos para a Netflix

Segundo a Reuters, a aquisição pela Netflix deve enfrentar forte “escrutínio antitruste” — expressão usada no mercado americano para descrever a análise rigorosa sobre formação de monopólios. A Paramount vem aproveitando o ponto para ganhar terreno: argumenta que a fusão entre Netflix e Warner uniria o 1º e o 3º serviços de streaming mais utilizados no mundo (Netflix e HBO Max), o que poderia comprometer a concorrência.

O co-CEO da Netflix, Ted Sarandos, por sua vez, tenta desarmar a narrativa citando números da Nielsen — uma das maiores empresas de medição de audiência televisiva. Segundo Sarandos, a Netflix detém 8% do tempo total de uso da TV, ligeiramente abaixo dos 8,2% da Paramount. Por essa métrica, a Netflix estaria apenas na 6ª posição entre os players mais consumidos.

A disputa não envolve apenas dinheiro, mas também multas bilionárias:

  • Se a Paramount vencer, a Warner precisará pagar US$ 2,8 bilhões para romper com a Netflix.
  • Se a Warner seguir com a proposta da Netflix e o acordo for barrado pelos reguladores, a própria Netflix terá de pagar US$ 5,8 bilhões à WBD.

Os valores elevam o nível de tensão e tornam cada etapa do processo uma aposta de alto risco.

A guerra de lances e o futuro dos cinemas

Paramount, Netflix e até a Comcast passaram semanas testando propostas. Desde setembro, a Paramount apresentou sucessivas ofertas — todas rejeitadas antes de a disputa chegar ao público. Agora, com a pressão aos acionistas, o movimento ganhou outra escala.

O portal Deadline afirmou que David Ellison pretende, caso a fusão seja concretizada, lançar mais de 30 filmes por ano nos cinemas. É uma promessa estratégica diante do temor da indústria de que a liderança do streaming enfraqueça o circuito tradicional.

Ted Sarandos tenta responder, afirmando que manterá o “compromisso com os cinemas”, embora admita que quer “ajustar” o período de exibição para atender ao consumo digital.

Enquanto isso, a Paramount enfrenta oscilações nas bilheterias e tenta usar esse momento para reconquistar protagonismo. A empresa enviou uma carta formal à Warner acusando o processo de venda de não seguir um procedimento justo, alegando que o Conselho teria predeterminado a Netflix como vencedora.

Mais do que uma disputa por ativos, a briga expõe a redefinição do poder em Hollywood — com estúdios tradicionais lutando contra plataformas digitais que remodelaram por completo o mercado global de entretenimento.

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