Resumo da Notícia
A crise no Oriente Médio entrou em uma fase ainda mais perigosa, com impacto direto sobre o mercado global de energia, o transporte marítimo e as expectativas para a economia internacional. Em meio à intensificação da guerra iniciada após ataques aéreos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel, o Irã elevou o tom e avisou que o mundo deve se preparar para ver o petróleo a US$ 200 por barril.
A ameaça veio no momento em que embarcações mercantes foram atingidas no Golfo Pérsico, o Estreito de Ormuz seguia sem segurança para navegação e a Agência Internacional de Energia recomendava uma liberação histórica de reservas estratégicas para conter um dos choques mais severos desde a década de 1970.
A declaração iraniana não ocorreu no vazio. Os preços do petróleo, que chegaram perto de US$ 120 por barril no início da semana e depois recuaram para a faixa de US$ 90, voltaram a subir quase 5% nesta quarta-feira (11) diante do temor de novas interrupções no fornecimento global. Ao mesmo tempo, os principais índices de Wall Street recuavam, num sinal claro de que os investidores passaram a enxergar um conflito mais longo e mais custoso do que se imaginava nos primeiros dias.
A preocupação é reforçada pelo peso estratégico do Estreito de Ormuz, canal ao longo da costa iraniana por onde passa cerca de um quinto do petróleo do mundo. Até agora, não há sinais de que os navios possam navegar com segurança pela região. Fontes afirmaram que o Irã teria implantado cerca de uma dúzia de minas no canal, agravando o bloqueio e ampliando o risco de uma disrupção prolongada.
Teerã ameaça prolongar o choque econômico
Foi nesse contexto que Ebrahim Zolfaqari, porta-voz do comando militar do Irã, dirigiu uma mensagem direta a Washington: “Preparem-se para que o petróleo chegue a US$200 o barril, porque o preço do petróleo depende da segurança regional, que foi desestabilizada por vocês“.
A fala resume a estratégia iraniana de transformar o conflito militar em pressão econômica global. As autoridades do país deixaram claro que pretendem impor um desgaste prolongado, atingindo não apenas alvos militares, mas também estruturas com peso financeiro e logístico.
Depois que os escritórios de um banco em Teerã foram atingidos durante a noite, Zolfaqari afirmou que o Irã responderia com ataques a bancos que fazem negócios com os EUA ou Israel. Segundo ele, pessoas em todo o Oriente Médio devem permanecer a mil metros dessas instituições.
Navios atingidos e pressão no Golfo ampliam temor global
No mar, a situação também piorou. Um navio graneleiro de bandeira tailandesa foi incendiado, obrigando a retirada da tripulação. Três pessoas foram dadas como desaparecidas e estariam presas na sala de máquinas. Outras duas embarcações — um porta-contêineres de bandeira japonesa e um graneleiro de bandeira das Ilhas Marshall — também sofreram danos causados por projéteis.
Com isso, chegou a 14 o número de navios mercantes atingidos desde o início da guerra. A Guarda Revolucionária do Irã informou que suas forças dispararam contra embarcações que teriam desobedecido ordens iranianas. O Pentágono, por sua vez, descreveu os ataques aéreos recentes como os mais intensos desde o início da campanha, mas o Irã voltou a lançar ataques contra Israel e outros alvos no Oriente Médio, demonstrando que ainda mantém capacidade de resposta.
EUA, Israel e a dúvida sobre quanto tempo a guerra ainda dura
Embora o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, tenha prometido a continuidade da operação, a mensagem vinda de Washington foi menos linear. Katz declarou que a ofensiva “continuará sem limite de tempo, pelo tempo que for necessário, até atingirmos todos os objetivos e vencermos a campanha“.
Já Donald Trump sinalizou outra leitura ao dizer ao site Axios, por telefone, que não havia “praticamente mais nada” para atingir no Irã. Na mesma conversa, afirmou: “Quando eu quiser que ela termine, ela terminará“.
Horas depois, Trump voltou a falar com jornalistas e disse que forças dos EUA haviam destruído 28 navios iranianos que lançam minas, acrescentando que os preços do petróleo cairiam. Apesar disso, outros sinais apontam para a continuidade do confronto. Um oficial militar israelense disse que o país ainda mantém uma extensa lista de alvos a serem atingidos no Irã, incluindo mísseis balísticos e instalações ligadas à energia nuclear.
Alvos econômicos, temor nos EUA e alerta regional
A dimensão regional da guerra cresceu rapidamente. O Departamento de Estado dos EUA alertou para a possibilidade de o Irã e milícias alinhadas planejarem ataques contra infraestrutura de petróleo e energia de propriedade norte-americana no Iraque. O mesmo alerta menciona que milícias já atacaram hotéis frequentados por norte-americanos em diversas áreas do país, inclusive no Curdistão iraquiano.
A ABC News informou ainda que o FBI havia advertido sobre a possibilidade de drones iranianos atacarem a costa oeste dos Estados Unidos, embora Trump tenha dito que não estava preocupado com uma ação iraniana em solo norte-americano. Em resposta a ameaças contra portos ligados à Marinha iraniana, militares do Irã avisaram que, se essas estruturas forem ameaçadas, centros econômicos e comerciais da região passarão a ser considerados “alvos legítimos”.
Pressão social, funerais e a rotina de uma guerra prolongada
No Irã, a guerra já alterou o cotidiano de forma brutal. Grandes multidões participaram dos funerais de comandantes mortos em ataques aéreos. Os cortejos carregavam caixões, bandeiras e retratos do líder supremo morto, o aiatolá Ali Khamenei, além de imagens de seu filho e sucessor, Mojtaba. Uma autoridade iraniana disse à Reuters que Mojtaba Khamenei sofreu ferimentos leves no início da guerra, quando os bombardeios mataram seu pai, sua mãe, sua esposa e um filho.
Em Teerã, moradores tentam se adaptar aos ataques noturnos, à fuga de centenas de milhares de pessoas para o campo e à fumaça escura do petróleo que encobre a cidade. Em relato à Reuters, Farshid, de 52 anos, resumiu esse sentimento: “Houve bombardeios ontem à noite, mas não fiquei assustado como antes. A vida continua“.
Ao mesmo tempo, a expectativa dos EUA e de Israel de que protestos populares pudessem derrubar o sistema clerical iraniano não se confirmou. O chefe de polícia do Irã, Ahmadreza Radan, lançou um recado duro: “como inimigo, não como manifestante. Todas as nossas forças de segurança estão com os dedos no gatilho“.
AIE recomenda ação histórica para conter choque do petróleo
Diante da escalada, a Agência Internacional de Energia recomendou a liberação de 400 milhões de barris das reservas estratégicas globais, a maior intervenção desse tipo da história, numa tentativa de estabilizar os preços. Washington endossou rapidamente a proposta.
O secretário do Interior dos EUA, Doug Burgum, afirmou à CNBC que empresas petrolíferas norte-americanas deverão anunciar em breve aumento de produção em resposta aos “sinais de preço”.
Ainda assim, o tamanho do problema permanece. A velocidade de liberação das reservas varia de país para país, e o volume projetado representa apenas uma fração do petróleo que normalmente atravessa o Estreito de Ormuz. Na prática, o mercado segue preso entre a promessa de resposta emergencial e o risco concreto de um bloqueio prolongado numa das rotas mais estratégicas do planeta.
Não perca nada!
Faça parte da nossa comunidade: