Resumo da Notícia
A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 podem aumentar os custos de empresas que precisem contratar mais pessoas para manter o mesmo número de horas de funcionamento, mas transformar esse impacto diretamente em aumento de preços é uma conta muito mais complexa. Concorrência, produtividade, margem de lucro, comportamento do consumidor e até o peso dos fornecedores terceirizados serão determinantes para definir quem conseguirá repassar despesas e quem terá de absorvê-las.
A avaliação é de Frederico Zornig, especialista em pricing e CEO da Quantiz Pricing Solutions, ouvido pelo Portal N10 sobre os efeitos econômicos de uma eventual mudança na jornada. A discussão ganhou força depois que a proposta para acabar com a escala 6×1 avançou na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, prevendo redução gradual da jornada máxima semanal, dois dias de descanso remunerado e manutenção dos salários.
Zornig parte de uma situação objetiva: se uma empresa precisa manter a mesma produção ou o mesmo período de atendimento, mas dispõe de menos horas de trabalho por funcionário, pode ser necessário contratar. Nesse caso, o custo para produzir cada unidade ou prestar cada serviço tende a subir, pressionando a margem do negócio.
O problema é que aumentar o preço não depende apenas de o custo ter aumentado.
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“Se uma empresa precisa de mais horas para manter a mesma produção e contratar mais trabalhadores para cobrir a diferença, seu custo unitário de produção sobe. E o custo unitário maior pressiona a margem. A questão é quem tem poder de mercado suficiente para repassar esse custo ao preço final sem perder volume? A maioria das empresas não tem esse poder!”, afirma Zornig.
Essa diferença ajuda a explicar por que uma eventual mudança na jornada não produziria o mesmo efeito em toda a economia. Uma empresa com poucos concorrentes e clientes sem alternativas imediatas possui mais liberdade para reajustar preços. Já um negócio que disputa consumidores em um mercado altamente competitivo corre o risco de perder vendas se tentar simplesmente transferir todo o aumento.
Restaurantes, transporte e mercados pouco concorridos podem ter mais espaço para repasse
Segundo Zornig, setores nos quais a demanda varia pouco mesmo quando o preço aumenta — o que na economia é chamado de demanda inelástica — tendem a ter maior capacidade de repassar custos. O mesmo pode ocorrer quando existem poucos concorrentes ou barreiras elevadas para a entrada de novas empresas.
Ele cita como exemplos determinados restaurantes em regiões com pouca concorrência, serviços de transporte nos quais o consumidor não dispõe de substituto próximo e negócios que atuam em mercados com barreiras relevantes de entrada ou domínio tecnológico.
Nesses casos, um aumento de preço pode provocar menos perda de clientes porque as alternativas disponíveis são limitadas. É diferente de setores nos quais o consumidor consegue comparar ofertas rapidamente e trocar de fornecedor diante de uma diferença pequena de preço.
Zornig observa que empresas com margens historicamente mais elevadas também possuem maior possibilidade de absorver parte do aumento sem transferi-lo integralmente para o consumidor. Entre os exemplos mencionados por ele estão tecnologia, serviços financeiros e segmentos de luxo, além de operações que trabalham com alguma folga ou ociosidade.
A situação é mais delicada no varejo popular e na indústria de produtos pouco diferenciados ou comoditizados. Nesses mercados, as margens costumam ser menores e a sensibilidade dos consumidores ao preço é maior, comprimindo as duas saídas disponíveis: repassar demais pode reduzir vendas; absorver demais pode comprometer a rentabilidade.
A conclusão é que nem mesmo empresas submetidas à mesma mudança trabalhista terão uma resposta econômica uniforme. Estrutura de mercado e capacidade financeira importam tanto quanto o próprio custo da folha.
A conta pode chegar à empresa também pelos fornecedores
Outro ponto levantado pelo especialista é que analisar apenas a folha salarial própria pode subestimar o impacto.
Empresas contratam serviços de limpeza, segurança, transporte, logística, manutenção, atendimento e call center, entre outros. Se esses fornecedores também precisarem ampliar equipes para cumprir a nova jornada, o custo adicional poderá aparecer posteriormente nos contratos cobrados dos clientes.
“Não se limita à folha salarial. Qualquer empresa que terceiriza serviços de limpeza, segurança, logística, manutenção, call center, etc. vai receber reajuste de contrato dos seus fornecedores, pois estes terão exatamente o mesmo problema, precisam cobrir a nova estrutura de custo. Então a pressão se espalha pela cadeia antes mesmo que o produto final chegue ao consumidor.”
Esse efeito não precisa acontecer no mesmo momento. Uma empresa pode sentir primeiro o aumento da própria despesa de pessoal e somente meses depois receber pedidos de reajuste de transportadoras, prestadores de manutenção ou empresas de segurança, conforme cheguem as datas de renovação dos contratos.
Zornig estima que, em determinadas estruturas empresariais, o impacto total sobre o preço final pode chegar a aproximadamente duas vezes o efeito direto da folha, especialmente quando uma parcela elevada dos custos operacionais está terceirizada.
Ele usa como exemplo uma indústria que terceiriza 40% de suas despesas operacionais. O choque poderia surgir primeiro internamente e, depois, nas faturas dos fornecedores.
“Isso torna o efeito inflacionário mais gradual, porém mais persistente e mais difícil de rastrear”, explica.
A estimativa não representa uma regra geral para todas as empresas. O resultado dependerá do peso da terceirização, dos contratos existentes e da capacidade de cada elo da cadeia de absorver ou repassar seus próprios custos.
Inflação não pode ser atribuída automaticamente ao fim da 6×1
Apesar dessa possibilidade de pressão sobre os preços, Zornig considera precipitado afirmar que o fim da escala 6×1 necessariamente provocará inflação.
Antes disso, seria necessário responder a pelo menos três perguntas. A primeira é quantas empresas realmente precisarão contratar mais pessoas e quantas conseguirão reorganizar os turnos com a equipe atual.
“Muitas operações têm ociosidade que nunca é avaliada”, observa.
A segunda questão é a produtividade. Trabalhadores com jornadas menores e mais tempo de descanso podem produzir mais durante cada hora trabalhada, reduzindo parte do custo que inicialmente seria atribuído à diminuição das horas.
“Há evidências de que jornadas mais curtas aumentam a produtividade por hora em vários setores”, afirma.
O terceiro ponto é a reação do consumidor. Mesmo quando a empresa gostaria de repassar integralmente o aumento, a demanda pode não comportar o novo preço. Nesse cenário, a venda cai e parte do ajuste acaba ocorrendo pela redução do volume, e não exclusivamente por inflação.
A combinação desses fatores torna inadequada uma previsão única para toda a economia. Uma atividade poderá contratar mais gente e reajustar preços; outra poderá reorganizar turnos; uma terceira poderá ganhar produtividade suficiente para neutralizar parte da despesa adicional.
Esperar a aprovação definitiva pode sair caro
Para Zornig, empresas que só começarem a analisar esses efeitos depois de uma eventual aprovação definitiva correm o risco de tomar decisões importantes sem tempo para calcular as consequências.
“Empresas que começam a se preparar só depois da aprovação da nova escala vão tomar decisões de preço, de contratação e de mix de produtos sob pressão, sem tempo para fazer as contas direito.”
O problema aparece principalmente na definição dos preços. Uma empresa que tente repassar excessivamente o custo pode perder mercado. No caminho oposto, absorver uma despesa que a margem não suporta pode deteriorar a situação financeira do negócio.
“Decisão de preço tomada sob pressão quase sempre é decisão errada: ou se repassa demais e perde mercado, ou se absorve custo demais e compromete a margem e consequentemente a sustentabilidade financeira do negócio”, afirma.
Na avaliação do executivo, o momento anterior à votação definitiva deveria ser usado para construir cenários. Isso inclui calcular quanto a folha aumentaria em diferentes modelos de escala, identificar produtos e serviços com margem para absorver custos e medir quais categorias suportariam reajustes sem provocar perda acentuada de clientes.
“Quanto a folha cresce em cada hipótese de escala de trabalho? Quais produtos ou serviços têm margem suficiente para absorver o custo sem repassar? Quais precisarão de reajuste e de quanto? Qual é a elasticidade da demanda nas categorias mais expostas? Esse trabalho de modelagem leva algum tempo e exige dados internos que não se levantam em uma ou duas semanas.”
Esse planejamento também permite que a empresa considere alternativas à contratação direta, como reorganização dos horários, revisão de processos e eliminação de ociosidade antes de decidir simplesmente pela transferência do custo ao consumidor.
Mais dias livres podem movimentar turismo, lazer e comércio
O debate sobre a escala 6×1 costuma concentrar-se no custo para o empregador, mas Zornig chama atenção para um efeito do outro lado da relação: quem trabalha também consome.
Dois dias de descanso podem significar mais tempo disponível para restaurantes, cinemas, viagens, compras, eventos e outros serviços. Em determinados segmentos, o aumento da demanda poderia compensar parcialmente o encarecimento da operação.
“Trabalhadores com mais dias livres têm mais tempo para consumir em lazer, serviços, comércio. Em setores como turismo, entretenimento, alimentação e varejo de fim de semana, isso pode gerar um aumento de demanda que compensa parcialmente o aumento de custo.”
Esse possível ganho não significa que o consumo necessariamente crescerá na mesma proporção do tempo livre. A renda disponível das famílias continuará sendo decisiva. Um trabalhador pode ter um dia adicional para lazer sem necessariamente ter dinheiro disponível para gastar mais.
Ainda assim, o especialista considera que esse lado da equação tem recebido atenção menor do que merece.
“O debate foca quase exclusivamente no custo para a empresa e esquece que o trabalhador também é consumidor.”
Para empresas de turismo, entretenimento, alimentação e comércio, portanto, a discussão não deveria se limitar ao aumento da folha. Também será necessário estimar se mudanças nos hábitos dos consumidores poderão abrir novas janelas de receita.
Concorrência com a informalidade pode crescer
Há um segundo efeito que, para Zornig, permanece quase fora da discussão pública: a diferença de custos entre empresas formais e atividades que já operam fora das regras trabalhistas.
Empresas formalizadas terão de cumprir os novos limites de jornada caso a mudança seja definitivamente aprovada. Prestadores informais, por definição, podem continuar funcionando sem assumir os mesmos encargos.
“Empresas formais, sujeitas à nova legislação, terão custo mais alto. Prestadores informais de serviço, que já operam fora das regras trabalhistas, não serão afetados.”
O problema pode ser maior em atividades nas quais o preço pesa fortemente na decisão do consumidor. Zornig menciona pequenos serviços, comércio de bairro e trabalho autônomo como mercados nos quais a diferença de custos pode ampliar a vantagem competitiva de quem está fora da formalidade.
A consequência possível seria justamente uma expansão da informalidade.
“Se isso acontecer de fato, o efeito sobre o mercado de trabalho formal pode ser o oposto do pretendido pela legislação e observarmos aumento da informalidade.”
Assim como o impacto inflacionário, esse cenário não deve ser tratado como consequência inevitável. Dependerá da regulamentação, da fiscalização, da reação das empresas e do comportamento dos próprios trabalhadores.
O ponto levantado por Zornig é outro: a mudança na jornada deve ser analisada como uma alteração que atravessa toda a estrutura econômica da empresa, e não apenas como uma redução mecânica no número de horas. Folha, produtividade, fornecedores, concorrência, consumo, preços e informalidade podem se mover simultaneamente — e nem sempre na mesma direção.
Enquanto a PEC ainda depende das próximas etapas no Senado, as empresas já conseguem calcular o que aconteceria em seus próprios negócios. Para Zornig, esperar a nova jornada virar realidade para descobrir o tamanho da conta é justamente o cenário que mais aumenta a chance de decisões erradas.
