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RN perde US$ 37,3 milhões em exportações aos EUA e recupera só 2% em outros mercados

Análise do comércio exterior potiguar mostra dificuldade para substituir compradores norte-americanos após aumento das tarifas; pescado, granito, castanha, confeitos e sal estão entre os produtos mais afetados.
Porto de Natal
Porto de Natal - Foto: Sandro Menezes/ASSECOM

Resumo da Notícia

  • Produtos do Rio Grande do Norte diretamente afetados pelo tarifaço deixaram de movimentar US$ 37,3 milhões em exportações para os Estados Unidos.
  • Desse volume, apenas cerca de US$ 900 mil foram recuperados com vendas adicionais para outros mercados, o equivalente a aproximadamente 2%.
  • Antes das tarifas, o RN exportava em média US$ 8,7 milhões por mês aos Estados Unidos; durante os três meses de vigência plena da tarifa de 50%, a média caiu para aproximadamente US$ 3 milhões.
  • Atuns, outros pescados, granito trabalhado, castanha de caju, confeitos e sal aparecem entre os produtos com retração relevante.
  • A perda no mercado americano ocorreu apesar de o RN ter registrado recorde geral de exportações no primeiro semestre de 2026, impulsionado principalmente por petróleo, ouro e frutas.

O Rio Grande do Norte conseguiu redirecionar para outros países apenas uma pequena parcela das vendas perdidas nos Estados Unidos após o aumento das tarifas sobre produtos brasileiros. Levantamento elaborado pelo Sebrae-RN aponta que mercadorias potiguares diretamente afetadas pelas barreiras comerciais deixaram de movimentar US$ 37,3 milhões no mercado norte-americano, enquanto somente cerca de US$ 900 mil reapareceram em exportações adicionais para outros destinos.

Na prática, a substituição alcançou pouco mais de 2% da perda identificada. O resultado indica que, para a maior parte dos produtos analisados, a retração das vendas aos Estados Unidos não foi compensada pela abertura imediata de novos mercados.

A análise acompanha o comércio exterior do estado entre 2020 e o primeiro semestre de 2026 e compara o desempenho das mercadorias mais expostas às medidas tarifárias. Pescados, produtos de origem animal, granito, confeitos, castanha de caju e sal estão entre os segmentos nos quais houve redução relevante das vendas ao mercado norte-americano.

A dificuldade confirma um risco que já aparecia quando as primeiras tarifas foram anunciadas. Em julho de 2025, setores produtivos do RN alertavam que a dependência dos Estados Unidos poderia atingir principalmente pesca, sal e outras atividades exportadoras.

Exportação mensal aos EUA caiu de US$ 8,7 milhões para US$ 3 milhões

O efeito aparece com clareza quando se observa a média mensal das exportações potiguares destinadas aos Estados Unidos.

Antes da aplicação das tarifas mais elevadas, o Rio Grande do Norte vendia, em média, US$ 8,7 milhões por mês ao mercado norte-americano. Nos três meses em que a tarifa adicional de 50% esteve plenamente vigente sobre os produtos analisados, essa média caiu para aproximadamente US$ 3 milhões mensais.

Considerando apenas os produtos atingidos pelas medidas, a redução chegou a cerca de 58%.

O fluxo começou a melhorar depois da retirada de parte das barreiras. Na fase de alívio parcial, a média mensal avançou para aproximadamente US$ 3,9 milhões e, posteriormente, atingiu US$ 4,8 milhões.

Mesmo assim, o valor permaneceu 45% abaixo dos US$ 8,7 milhões mensais registrados antes do tarifaço.

Essa diferença mostra que a retirada ou redução das tarifas não significou recuperação automática dos negócios. Contratos interrompidos, fornecedores substituídos e novas relações comerciais construídas pelos importadores durante o período de restrição podem dificultar a retomada dos níveis anteriores.

Atum está entre os produtos que mais perderam mercado

A pesca aparece entre os segmentos mais atingidos no levantamento.

Na comparação dos 11 meses compreendidos entre agosto de 2025 e junho de 2026 com o período anterior, as exportações de atuns frescos registraram perda superior a US$ 7,8 milhões.

O resultado confirma parte das preocupações manifestadas antes da entrada em vigor das tarifas. A indústria pesqueira potiguar é fortemente dependente dos compradores americanos e, ainda em 2025, o setor alertava para o risco de prejuízo milionário e redução da atividade da pesca oceânica.

O levantamento do Sebrae, contudo, faz uma ressalva importante: a redução das vendas de atum também ocorreu em outros mercados. Por isso, não é correto atribuir toda a queda observada no pescado exclusivamente às tarifas norte-americanas.

A deterioração das exportações nesse segmento pode envolver fatores próprios da atividade, além das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos.

Granito, castanha e sal também perderam vendas

Outros produtos apresentaram retrações expressivas no período analisado.

As vendas de granito trabalhado ao mercado norte-americano caíram 94%, enquanto outros peixes frescos registraram redução de aproximadamente 90%. Para produtos de origem animal impróprios para alimentação humana, a queda chegou a 91%.

A castanha de caju teve redução de 77% nas vendas aos Estados Unidos. Nesse caso, houve uma reação mais perceptível em outros mercados: parte das exportações foi direcionada a compradores de países como Peru, Chile, Equador, El Salvador e França.

Ainda assim, o ganho nesses destinos não foi suficiente para compensar integralmente a retração norte-americana.

Os confeitos tiveram queda de aproximadamente 29%, enquanto as exportações de sal marinho recuaram 47%.

Sal produziu mais, mas arrecadou menos

O caso do sal mostra que a consequência das barreiras comerciais não aparece necessariamente como queda imediata da produção.

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No primeiro semestre de 2026, o Rio Grande do Norte exportou cerca de 524,3 milhões de quilos de sal, crescimento de 15,3% em relação aos 454,6 milhões de quilos embarcados no mesmo período de 2025.

Apesar do aumento físico, a receita obtida com o produto caiu 8,2%, para aproximadamente US$ 9,4 milhões.

A diferença ocorreu principalmente pela redução do preço médio das exportações. Com menor capacidade de comercialização para determinados mercados e maior oferta disponível, produtores podem enfrentar pressão sobre preços e margens mesmo sem reduzir imediatamente o volume produzido.

Estados Unidos e Nigéria concentram historicamente a maior parcela das vendas externas do sal potiguar. Entre 2020 e junho de 2026, os dois mercados responderam juntos por 81,3% do valor exportado do produto pelo RN.

Essa concentração torna mais difícil substituir rapidamente o mercado americano. O sal possui valor agregado relativamente baixo e depende fortemente do custo logístico, o que limita a quantidade de países para os quais a exportação é economicamente competitiva.

Por que é tão difícil simplesmente vender para outro país

A perda de um comprador internacional não é compensada apenas pela procura de outro destino.

Uma relação comercial externa envolve contratos, certificações, requisitos sanitários e técnicos, capacidade logística, preço, escala de fornecimento e confiança construída entre empresas. Dependendo do produto, o exportador também precisa adaptar embalagem, documentação ou características da mercadoria às regras do novo país.

Para produtos perecíveis, como pescado e frutas, há ainda limitações relacionadas a tempo de transporte, cadeia de refrigeração e acesso a rotas logísticas adequadas.

É por isso que os US$ 900 mil recuperados em outros países representam uma fração tão pequena dos US$ 37,3 milhões que deixaram de ser vendidos aos Estados Unidos.

A diversificação de mercados funciona melhor quando ocorre antes de uma crise comercial, e não apenas depois que um comprador relevante se torna menos acessível.

RN bateu recorde de exportação mesmo perdendo espaço nos EUA

O impacto americano não significa que o comércio exterior potiguar tenha entrado em retração generalizada.

No primeiro semestre de 2026, o Rio Grande do Norte exportou US$ 639,1 milhões, crescimento de aproximadamente 30% sobre o mesmo período de 2025. As importações chegaram a US$ 242 milhões, produzindo um superávit recorde de US$ 397,1 milhões.

O desempenho foi puxado por três grupos que não dependiam das mesmas condições comerciais enfrentadas pelos produtos atingidos pelo tarifaço.

Petróleo e derivados responderam por US$ 291,1 milhões das exportações. O ouro movimentou US$ 157,5 milhões e as frutas frescas, US$ 105,2 milhões.

Somados, os três grupos representaram cerca de 86,7% de tudo o que o estado exportou no semestre.

O petróleo estava entre os produtos que ficaram fora das tarifas amplas aplicadas anteriormente pelos Estados Unidos, enquanto o ouro potiguar tem Canadá e Suíça entre seus principais mercados. A expansão desses segmentos compensou, na balança comercial geral, as perdas verificadas em setores mais expostos aos compradores americanos.

A concentração também merece atenção. Apenas petróleo e ouro responderam por aproximadamente sete de cada dez dólares exportados pelo RN durante o semestre.

Nova rodada de tarifas mantém pressão sobre exportadores

O cenário comercial voltou a mudar em julho deste ano. Os Estados Unidos adotaram novas sobretaxas sobre grupos de produtos brasileiros, com adicionais de 25% e 12,5%, que podem chegar a 37,5% quando as duas medidas se acumulam.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras aos Estados Unidos são alcançadas pelas novas medidas.

Outros 52,7% permanecem fora das sobretaxas adicionais específicas ou setoriais consideradas no levantamento federal e continuam sujeitos às tarifas ordinárias praticadas pelos Estados Unidos.

A nova ofensiva comercial levou o Brasil a adotar mecanismos de resposta. Em julho, o governo iniciou procedimentos ligados à Lei de Reciprocidade e anunciou medidas de suporte aos exportadores atingidos.

Neste mês, também foi ampliado excepcionalmente o prazo do regime de drawback para empresas prejudicadas pelas tarifas americanas. A medida permite mais tempo para que exportadores cumpram compromissos de venda originalmente assumidos ou busquem outros compradores.

A retração potiguar ocorre dentro de uma redução mais ampla do comércio entre Brasil e Estados Unidos.

As exportações brasileiras ao mercado americano somaram US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 13% em comparação com igual período de 2025. A participação dos Estados Unidos nas vendas externas brasileiras caiu de 12,1% para 9,4% entre os dois primeiros semestres.

No Rio Grande do Norte, o impacto é desigual. Petróleo, ouro e fruticultura sustentaram um primeiro semestre recorde para as exportações estaduais, ao mesmo tempo em que setores mais dependentes dos compradores americanos enfrentaram perdas difíceis de transferir para outros mercados.

A continuidade das novas tarifas torna a diversificação comercial especialmente relevante para pescado, sal, rochas ornamentais e outros produtos cuja presença internacional permanece concentrada em poucos destinos.

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