Luciano Hang diz que ‘varejo brasileiro já está na UTI e o destino é a morte’
Fundador da Havan aponta juros, importações chinesas e dificuldades dos fornecedores como fatores de pressão; 2.466 empresas estiveram em recuperação judicial em 2025.
Resumo da Notícia
- Luciano Hang afirmou que o varejo brasileiro já está “na UTI” e prevê novas dificuldades para empresas e fábricas. O empresário relaciona o quadro aos juros altos, ao crédito caro e à concorrência de produtos importados, principalmente da China.
- O Brasil teve 977 processos de recuperação judicial em 2025, envolvendo 2.466 CNPJs, recorde da série da Serasa Experian. Hang avalia que a situação pode ser ainda maior porque empresas também encerram atividades sem recorrer à recuperação judicial.
- O fundador da Havan alerta para um efeito dominó sobre fabricantes, transportadoras e prestadores de serviço. Ele cita crises de grandes varejistas e afirma observar pressão especialmente forte entre fornecedores da cadeia têxtil.
- A Havan encerrou 2025 com R$ 18,5 bilhões de faturamento e lucro recorde de R$ 3,4 bilhões, além de R$ 4,9 bilhões em caixa e aplicações. A companhia projeta chegar a 203 lojas em 2026 e, no longo prazo, entre 300 e 400 megastores.
O fundador da Havan, Luciano Hang, avalia que o varejo brasileiro atravessa uma crise que ainda pode atingir novas empresas, fornecedores e indústrias. Em entrevista publicada pela Exame neste sábado (5), o empresário associou o cenário aos juros elevados, à fragilidade financeira de parte do setor e, principalmente, à concorrência com produtos importados da China.
“O varejo nacional já está mal, já está na UTI”, afirmou Hang. Na avaliação dele, muitas empresas brasileiras ainda podem encerrar atividades, inclusive fábricas que abastecem o comércio.
A declaração ocorre em um momento de aumento das recuperações judiciais. Dados da Serasa Experian mostram que 977 processos foram registrados em 2025, envolvendo 2.466 CNPJs, maior número de empresas da série histórica. No primeiro trimestre de 2026, segundo os números citados pela Exame, houve outros 194 pedidos.
Hang considera que nem mesmo esses números mostram toda a extensão das dificuldades porque empresas também podem fechar sem recorrer à recuperação judicial. Para ele, os próximos meses tendem a revelar um quadro ainda mais difícil.
Uma das principais críticas do empresário está relacionada à tributação das compras internacionais de baixo valor. Hang argumenta que empresas instaladas no Brasil suportam uma carga tributária e custos operacionais superiores aos enfrentados por determinados produtos comprados diretamente de plataformas estrangeiras.
Segundo ele, quando a própria Havan importa mercadorias, a carga total envolvida pode variar entre 80% e 120%, enquanto produtos chineses vendidos por outros canais chegam ao consumidor brasileiro em condições tributárias muito mais favoráveis. Ao descrever essa competição, classificou a situação como “uma carnificina”.
A crítica ocorre após a mudança na chamada taxa das blusinhas. O imposto federal de importação sobre remessas de até US$ 50 foi zerado, medida cujo impacto sobre o varejo brasileiro já havia sido analisado pelo Portal N10.
A isenção, porém, não significa ausência total de tributação sobre essas compras: o ICMS estadual continua incidindo sobre as remessas internacionais. A medida que alterou o imposto federal, a MP 1.357/2026, foi aprovada pelo Congresso e encaminhada para sanção presidencial em 4 de setembro.
Na avaliação de Hang, a política tributária deveria oferecer condições semelhantes aos dois lados. Ele sustenta que reduzir impostos sobre produtos estrangeiros sem uma redução correspondente para as empresas brasileiras aumenta a diferença de competitividade e transfere parte da produção e dos empregos para outros países.
Crise de grandes redes atinge fornecedores e indústrias
Hang também chama atenção para um efeito que ultrapassa as empresas que entram diretamente em recuperação judicial. Quando uma grande varejista perde capacidade de pagamento, segundo ele, fabricantes, transportadoras e prestadores de serviço ligados à operação também passam a enfrentar dificuldades.
O empresário mencionou Casas Bahia, Americanas e Marabraz como exemplos de crises empresariais capazes de afetar uma rede extensa de fornecedores.
Em agosto, o Grupo Casas Bahia pediu recuperação judicial para reestruturar R$ 17,3 bilhões em passivos. O processo envolve a holding e nove empresas relacionadas. No mesmo período, a Marabraz recorreu à recuperação judicial com aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas.
Hang afirma perceber essa pressão diretamente entre fornecedores da Havan, sobretudo na cadeia têxtil, setor com o qual a companhia mantém forte relação comercial. Segundo o empresário, parte dessas empresas está sendo comprimida simultaneamente pelo crédito caro, pela competição com importados e pela dificuldade de repassar custos.
A avaliação de Hang é de que algumas delas não terão estrutura financeira suficiente para atravessar os próximos meses e anos se o cenário persistir.
Havan tem R$ 4,9 bilhões em caixa e lucro recorde
A situação financeira apresentada pela Havan é diferente daquela observada nas varejistas em recuperação judicial. A empresa encerrou 2025 com R$ 18,5 bilhões de faturamento e R$ 3,4 bilhões de lucro, resultado 28% superior ao registrado no ano anterior.
A companhia tinha R$ 678 milhões em dívida bruta, além de R$ 4,9 bilhões em caixa e aplicações financeiras. Segundo Hang, a Havan não possui atualmente débitos bancários e financia a expansão com recursos próprios.
O empresário afirma que essa estratégia começou há cerca de dez anos. Depois das dificuldades enfrentadas pelo varejo em 2015 e 2016, ele decidiu desacelerar investimentos, reduzir a dependência de bancos e fortalecer o caixa antes de voltar a expandir a rede.
Outro dado destacado por Hang é a origem das mercadorias: 90% dos produtos fornecidos à Havan vêm atualmente da indústria nacional. Esse vínculo ajuda a explicar por que ele associa a situação dos fabricantes brasileiros à própria saúde do varejo.
Agora, com uma posição financeira mais confortável, a Havan voltou a acelerar a expansão. A previsão é chegar a 203 lojas ainda em 2026. Hang afirma enxergar potencial para uma rede de 300 a 400 megastores no Brasil, mantendo um ritmo próximo de dez novas unidades por ano.


