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El Niño muito forte põe safra 2026/27 em alerta e eleva risco para contratos, crédito e preços

Especialistas ouvidos pelo N10 apontam risco de perdas de produtividade, pressão sobre caixa e contratos e necessidade de reforçar seguro, armazenagem e gestão; NOAA vê mais de 90% de chance de evento muito forte.
El Niño pode atingir produtores, bancos e preços dos alimentos
El Niño pode atingir produtores, bancos e preços dos alimentos - Crédito: Adobe Stock

Resumo da Notícia

  • O El Niño de 2026 segue em rápida intensificação, e a NOAA aponta probabilidade superior a 90% de um evento muito forte durante parte da primavera e do verão.
  • Especialistas ouvidos pelo N10 avaliam que o risco para a safra 2026/27 não se limita à produtividade: pode atingir fluxo de caixa, armazenagem, logística, crédito e contratos de venda antecipada.
  • Soja e milho estão entre as culturas que exigem acompanhamento, principalmente porque uma perda localizada pode comprometer produtores mais endividados ou que já venderam parcela relevante da produção futura.
  • No campo jurídico, uma ocorrência climática extrema não transforma automaticamente o descumprimento contratual em força maior; cada situação depende do contrato, das circunstâncias e da possibilidade de evitar ou mitigar o dano.
  • Choques na oferta agrícola também podem chegar ao consumidor por meio dos preços dos alimentos, aumentando o risco de pressão sobre a inflação caso perdas relevantes efetivamente se materializem.

O fortalecimento acelerado do El Niño acrescenta uma camada de risco à safra brasileira 2026/2027 que vai muito além da quantidade de soja, milho ou outros produtos que poderão sair do campo. Especialistas ouvidos pelo N10 apontam possíveis reflexos sobre receita dos produtores, endividamento, crédito, contratos, armazenagem e preços dos alimentos caso os extremos climáticos se confirmem nas principais regiões produtoras.

O alerta ganhou peso nas últimas semanas. O Instituto Nacional de Meteorologia informou, com base na atualização da NOAA, que existe probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte nos trimestres setembro-outubro-novembro, outubro-novembro-dezembro e novembro-dezembro-janeiro.

Segundo o órgão, há ainda 69% de probabilidade de o episódio ser o mais intenso registrado desde 1950. O fenômeno começou em junho e deve persistir pelo menos até março de 2027.

É nesse contexto que o termo “Super El Niño” ganhou espaço fora da linguagem técnica. Os órgãos meteorológicos, entretanto, utilizam classificações como forte ou muito forte, e não “Super El Niño” como categoria oficial.

Safra começa com uma variável de risco a mais

Para Ieda Queiroz, coordenadora da área de agronegócios do CSA Advogados, o ciclo 2026/27 começa em uma situação que exige maior cautela justamente porque os efeitos climáticos podem se combinar a dificuldades financeiras já existentes.

A perspectiva de um El Niño de forte intensidade acrescenta um novo fator de risco a uma safra que já começa cercada de cautela.”

Segundo ela, entre os principais pontos de atenção estão redução de produtividade, perda de qualidade, elevação dos custos de produção e eventual comprometimento da segunda safra, especialmente a de milho.

O impacto, porém, dificilmente será uniforme no país. O El Niño altera a circulação atmosférica e tende a produzir respostas diferentes de acordo com região, período e cultura.

No Brasil, o INMET prevê maior probabilidade de chuvas acima da média no Sul, enquanto Norte e Nordeste podem enfrentar precipitação mais irregular e abaixo da média a partir de outubro.

A própria intensidade do fenômeno não permite concluir antecipadamente que haverá uma quebra nacional de safra. O que ela produz é um aumento do risco de extremos, cuja consequência dependerá de onde e quando ocorrerem.

A safra atual ajuda a dimensionar o tamanho econômico desse risco. A Conab estima 360,8 milhões de toneladas de grãos na temporada 2025/26, que ainda está sendo finalizada. O próximo ciclo começa, portanto, sobre uma base produtiva elevada.

Para produtor endividado, uma perda localizada pesa mais

Ieda chama atenção para uma diferença que pode ser decisiva: duas propriedades submetidas ao mesmo problema climático podem sofrer consequências financeiras completamente distintas.

Um produtor capitalizado pode atravessar uma perda pontual de safra; para aquele que já carrega dívidas de ciclos anteriores, enfrenta crédito mais caro e comprometeu parcela relevante da produção futura, a mesma perda pode representar um problema de liquidez e solvência.”

Esse efeito é especialmente importante quando parte da safra é vendida antecipadamente.

O produtor pode utilizar contratos futuros para reduzir exposição às oscilações de preços e garantir receita, mas assume em contrapartida uma obrigação de entregar determinado volume.

Se uma seca, excesso de chuva ou outro evento reduz drasticamente a produção, o problema deixa de ser apenas agronômico. Pode surgir também uma obrigação contratual sem produto suficiente para ser cumprida.

A situação torna ainda mais relevante o dimensionamento da produção antes da comercialização antecipada.

Evento climático não cancela contrato automaticamente

É justamente nesse ponto que surge um dos riscos menos visíveis do El Niño.

Frederico Favacho, sócio da área de agronegócios do Santos Neto Advogados, afirma que produtores não devem partir da premissa de que uma ocorrência climática grave será suficiente, por si só, para afastar obrigações assumidas anteriormente.

O Super El Niño pode reduzir a produtividade e isso pode significar impacto no cumprimento dos contratos.”

Segundo Favacho, eventos climáticos fazem parte dos riscos que precisam ser considerados na atividade agrícola, especialmente quando existem mecanismos de mitigação, como seguro e instrumentos de proteção da produção.

A questão jurídica merece uma distinção importante.

O artigo 393 do Código Civil prevê que o devedor não responde pelos prejuízos decorrentes de caso fortuito ou força maior quando seus efeitos não poderiam ser evitados ou impedidos, salvo quando tiver assumido essa responsabilidade.

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Isso significa que não existe uma resposta automática válida para todos os contratos agrícolas. A existência de El Niño, seca ou excesso de chuva, isoladamente, não resolve a discussão.

É necessário analisar o contrato, o evento concreto, o grau de imprevisibilidade ou inevitabilidade, a região atingida, as providências adotadas pelo produtor e o nexo entre o fenômeno e a impossibilidade de cumprir a obrigação.

Por isso, Favacho recomenda cautela principalmente a quem comercializa antecipadamente volumes expressivos da produção.

Armazenagem e logística também entram na conta

Nem todas as perdas associadas a um evento climático ocorrem enquanto a planta está no campo.

Pedro Sobreira, diretor técnico-operacional da Eco Inventory, chama atenção para os riscos relacionados a máquinas, estoques, silos, armazéns e continuidade operacional.

A empresa rural e a agroindústria precisam saber exatamente o que possuem, onde está cada ativo e qual é o nível real de estoque para reagir rapidamente a eventos climáticos extremos.”

A preocupação ganha relevância em situações de chuva intensa, alagamento, temperaturas extremas, interrupção de estradas ou dificuldades no acesso a instalações.

Ter controle atualizado do estoque e da localização dos ativos não impede o evento climático, mas reduz o tempo necessário para decisões como transferência de insumos, proteção de equipamentos, reorganização da logística ou movimentação da produção armazenada.

Sobreira também chama atenção para a rastreabilidade como instrumento de gestão. Em um cenário de interrupção parcial da operação, informações incorretas sobre estoques podem agravar perdas que originalmente não vieram da lavoura.

O próprio Plano Safra 2026/2027 prevê recursos para modernização de propriedades, armazenagem, irrigação e instrumentos de gestão de risco. Para a agricultura empresarial, estão programados R$ 525,1 bilhões em crédito durante o ciclo.

Clima pode aumentar risco para quem concede crédito

O problema também alcança bancos, cooperativas e outros financiadores do setor.

Quando uma quebra de produção reduz a receita, aumenta a possibilidade de dificuldade no pagamento do custeio e das parcelas de investimentos anteriores. O risco é maior quando problemas climáticos atingem produtores que já chegam ao novo ciclo com endividamento elevado.

Isso não significa que a intensificação do El Niño produzirá necessariamente uma onda de inadimplência. A transmissão depende da extensão das perdas, preços recebidos pelo produtor, existência de seguro, estrutura de capital e capacidade de renegociação.

Mas o risco climático passa a integrar com maior peso a avaliação do financiamento.

O próprio desenho do Plano Safra inclui seguro rural e Proagro entre os instrumentos de gestão de risco, justamente porque produtividade e capacidade de pagamento estão diretamente relacionadas.

Uma eventual perda de produção também pode atravessar a cadeia e chegar ao consumidor.

A relação não é imediata: preços dependem de safra doméstica e internacional, estoques, câmbio, exportações, logística e demanda. Ainda assim, uma redução relevante da oferta de determinados alimentos tende a criar pressão de alta.

A discussão já aparece nas projeções de inflação. Uma análise recente sobre o impacto potencial do El Niño nos alimentos mostrou que produtos com ciclos menores e maior sensibilidade ao clima podem responder rapidamente a choques de temperatura e precipitação.

Esse movimento importa porque alimentação tem peso significativo no orçamento das famílias e no IPCA.

A ocorrência de inflação alimentar mais persistente também pode interferir nas expectativas econômicas e, indiretamente, nas condições financeiras. Mas seria prematuro atribuir ao El Niño uma alta futura específica da inflação ou antecipar uma reação do Banco Central antes que os efeitos sobre produção e preços efetivamente apareçam.

El Niño já é muito forte, mas impacto ainda será regional

O avanço do fenômeno em 2026 está documentado.

A NOAA confirmou a formação do El Niño em junho, e as atualizações seguintes aumentaram substancialmente a expectativa sobre sua intensidade.

A Organização Meteorológica Mundial também informa que um El Niño forte está se intensificando e deverá influenciar os padrões globais de temperatura e chuva ao longo dos próximos meses.

Ao mesmo tempo, a temperatura média da superfície dos mares atingiu novos extremos em agosto, conforme mostrou o monitoramento recente das temperaturas oceânicas. Os dois fenômenos precisam ser interpretados corretamente: o El Niño adiciona calor e altera padrões atmosféricos, mas ocorre sobre um planeta e oceanos que já apresentam aquecimento de longo prazo.

Para o agronegócio, portanto, a questão central neste momento não é afirmar antecipadamente quanto será perdido na safra 2026/27. É reduzir exposição antes de os extremos acontecerem.

Seguro compatível com a operação, cautela na venda antecipada, revisão dos contratos, controle do endividamento, capacidade de armazenagem e informação precisa sobre estoques e ativos tornam-se mais relevantes à medida que o risco climático cresce.

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