Resumo da Notícia
O Grupo Casas Bahia protocolou na noite de domingo (16) um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo, envolvendo a companhia e outras nove empresas do grupo. Segundo a petição apresentada à Justiça, os passivos submetidos ao processo somam R$ 17,3 bilhões.
O fato relevante encaminhado pela companhia à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) confirma que o pedido foi aprovado pelo Conselho de Administração e pelo acionista controlador e protocolado no Juízo de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo.
A Casas Bahia atribuiu a decisão à deterioração de suas condições financeiras, em um cenário de juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos financeiros e pressão sobre o consumo e o capital de giro. A empresa também informou que alternativas de liquidez que vinham sendo negociadas não foram concretizadas.
Apesar do pedido, a companhia afirma que pretende manter normalmente as operações em seus canais de venda, incluindo lojas físicas e comércio eletrônico, sem interrupções relevantes no atendimento aos consumidores.
Adicione o Portal N10 às suas Fontes Preferidas e acompanhe nosso perfil para receber mais notícias quando o assunto estiver em alta.
Pedido reúne dez empresas e R$ 17,3 bilhões em passivos
Além do Grupo Casas Bahia S.A., foram incluídas no pedido:
- ASAP Log – Logística e Soluções Ltda.;
- ASAP Log Ltda.;
- CNT Soluções em Negócios Digitais e Logística Ltda.;
- Cntlog Express Logística e Transporte Ltda.;
- Globex Administração e Serviços Ltda.;
- Cnova Comércio Eletrônico S.A.;
- Integra Soluções para Varejo Digital Ltda.;
- Casas Bahia Tecnologia Ltda.;
- Indústria de Móveis Bartira Ltda.
De acordo com a petição judicial, dos R$ 17,3 bilhões em passivos, aproximadamente R$ 16,4 bilhões correspondem a créditos quirografários, que não possuem garantia real. Outros R$ 754 milhões são créditos trabalhistas e cerca de R$ 154 milhões envolvem microempresas e empresas de pequeno porte.
Como o ajuizamento foi aprovado em caráter de urgência, a decisão também será submetida à ratificação dos acionistas em uma Assembleia Geral Extraordinária, que ainda será convocada.
O protocolo do pedido não significa, por si só, que o processamento da recuperação judicial já tenha sido deferido. Cabe à Justiça analisar o cumprimento dos requisitos previstos na Lei nº 11.101/2005.
Prejuízo de R$ 10,1 bilhões antecedeu o pedido
A recuperação judicial foi requerida logo após a divulgação do balanço do segundo trimestre de 2026. Entre abril e junho, o Grupo Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,117 bilhões, ante perda de R$ 555 milhões no mesmo período de 2025.
Do resultado negativo, cerca de R$ 9,1 bilhões decorreram de efeitos contábeis não recorrentes, sem saída de caixa no trimestre. Excluídos esses efeitos, o prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões.
Entre os principais ajustes está uma baixa de R$ 5,7 bilhões em créditos tributários diferidos, além de provisões, revisão do valor de ativos, despesas com reorganização de pessoal, fechamento de lojas e outros custos relacionados à reestruturação.
A receita líquida avançou 1,6% na comparação anual, chegando a R$ 6,98 bilhões. Já o volume bruto de mercadorias das vendas online próprias, o chamado GMV 1P, cresceu 15,3% e alcançou R$ 2,83 bilhões.
Captação internacional não foi concluída
Nos documentos do segundo trimestre, a companhia detalhou as tentativas realizadas para reforçar o caixa antes de recorrer à recuperação judicial. A administração manteve reuniões com investidores no Brasil, Estados Unidos e Europa e avaliou diferentes alternativas de captação, incluindo uma operação de grande porte com investidores internacionais.
Essa negociação chegou a estágio avançado, mas não foi concluída após a desistência do investidor âncora. Alternativas de curto prazo, incluindo empréstimos-ponte e novas linhas de crédito, também não avançaram nas condições pretendidas pela empresa.
No fato relevante de domingo, a Casas Bahia citou expressamente a não concretização dessas alternativas de liquidez entre os fatores que levaram ao pedido de recuperação.
Fechamento de 298 lojas integrou reestruturação
O processo é apresentado pela companhia como parte da segunda fase do Plano de Transformação iniciado em 2023. O grupo reduziu estoques, despesas e sua estrutura física para concentrar recursos em lojas, canais e categorias considerados mais rentáveis.
Segundo as demonstrações financeiras do segundo trimestre, a empresa concluiu o fechamento de 298 lojas dentro dessa etapa de reorganização.
A redução atingiu de forma relevante o Rio Grande do Norte. Pelo menos cinco lojas da Casas Bahia foram fechadas no RN, com encerramentos confirmados em Natal, Mossoró e Caicó.
A atual recuperação judicial ocorre pouco mais de dois anos depois de outra grande renegociação de dívidas.
Em abril de 2024, o Grupo Casas Bahia protocolou na CVM um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente R$ 4,1 bilhões em créditos sujeitos ao plano. A recuperação extrajudicial foi posteriormente homologada pela Justiça.
A recuperação judicial agora solicitada tem alcance maior e envolve também obrigações operacionais, trabalhistas e outros credores incluídos na petição.
Mudanças na administração
No mesmo dia do anúncio da recuperação judicial, o grupo comunicou mudanças na alta administração. Fábio Spina deixou a vice-presidência Jurídica e Tributária, mas continuará prestando consultoria à companhia durante a reestruturação.
A área passa a ser comandada por Sírley Lima, executiva com mais de 20 anos de experiência e passagens por Heineken, Pernod Ricard, Souza Cruz e EY.
Também renunciaram ao Conselho de Administração Jackson Schneider e Rogério Calderón. Cláudia Quintella Woods passa a integrar o Comitê de Auditoria Estatutário, enquanto André Luiz Helmeister assume uma posição no Comitê de Finanças. Schneider continuará coordenando o Comitê de Auditoria, Riscos e Compliance e o Comitê Independente de Investigação.
A Casas Bahia declarou que pretende utilizar a recuperação judicial para reestruturar e alongar dívidas financeiras e operacionais, ao mesmo tempo em que mantém suas atividades.
A próxima etapa central é a análise do pedido pela Justiça de São Paulo. A companhia também terá de realizar a Assembleia Geral Extraordinária para ratificar a decisão tomada em caráter de urgência pelo Conselho de Administração.
Até a manhã desta segunda-feira (17), não foi localizada decisão pública deferindo o processamento da recuperação judicial.
