Focus reduz inflação para 4,9% e mercado espera Selic em 13,75% nesta semana
Projeção do IPCA cai abaixo de 5% pela primeira vez desde maio, enquanto estimativa para o PIB recua a 1,89%; Copom decide os juros na quarta-feira.
Resumo da Notícia
- O mercado financeiro reduziu de 5% para 4,90% a projeção do IPCA de 2026 no Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira (14).
- Apesar da melhora, a estimativa continua acima do limite superior da meta de inflação, de 4,5%.
- A previsão para o crescimento do PIB caiu de 1,93% para 1,89%, enquanto o dólar permaneceu estimado em R$ 5,20 no fim do ano.
- A mediana do Focus aponta a Selic em 13,75% ao ano, nível que pode ser alcançado já nesta quarta-feira caso o Copom confirme um novo corte de 0,25 ponto percentual.
O mercado financeiro voltou a reduzir a expectativa para a inflação brasileira em 2026 e passou a projetar o IPCA em 4,90%, segundo o Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira (14) pelo Banco Central. Na semana anterior, a mediana estava em 5%.
É a primeira vez desde maio que a projeção cai abaixo da marca de 5%. O movimento ocorre depois de o IPCA registrar deflação de 0,32% em agosto e desacelerar de 4,44% para 4,22% no acumulado de 12 meses.
A melhora, contudo, não significa que a inflação projetada esteja dentro da meta. O objetivo definido pelo Conselho Monetário Nacional é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Na prática, o limite superior é de 4,5%, ainda 0,4 ponto abaixo da projeção atual do mercado.
A nova rodada trouxe sinais diferentes para preços e atividade econômica. Enquanto a expectativa para o IPCA melhorou, a projeção de crescimento da economia foi revisada para baixo.
| Indicador | Semana anterior | Focus de 14/09 |
|---|---|---|
| IPCA 2026 | 5,00% | 4,90% |
| PIB 2026 | 1,93% | 1,89% |
| Selic no fim de 2026 | 13,75% | 13,75% |
| Dólar no fim de 2026 | R$ 5,20 | R$ 5,20 |
| IPCA 2027 | 4,29% | 4,30% |
| PIB 2027 | 1,50% | 1,45% |
O recuo do PIB de 1,93% para 1,89% reforça a percepção de perda de ritmo da atividade econômica. Para 2027, a estimativa também caiu, de 1,50% para 1,45%.
A inflação projetada para o próximo ano, por outro lado, foi ligeiramente revisada para cima, de 4,29% para 4,30%. Isso ajuda a explicar por que, mesmo com a melhora recente dos preços, o espaço para reduções mais aceleradas dos juros ainda é tratado com cautela.
Selic pode chegar a 13,75% nesta quarta-feira
O Comitê de Política Monetária se reúne nesta terça (15) e quarta-feira (16). A Selic está atualmente em 14% ao ano, depois de quatro cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual.
A mediana das expectativas aponta uma nova redução da mesma magnitude, para 13,75%. Se confirmada, será a quinta queda consecutiva da taxa básica.
Esse nível coincide com a projeção do Focus para o encerramento de 2026. Na prática, isso significa que o mercado não espera, neste momento, novos cortes depois da reunião desta semana.
É uma mudança importante em relação ao quadro observado no início de agosto. Naquela ocasião, quando a projeção de inflação ainda estava acima de 5% e o mercado começava a enxergar a Selic em 13,75%, havia mais incerteza sobre quantas reduções seriam necessárias até dezembro.
Agora, o cenário predominante é de que o Banco Central faça o ajuste já nesta reunião e mantenha a taxa nesse nível pelo restante do ano.
Por que a inflação corrente está em 4,22%, mas o Focus prevê 4,90%?
Os dois números medem coisas diferentes.
Os 4,22% correspondem à inflação efetivamente acumulada nos 12 meses encerrados em agosto. Já os 4,90% representam a expectativa dos economistas para o IPCA acumulado entre janeiro e dezembro de 2026.
Isso significa que a inflação pode estar atualmente dentro do intervalo de tolerância da meta e, ainda assim, terminar dezembro acima do teto de 4,5%.
Parte da queda observada em agosto também teve origem em fatores temporários. A energia elétrica residencial recuou com um desconto relacionado à distribuição do resultado da usina de Itaipu, enquanto transportes e alimentos também apresentaram redução de preços.
O efeito não necessariamente se repete nos próximos meses, razão pela qual o Banco Central costuma olhar não apenas o índice cheio, mas também medidas de inflação subjacente e projeções para horizontes mais longos.
O que um corte de 0,25 ponto muda para quem tem dinheiro aplicado ou precisa de crédito?
Uma redução da Selic de 14% para 13,75% é pequena quando observada isoladamente, mas faz parte de um processo acumulado de redução dos juros.
Para investimentos que acompanham de perto a taxa básica, como parte dos títulos pós-fixados e aplicações referenciadas no CDI, a tendência é de uma remuneração marginalmente menor à medida que a Selic cai.
No crédito, o efeito é menos direto. Uma redução de 0,25 ponto na Selic não significa que financiamento imobiliário, empréstimo pessoal, cheque especial ou cartão ficarão automaticamente 0,25 ponto mais baratos. As taxas cobradas do consumidor também incluem risco de inadimplência, impostos, custos administrativos e margem das instituições financeiras.
Os efeitos costumam aparecer gradualmente, principalmente em linhas de crédito de prazo mais longo e em operações nas quais o custo de captação do banco tem peso maior.
Copom ainda precisa avaliar petróleo, câmbio e inflação de serviços
O cenário para a reunião desta semana não depende apenas do IPCA de agosto. O Banco Central também acompanha a inflação de serviços, atividade econômica, mercado de trabalho, política fiscal e câmbio.
Há ainda um fator externo importante: o petróleo voltou a superar US$ 100 por barril diante do agravamento das tensões no Oriente Médio. Uma alta persistente da commodity pode pressionar combustíveis, transporte e outros custos da economia, criando um risco adicional para a inflação nos meses seguintes.
Ao mesmo tempo, a atividade econômica mostra sinais de desaceleração, o que reduz parte das pressões de demanda e favorece a continuidade da flexibilização monetária.
O calendário oficial do Banco Central prevê a reunião do Copom para 15 e 16 de setembro. A decisão sobre a Selic será conhecida na quarta-feira, e a ata com a explicação detalhada do colegiado será divulgada em 22 de setembro.


