Resumo da Notícia
A localização continua pesando no preço de um imóvel, mas deixou de ser suficiente para garantir sua valorização. Arquitetura, aproveitamento dos espaços, contato com a natureza, sustentabilidade e capacidade de atender diferentes momentos da rotina ganharam importância na decisão de compradores e investidores.
Ao Portal N10, o arquiteto e CEO da Rocha Real, Patrick Romann, afirmou que o mercado imobiliário atravessa uma mudança estrutural. O comprador já não observa apenas o endereço, a metragem e a quantidade de quartos. Ele também avalia como será viver naquele espaço.
“Hoje, o comprador não procura apenas metragem ou uma boa localização. Ele busca uma experiência de morar, um imóvel que ofereça qualidade de vida, bem-estar e identidade”, explicou.
A transformação acontece em um período de valorização do setor. O Índice FipeZAP encerrou 2025 com alta média de 6,52% nos preços anunciados dos imóveis residenciais, a segunda maior variação anual dos últimos 11 anos. O resultado ficou acima do IPCA de 4,26%, inflação oficial calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
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Calculado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, o Índice FipeZAP acompanha os preços anunciados de apartamentos prontos em até 56 cidades brasileiras, incluindo 22 capitais.
Localização continua importante, mas perdeu exclusividade
Endereço, infraestrutura urbana, segurança, acesso a serviços e facilidade de deslocamento permanecem entre os principais critérios de compra. A diferença é que imóveis situados na mesma região podem ser percebidos de formas distintas quando apresentam projetos, distribuições internas e níveis de conforto diferentes.
Na avaliação de Romann, a pandemia acelerou essa mudança ao consolidar o trabalho remoto e reduzir, para parte da população, a necessidade de morar perto dos grandes centros empresariais.
Com mais liberdade para escolher onde viver, moradores e investidores passaram a observar cidades de médio porte e regiões litorâneas não apenas como destinos de férias, mas como opções permanentes de moradia.
“As pessoas deixaram de procurar apenas uma casa para os finais de semana ou férias. Elas querem ambientes capazes de atender diferentes momentos da rotina: trabalhar, receber amigos, conviver com a família e descansar no mesmo espaço”, afirmou.
Essa nova dinâmica aumentou a procura por imóveis versáteis. Escritórios domésticos, ambientes integrados, varandas utilizáveis e áreas externas deixaram de ser vistos como elementos secundários em muitos projetos.
Arquitetura passou a influenciar diretamente a percepção de valor
Iluminação natural, ventilação, paisagismo, integração entre ambientes e aproveitamento das áreas externas estão entre os fatores que ganharam peso na escolha de um imóvel.
Um projeto bem resolvido não depende apenas de uma grande área construída. A distribuição dos cômodos e a maneira como os moradores circulam entre eles podem fazer um apartamento compacto parecer confortável ou transformar uma residência ampla em um espaço pouco funcional.
“Um bom projeto não organiza apenas os ambientes, ele cria experiências. Quando o usuário se identifica com o espaço, percebe conforto e funcionalidade, isso aumenta tanto o interesse pela compra quanto o potencial de rentabilidade em locações”, disse Romann.
A avaliação também se aplica ao mercado de aluguel por temporada. Nesse segmento, fotografias atraentes ajudam a despertar interesse, mas o desempenho do imóvel depende da experiência encontrada pelo hóspede.
Ambientes pouco funcionais, mal iluminados ou sem privacidade podem prejudicar as avaliações, mesmo quando o imóvel apresenta boa aparência nos anúncios. Por outro lado, espaços planejados para o público que será recebido tendem a favorecer a ocupação e a possibilidade de novas reservas.
Arquitetura afetiva aproxima o imóvel de seus moradores
Outro conceito que avançou no mercado é o de arquitetura afetiva, baseada na incorporação das histórias, dos hábitos e das referências dos moradores ao projeto.
A personalização pode aparecer na organização da cozinha, na criação de áreas para convivência familiar, na preservação de móveis ou objetos e na escolha de materiais ligados às memórias de quem ocupará o espaço.
“O cliente chega com lembranças, referências e expectativas muito particulares. O papel da arquitetura é transformar esse repertório em espaços que façam sentido para quem vai viver ali”, afirmou o arquiteto.
Essa identidade pode aumentar a ligação emocional entre o morador e a residência. O desafio é equilibrar personalização e flexibilidade, evitando ambientes tão específicos que dificultem adaptações futuras ou reduzam o interesse de outros compradores.
Sustentabilidade reduz custos e aumenta a atratividade
A sustentabilidade também deixou de ocupar um papel apenas conceitual nos projetos. Soluções ambientais podem reduzir despesas mensais, melhorar o conforto térmico e diminuir a necessidade de intervenções ao longo da vida útil da construção.
Entre as medidas destacadas por Romann estão a ventilação cruzada, o aproveitamento da iluminação natural, o reaproveitamento de água, a eficiência energética e a integração entre espaços internos e externos.
Esses recursos podem reduzir o uso de iluminação artificial e aparelhos de climatização, além de tornar o imóvel mais confortável em períodos de calor. Quando incorporadas desde a concepção do projeto, as soluções costumam funcionar melhor do que adaptações realizadas depois da obra concluída.
Compradores também passaram a considerar os custos que surgem após a assinatura do contrato. Um imóvel com preço inicial mais baixo pode perder atratividade quando exige reformas extensas, apresenta consumo elevado de energia ou possui espaços que precisam ser completamente modificados.
Imóvel valorizado precisa funcionar no cotidiano
Para identificar o potencial de um imóvel, o comprador precisa olhar além do acabamento e da aparência apresentada no anúncio. Orientação solar, ventilação, circulação interna, privacidade, estado das instalações e possibilidade de adaptação devem entrar na análise.
Um projeto visualmente atraente, mas inadequado à rotina dos moradores, pode perder valor percebido rapidamente. Da mesma forma, um imóvel sem grandes elementos de luxo pode se destacar quando oferece conforto, manutenção simples e ambientes bem distribuídos.
Na avaliação de Patrick Romann, os imóveis mais competitivos são aqueles que conseguem reunir boa arquitetura, paisagismo, sustentabilidade e funcionalidade sem tratar cada característica de forma isolada.
Quando esses elementos trabalham em conjunto, o resultado deixa de ser apenas uma construção bonita. O imóvel se torna mais adequado à rotina, mais desejado por compradores e inquilinos e mais preparado para preservar seu valor ao longo do tempo.
