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Comprar imóvel em leilão vale a pena? Especialista explica cuidados antes do lance

Especialista em direito imobiliário alerta para os principais cuidados antes da compra em um cenário marcado por mais de 21,3 milhões de execuções fiscais pendentes.
Desconto em leilão de imóvel pode virar prejuízo sem análise de edital e dívidas
Desconto em leilão de imóvel pode virar prejuízo sem análise de edital e dívidas - Crédito: ARAMYAN / Adobe Stock

Resumo da Notícia

  • Comprar imóveis em leilão pode oferecer descontos de até 37,3%, mas exige análise rigorosa do edital e da situação jurídica.
  • O volume de execuções fiscais no Brasil impacta a oferta de bens, com 21,3 milhões de processos pendentes segundo o CNJ.
  • É fundamental verificar dívidas de IPTU, condomínio e a situação de ocupação do imóvel antes do lance.
  • A possibilidade de financiamento deve ser confirmada previamente no edital, pois nem sempre é permitida.
  • O aumento de fraudes em sites de leilão exige cautela e verificação da autenticidade do leiloeiro na Junta Comercial.

Comprar um imóvel por valor abaixo do mercado é o principal atrativo dos leilões judiciais e extrajudiciais. Em algumas plataformas do setor, os descontos médios registrados em 2025 chegaram a 37,3%, índice suficiente para chamar a atenção de investidores e também de quem busca a casa própria.

Mas o preço menor não conta a história inteira. Antes de dar um lance, o comprador precisa entender de onde vem aquele imóvel, quais dívidas podem acompanhá-lo, se há alguém ocupando o bem, se o edital permite financiamento e até se o leilão é verdadeiro. Sem essa leitura, a economia inicial pode ser engolida por custos, demora ou disputa judicial.

Em entrevista ao Portal N10, o advogado Igor Lopes Assunção, especialista em direito imobiliário e leilões, afirma que a modalidade pode ser vantajosa, desde que o comprador não se deixe conduzir apenas pelo desconto.

Os leilões podem oferecer oportunidades muito vantajosas, mas exigem uma avaliação cuidadosa. Muitos compradores observam apenas o valor do lance e deixam de analisar fatores jurídicos, financeiros e operacionais que podem impactar diretamente o investimento”, afirma.

O aumento da oferta de bens em leilão acompanha um problema antigo do Judiciário brasileiro: o volume de processos em fase de cobrança. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Brasil encerrou 2024 com cerca de 21,3 milhões de execuções fiscais pendentes. Desse total, 84,5% estavam concentradas na Justiça Estadual.

Na prática, parte desses processos envolve a tentativa de recuperar créditos por meio da venda de bens. É nesse ambiente que imóveis acabam levados a leilão, seja por dívidas tributárias, processos judiciais, inadimplência em financiamentos ou outras cobranças.

Esse cenário ajuda a explicar o crescimento do mercado. Ao mesmo tempo, também mostra por que o comprador precisa agir com cautela. Um imóvel em leilão quase sempre tem uma história jurídica por trás. E essa história precisa ser lida antes da compra.

O que verificar antes de participar

A primeira etapa é conferir a situação jurídica do imóvel. Isso inclui a matrícula atualizada, certidões de ônus, débitos de IPTU, taxas condominiais, informações sobre eventual ocupação e, principalmente, o processo ou contrato que originou a venda.

O edital também precisa ser lido por completo. É nele que aparecem as regras do leilão, a forma de pagamento, a comissão do leiloeiro, prazos, responsabilidades do arrematante e eventuais débitos que podem ou não ficar a cargo do comprador.

Segundo Igor, um erro comum é acreditar que a arrematação limpa automaticamente todos os problemas do imóvel.

Muitas pessoas desconhecem que determinadas responsabilidades podem variar de acordo com a natureza do débito e com as regras estabelecidas no edital. Por isso, a leitura completa desse documento é indispensável para compreender exatamente quais obrigações poderão ser assumidas pelo comprador”, explica o fundador da Lopes Assunção Advogados.

Ou seja: o lance vencedor não deve ser calculado apenas pelo valor anunciado. O comprador precisa colocar na conta despesas pendentes, impostos, condomínio, custos com advogado, eventual ação para posse, reforma e prazo até conseguir usar ou revender o bem.

Imóvel ocupado pode atrasar a posse

Outro ponto decisivo é saber se o imóvel está vazio. Em muitos leilões, o bem ainda é ocupado por antigos proprietários, locatários ou terceiros. Nesses casos, o comprador pode precisar negociar a saída ou recorrer à Justiça para obter a posse.

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Esse detalhe muda completamente a expectativa de quem imagina receber as chaves logo após pagar.

Existe a expectativa de que as chaves sejam entregues logo após o pagamento, mas a realidade pode ser diferente. Dependendo da situação, o comprador poderá aguardar meses ou até mais de um ano para ter acesso efetivo ao imóvel”, destaca Igor Lopes Assunção.

A demora não é um detalhe pequeno. Dados do CNJ mostram que processos pendentes em fase de execução têm duração média de 5 anos e 3 meses. Já as execuções fiscais encerradas em 2024 tramitaram, em média, por 7 anos e 7 meses.

Isso não significa que todo imóvel arrematado ficará preso por anos, mas reforça que o prazo real da operação pode ser bem maior do que o comprador imagina no momento do lance.

Financiamento nem sempre é permitido

Há leilões que permitem financiamento imobiliário, mas isso não é regra. A possibilidade precisa estar expressamente prevista no edital. Além disso, o imóvel precisa atender às exigências da instituição financeira.

Esse é outro ponto que pode derrubar uma compra mal planejada. Se o comprador entra no leilão contando com financiamento sem confirmar a regra antes, pode não conseguir pagar dentro do prazo e ainda sofrer penalidades previstas no edital.

A recomendação é simples: antes de ofertar qualquer valor, o interessado deve confirmar se o pagamento será à vista, parcelado, financiado ou se há exigências específicas.

Nem sempre dá para visitar o imóvel

Parte dos imóveis ofertados em leilão não permite visita interna. Nesses casos, a decisão precisa ser tomada com base em documentos, fotos, localização, padrão do condomínio ou do bairro, histórico do imóvel e comparação com preços de mercado na região.

Isso aumenta o risco da operação. O comprador pode descobrir depois problemas estruturais, necessidade de reforma, ocupação irregular ou condições diferentes das imaginadas. Por isso, a análise prévia deve ser mais conservadora.

O desconto só é real quando considera o custo total da compra. Um imóvel 30% mais barato pode deixar de ser vantajoso se exigir reforma alta, ação judicial longa ou pagamento de débitos não previstos pelo comprador.

Onde estão as maiores ofertas?

O mercado de imóveis em leilão também tem forte concentração regional. Um levantamento dos imóveis disponibilizados pela Caixa Econômica Federal em junho de 2025 mostrou que aproximadamente 30% das oportunidades estavam em São Paulo.

Na sequência aparecem Minas Gerais, com 11%; Rio de Janeiro, com 9%; Paraná, com 8%; e Rio Grande do Sul, com 7%.

A concentração acompanha o tamanho desses mercados imobiliários, mas também exige leitura local. Preço, liquidez, demanda por aluguel e facilidade de revenda variam muito de uma cidade para outra.

Golpes cresceram junto com o interesse

O avanço dos leilões também abriu espaço para fraudes. Sites falsos, anúncios clonados, cobrança indevida e pressão por pagamento imediato têm se tornado mais frequentes.

Antes de qualquer lance ou transferência, o comprador deve verificar se o leiloeiro tem registro regular na Junta Comercial, confirmar a autenticidade do site e desconfiar de ofertas com desconto exagerado, promessa de facilidade incomum ou urgência para pagamento fora dos canais oficiais.

O comprador deve sempre validar todas as informações em canais oficiais e buscar orientação especializada quando necessário. O desconto aparente pode se transformar em prejuízo real quando não existe uma análise prévia adequada. Em leilões, a segurança da operação começa muito antes do primeiro lance”, conclui Igor Lopes.

No fim, o leilão pode ser uma boa oportunidade, mas não combina com impulso. O comprador que se prepara olha para o imóvel como investimento completo: preço, edital, dívidas, posse, prazo, risco jurídico, liquidez e segurança da plataforma. Só depois disso o desconto deixa de ser promessa e passa a ser, de fato, uma chance de bom negócio.

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