Resumo da Notícia
A classe C, que representa cerca de 61% da população brasileira, é o grupo com maior fragilidade financeira na busca por imóveis para locação: parte expressiva dos pretendentes compromete entre 30% e 50% da renda com aluguel, enquanto outros chegam a direcionar até 60% do salário para moradia.
O dado faz parte do Anuário FC 2025, levantamento da plataforma de análise de crédito imobiliário FC Analise, baseado em 109.562 propostas efetivas de locação realizadas em 2025.
O estudo mostra também uma mudança importante no perfil de quem procura aluguel no Brasil. Autônomos, profissionais liberais, MEIs, empresários e candidatos que não informaram a origem da renda somam 54% da base analisada, superando trabalhadores CLT, funcionários públicos e aposentados. Esse cenário amplia o desafio das imobiliárias na análise de crédito, especialmente pelo risco da chamada renda inflada, quando extratos bancários podem aparentar uma capacidade financeira maior do que a renda real disponível para pagar o aluguel.
Em entrevista concedida ao Portal N10, Marcus Costa, co-CEO da FC Analise, afirma que o comprometimento elevado da renda é um sinal de alerta para o setor.
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“Patamares acima de 30% indicam pressão no orçamento das famílias e aumento das chances de instabilidade financeira que possam influenciar no pagamento em dia”, afirma Marcus Costa, co-CEO da FC Analise.
Aluguel pesa mais no orçamento da classe C
O levantamento aponta que a classe C concentra um risco estrutural maior no mercado de locação. Segundo os dados apresentados, 48% dos pretendentes desse grupo direcionam entre 30% e 50% do salário para o aluguel, enquanto outros 20% ultrapassam esse patamar, chegando a comprometer até 60% dos rendimentos.
Esse dado é relevante porque o aluguel costuma ser uma despesa fixa e de difícil ajuste no curto prazo. Quando a moradia consome uma fatia muito alta da renda, qualquer perda de receita, atraso no pagamento ou despesa inesperada pode afetar diretamente a capacidade de manter o contrato em dia.
A pressão também aparece entre locatários da classe B. O estudo mostra que esse grupo concentra 49% das propostas, com 26% comprometendo 30% ou mais dos ganhos.
A leitura da FC Analise ocorre em um contexto de crescimento da moradia por aluguel no país. A empresa cruzou dados para avaliar o cenário em um período no qual esse tipo de moradia passou de 22,3% para 23% entre 2023 e 2024, chegando a 17,8 milhões de domicílios, segundo o IBGE.
Quem está puxando a demanda por locação no Brasil?
O Anuário FC 2025 analisou 198.393 CPFs, a partir das 109.562 propostas efetivas de locação. Isso representa uma média de 1,8 pessoa por requisição, refletindo situações comuns no mercado, como composições familiares, coparticipantes e garantidores.
O perfil etário também ajuda a explicar a força da demanda. Segundo o levantamento, 72% dos requerentes têm entre 18 e 45 anos. A Geração Y concentra 42% das propostas, seguida pela Geração Z, com 30%. A Geração X representa 18%, enquanto os Baby Boomers somam 10%.
Para Marcus Costa, esse recorte mostra um público em movimento, com maior necessidade de mudar de endereço e menor disposição para processos lentos.
“A demanda é puxada por quem está em fase de formação familiar, mobilidade profissional e consolidação de carreira. Esse é o público que mais muda de endereço e tem pouca paciência para burocracia, o que exige processos rápidos e inteligentes de análise. É fundamental conhecer o perfil real dos inquilinos para transformar números em inteligência de mercado e oferecer melhores opções”, diz Costa.
Renda instável e MEIs desafiam análise de crédito
Um dos principais alertas do estudo está na avaliação de trabalhadores com renda não linear. Autônomos, empresários e candidatos que não informaram a origem da renda somam 54% da base, à frente dos CLT, que representam 33%, e de funcionários públicos e aposentados, que juntos chegam a 13%.
Esse perfil exige uma leitura mais técnica porque a renda mensal pode variar bastante. No caso de MEIs e profissionais que trabalham por conta própria, o uso isolado de extratos bancários pode distorcer a análise. O dinheiro que entra na conta nem sempre representa renda pessoal disponível, já que pode incluir movimentações do negócio.
“Esse é um dos riscos mais silenciosos do setor. O extrato bancário é um espelho de movimentações e, no caso de profissionais que trabalham por conta própria e costumam misturar despesas pessoais e empresariais, boa parte dessas transações corresponde ao fluxo de caixa do negócio, e não à renda efetivamente disponível para pagar o aluguel”, observa o especialista da FC Analise.
O crescimento desse público acompanha o avanço dos pequenos negócios. O Brasil registrou 3,8 milhões de aberturas de CNPJ como MEI em 2025, segundo o Sebrae, o que reforça a presença de rendas variáveis nas análises de locação.
Reprovação cresce nas faixas de renda mais baixas
O levantamento também mostra que a reprovação de propostas aumenta conforme a renda diminui. A taxa é de 25% na classe A, sobe para 35% na classe B, chega a 64% na classe C e alcança 95% nas classes D e E.
Para reduzir riscos de inadimplência e melhorar a tomada de decisão, o anuário defende o uso de critérios técnicos e uma estratégia mais orientada por dados. A recomendação envolve organizar melhor a carteira, cruzar informações do perfil dos locatários e compreender a realidade econômica da região onde a imobiliária atua.
“A recomendação é segmentar a carteira de imóveis por valores e perfis compatíveis; mapear os locatários por faixa de renda, idade e performance de pagamento; e conectar essa leitura com os dados socioeconômicos da região em que a empresa atua”, sugere Costa.
A tecnologia aparece como apoio nesse processo. A plataforma cita o Score FC, ferramenta que aplica inteligência analítica em mais de 20 parâmetros e considera padrões de comportamento específicos em locação para calcular o risco do perfil financeiro.
Mercado precisa adaptar análise ao novo perfil do locatário
O avanço dos autônomos, MEIs e profissionais com renda variável muda a lógica da concessão de crédito para aluguel. A análise tradicional, focada apenas em comprovantes simples de renda, pode não ser suficiente para identificar a real capacidade de pagamento.
Com dados mais precisos, imobiliárias podem captar imóveis de forma menos aleatória, direcionar ofertas por perfil, reduzir riscos para proprietários e evitar que inquilinos assumam compromissos incompatíveis com sua renda.
“O crescimento do trabalho autônomo e de perfis mais dinâmicos de locatários exige novos modelos de análise de crédito, com inteligência de dados para possibilitar ao mercado decisões estratégicas com velocidade e segurança”, conclui o especialista.
