Resumo da Notícia
As apostas esportivas online deixaram de ocupar apenas o centro do debate regulatório e passaram a aparecer com força dentro de um problema mais amplo: o avanço do endividamento das famílias brasileiras. Um novo estudo realizado pelo Ibevar em parceria com a FIA Business School aponta que as chamadas bets já exercem um impacto superior ao dos juros ao consumidor e da oferta de crédito sobre a aceleração da dívida doméstica no país.
O dado que mais chama atenção está na comparação direta entre os fatores medidos. De acordo com a pesquisa, o coeficiente associado às apostas, de 0,2255, aparece muito acima do impacto do crédito sobre a renda, de 0,0440, e também supera o efeito dos juros ao consumidor, de 0,0709. O estudo analisou o intervalo entre dezembro de 2011 e dezembro de 2025 e concluiu que, no período mais recente, as apostas se tornaram o fator mais forte entre os elementos observados.
A leitura do levantamento é direta: o crescimento das bets alterou a dinâmica do endividamento no Brasil. O que antes era explicado com mais peso pela combinação entre custo do dinheiro e expansão do crédito passou a incorporar um novo vetor, mais agressivo e mais sensível para o orçamento doméstico.
Estudo aponta mudança no ritmo da dívida após expansão das apostas
Ao longo da série histórica analisada, a pesquisa identificou uma leve tendência de desaceleração no crescimento do endividamento. Esse comportamento, porém, muda quando as apostas esportivas entram de forma mais intensa no cotidiano do país. Popularizadas a partir de 2019, depois da legalização em 2018 e antes da regulamentação definitiva em 2023, elas passam a coincidir com uma nova pressão sobre a dívida das famílias.
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O presidente do Ibevar e professor da FIA Business School, Claudio Felisoni, resume essa inflexão de forma clara: “Ao longo do período analisado, observou-se uma leve tendência de desaceleração no crescimento do endividamento. No entanto, após a entrada das apostas esportivas, legalizadas em 2018 e amplamente difundidas a partir de 2019, antes da regulamentação definitiva em 2023, a dinâmica da dívida ganha novo impulso”.
A fala ajuda a entender por que o resultado da pesquisa ganha relevância além do campo financeiro. O estudo não sugere apenas um novo hábito de consumo ou um mercado em expansão. Ele indica que o crescimento das bets passou a interferir no comportamento da dívida de maneira mais intensa do que variáveis tradicionalmente associadas à pressão sobre o orçamento familiar.
Peso das bets supera até a soma de juros e crédito
O ponto mais duro do levantamento está na hierarquia dos impactos. As apostas não aparecem apenas à frente de um dos fatores clássicos do endividamento. Elas surgem com peso maior até do que a soma dos efeitos relacionados aos juros e à oferta de crédito.
Quando o estudo mostra que o coeficiente das bets chega a 0,2255, diante de 0,0440 para crédito sobre a renda e 0,0709 para juros ao consumidor, ele expõe uma mudança importante no centro do problema. A dívida deixa de ser pressionada apenas por condições financeiras tradicionais e passa a incorporar com força um comportamento de consumo que, embora digital e recente, já se converteu em variável macroeconômica.
Esse resultado também ajuda a deslocar o debate. O avanço das apostas costuma ser tratado sob o prisma da regulação, da publicidade ou da tributação. O estudo, porém, indica que a discussão precisa alcançar também o terreno do endividamento doméstico, da vulnerabilidade financeira e dos efeitos persistentes sobre famílias com menor margem de segurança.
Comparação com os Estados Unidos reforça alerta
O avanço das apostas no Brasil, de acordo com o estudo, segue trilha semelhante à observada nos Estados Unidos depois da decisão da Suprema Corte, em 2018, que liberou o mercado naquele país. Os estudos norte-americanos mencionados apontam que a legalização provocou aumento rápido no volume apostado.
Os efeitos não ficaram restritos ao setor de apostas. O material citado mostra que cada US$ 1 gasto em apostas reduziu quase US$ 1 em investimentos no mercado financeiro. Além disso, os impactos negativos se concentraram sobretudo em famílias financeiramente vulneráveis, justamente com aumento do endividamento.
A aproximação entre os dois cenários reforça o sinal de alerta no caso brasileiro. O problema, nessa leitura, não é apenas o crescimento de um mercado novo, mas a forma como ele disputa espaço diretamente com recursos que poderiam estar sendo destinados a outras finalidades, inclusive aplicações financeiras ou gastos mais sustentáveis dentro da rotina doméstica.
Questão macroeconômica, não apenas regulatória
Na avaliação de Claudio Felisoni, a principal conclusão da pesquisa é que o tema precisa ser tratado com um grau de seriedade maior do que o normalmente reservado a discussões setoriais. Ele afirma: “A conclusão do estudo é clara: o crescimento acelerado do mercado de bets (no Brasil) não é apenas uma questão regulatória ou tributária. Trata-se de um fator macroeconômico com potencial de ampliar a vulnerabilidade financeira e pressionar o endividamento doméstico no médio e longo prazo”.
Essa formulação amplia o alcance do problema. Em vez de limitar a discussão ao funcionamento do mercado de apostas, o estudo chama atenção para o efeito que esse avanço pode produzir sobre o equilíbrio financeiro das famílias ao longo do tempo. A preocupação deixa de ser pontual e passa a envolver um horizonte de médio e longo prazo, com potencial de ampliar fragilidades já existentes.
O que a pesquisa coloca em evidência, portanto, é um reposicionamento do debate. As bets não aparecem apenas como fenômeno de consumo ou de entretenimento digital, mas como elemento capaz de pressionar a dívida doméstica, reduzir margem financeira e aprofundar a exposição de famílias mais vulneráveis. Em um país já marcado por limitações de renda e dificuldade de organização financeira em parte expressiva da população, esse deslocamento de recursos ganha peso ainda mais preocupante.
